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Conan Osiris | Para dançar a melancolia

©Rui Palma

Entrevistas 17. 5. 2018

by Tiago Manaia

 

A música de Conan Osiris começou como um rumor de internet. Adoro Bolos é já o seu terceiro álbum, mas nos últimos meses o interesse pelo cantor lisboeta ganhou outro tipo de proporções. Não há jornal em que não se fale dele, e canções como Celulitite ou Borrego são agora cantadas em coro em concertos que se multiplicam por todo o país. Para a Vogue aceitou cantar [veja o vídeo aqui] acompanhado de uma harpa, num encontro que ganhou forma numa sessão fotográfica. Há muito tempo que não conhecíamos alguém assim. Fotografia: Rui Palma. Styling: Ruben Sá Osório. Maquilhagem: Frederico Simão.

Tínhamos encontro marcado num quiosque de rua, só que Conan não estava na esplanada. Inesperadamente sentado no chão, mais longe na terra batida, ficou melancolicamente a um canto à nossa espera. Há um resto de sol a bater-lhe na cara, fixa o telemóvel, não percebe que está a ser observado. O cor de rosa do gorro que tem na cabeça, contrasta com o fato treino cinzento que veste. Na sobrancelha esquerda guarda ainda restos de sangue falso da sessão fotográfica que fez connosco na noite anterior. O sangue realça o seu olhar esverdeado. Um olhar que não vai parar de mudar ao longo da nossa entrevista. “Estás a demorar muito a começar a fazer as tuas perguntas”, diz em tom de desafio. Deixámos a Praça da Alegria para nos sentarmos num clube de snooker, Conan morde uma coxa de frango frita enquanto bebe água. 

© Rui Palma. À esquerda, João, o bailarino que acompanha Conan nos seus concertos, veste casaco e calças Miguel Vieira, proteção Adidas, ténis Reebok. À direita, Conan veste um casaco Nike e à cintura tem um sobretudo Lidija Kolovrat, uma saia Dino Alves e calças da Cos.

 

“Há vertigem ou medo neste súbito interesse que despertas nas pessoas?” – queremos saber. “Não há uma coisa nem outra. Tenho a minha vida normal, continuo a fazer lasanha vegetariana para a minha mãe no Dia da Mãe. Às vezes tudo isto pode ser inspirador, mas como também pode ser destrutivo, eu prefiro anular os dois e ser uma coisa neutra. Nunca me deixo ficar bué contente pelas coisas boas.” Desde 2014 que Conan coloca os seus álbuns na internet, mas o entusiasmo de alguns amigos durava já há anos, ainda no tempo do MSN era através do chat que partilhava canções com eles, “e depois iam-me pedindo para fazer coisas novas: há sempre aquele amigo que começa a ligar mais quando sais em todos os jornais de Portugal, e não é por mal. É uma coisa de contaminação subliminar que uma pessoa precisa de receber. Mas a minha mãe ficou chocada. Ela mal sabia que eu fazia música, quanto mais que já ia no terceiro álbum.” A magia espalhou-se também quando passou a cantar maioritariamente em português ,“eu ligo à métrica e as palavras para mim chegam a agir como uma percussão”. Entramos num mundo à parte a ouvir as suas canções, com associações de ideias que nos fazem viajar do trágico para o cómico em poucos segundos. Nelas diz-nos que a saudade pode andar aos beijos com a morte, ou que está à espera de um anjo para o levar a comer um kebab. É preciso ler nas entrelinhas? Conan não nos diz o que motiva a escrever.  As músicas já não lhe pertencem, partiram. São como um bebé que agora foi lançado para vida, crescem sozinhas. “O meu caminho e o do público encontrou-se. Em todas as linguagens que tive e tenho, houve uma convergência para uma coisa mais consolidada que deu para entrançar nos fios das pessoas em geral. A mensagem é mais ampla.”

©Rui Palma. À frente João, bailarino nos concertis de Conan, veste casaco, calças e ténis Nike, Cachecol Ricardo Andrez, Kimono Adidas, calções Lacoste. Conan veste um hoodie Alexandra Moura, casaco e calças Lacoste, botas Ermenegildo Zegna

 

Com 29 anos, ele é um verdadeiro músico autodidata, aprendeu a concretizar tudo no computador em casa sozinho, da mesma forma que testa o seu fôlego agora em palco, para se aguentar até ao fim de uma atuação. É a fazer que se descobre. 

Durante a sessão fotográfica para o Vogue.pt, aceitou improvisar um dos seu temas com uma harpista. Até esse momento acontecer, tinha pedido para ser fotografado em silêncio. “Eu tinha um certo desgosto de não ter amigos músicos. E na nossa sessão aquilo foi estranho, sem nunca nos termos conhecido, e mesmo eu não sabendo o nome das notas, consegui que a harpista soubesse e entendesse o que lhe estava a dizer. Nós não precisamos de uma academia para nos entendermos”. 

Depois de cantar à nossa frente algo mudou nele, como se a música fosse no fundo a única razão para ali estar. Pediu para ouvir Nicki Minaj e dançou com “os melhores hits das favelas” que procurou no Youtube.

©Rui Palma. Conan veste um colete Lidija Kolovrat, uma T-shirt H&M, calções e ténis Nike, na cabeça um cap Vfiles

 

O viveiro de referências musicais que acumula, foi-lhe dado pela internet e os canais televisivos de música que cresceu a ver na adolescência. A meio do ciclo preparatório deixou Lisboa para viver no Cacém, para trás ficavam os amigos de infância, avançava para o estranho momento da puberdade sozinho. Já tinha perdido o pai aos 8 anos. Houve bullying mas ele aguentava-o bem, quando chegava a casa estava na dele, “eu tinha cabelo até à cintura, andava sempre com um gorro porque não curtia as minhas orelhas, usava terços, parecia género uma nossa senhora. Imagina eram coisas de que gostava, e não me ia vestir igual às outras pessoas. O meu estilo era uma coisa estranha e bué pobre. Não eram coisas roubáveis e eu não era muito ‘batível’. Era só ‘gozavel’ oralmente”. Nessa fase, sofria de depressão profunda. “Eram assuntos de foro familiar e a própria vida”. A depressão parou quando os problemas acabaram. 

No liceu optou por artes, e aí conheceu Ruben Osório, o stylist com quem tem desenvolvido a sua imagem, inspiram-se nos heróis de anime ou no hibridismo dos androides, “porque na vida é preciso desligar sistemas em ti ou então ficas mesmo maluco”. Na faculdade rumou em direção a Castelo Branco. A experiência rural acalmou-o, estudava design gráfico mas queria ter feito artes plásticas.  

©Rui Palma. Conan veste um hoodie Alexandra Moura e um casaco Lacoste

 

Já de regresso a Lisboa, quando Conan procura o primeiro trabalho, Portugal estava mergulhado na crise financeira, os limites do FMI espalhavam o medo. “A minha mãe andava a dizer-me que ia levar o meu curriculum ao Feira Nova da Bela Vista, então eu arranjei trabalho numa sexshop”. É assim que paga as contas há 6 anos. 

O que aprendeu sobre o desejo? – “Percebi que as pessoas desmancham muita coisa. Eu ali só lhes vejo o interior, nunca lhes vejo a concha, vejo sempre o molusco. Comecei a entender a essência humana como uma coisa aglutinada, há várias cascas mas o que está por dentro é parecido.” Na sala de snooker onde conversamos o barulho do jogo é abafado pela rádio que toca ao longe, ouve-se Linger dos The Cranberries e Conan cala-se. Os olhos verdes enchem-se de lágrimas que nunca chegam a cair. 

“Não vou chorar. Está música é que não devia estar a dar agora”. E remata: “chorar é uma coisa muito soft. A vida é para rir e fazer coisas. Dançar, comer e jogar jogos.” 

Há muitos sonhos no rapaz que se improvisa guerreiro à nossa frente? – “ Para mim os sonhos, é sonhar à noite. Eu vivo só o dia à dia, hoje posso morrer. E nisso eu não tenho querer. Pedi muitas vezes para morrer quando tinha problemas, se tu pedes uma coisa dessas, e se isso chegar a ti – tens de te aguentar. Eu agora não tenho saldo contabilístico para pedir mais nada. Tenho de trabalhar só isso.”

Embalados pela conversa, deixamos a Praça da Alegria para nos despedirmos na Avenida da Liberdade. Alegria e liberdade: são duas palavras que se atiçam no mundo que Conan tem para nos dar. A melancolia torna-o profundamente intenso.

 

Agradecimentos: Marta Cruz e Carlos Fofi Cipriano, Silly Season, Joana Carneiro e Zé Pedro Henriques.

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