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Como é realmente viver com stress pós traumático?

24 Jun 2021
By Anne Lora Scagliusi

Junho é o mês de consciencialização do Transtorno de Stress Pós-Traumático (TSPT) - uma campanha mundial lançada para reduzir o estigma associado ao transtorno e dar apoio às vítimas. Para aumentar a consciencialização sobre o tema, a Vogue falou com quatro mulheres em todo o mundo sobre como é realmente viver com stress pós-traumático.

Junho é o mês de consciencialização do Transtorno de Stress Pós-Traumático (TSPT) - uma campanha mundial lançada para reduzir o estigma associado ao transtorno e dar apoio às vítimas. Para aumentar a consciencialização sobre o tema, a Vogue falou com quatro mulheres em todo o mundo sobre como é realmente viver com stress pós-traumático. 

Fotografia de Pablo Quoos. Vogue Portugal, Freedom on Hold Revisited, publicada em agosto de 2020.
Fotografia de Pablo Quoos. Vogue Portugal, Freedom on Hold Revisited, publicada em agosto de 2020.

Quando Tiffany Denny -  sobrevivente de uma relação abusiva, que se tornou mentora de recuperação de relações, no Utah -  descobriu que estava a sofrer de stress pós-traumático, ficou completamente chocada tendo em conta que apenas associava a doença a casos extremos, como a guerra. Mas, de facto, a doença mental pode originar como resultado de qualquer tipo de evento traumático, seja trauma de infância, abuso sexual ou psicológico, um acidente ou um desastre. A psicoterapeuta Nadia Addesi diz que o transtorno pode ocorrer em pessoas que têm historial de doenças mentais ou que sofrem com o abuso de substâncias ou alcoolismo: “Fatores biológicos têm um papel no desenvolvimento e diagnóstico do TSPT”, diz Addesi.

Os efeitos do TSPT podem ser debilitantes, afetando negativamente relações, carreira, sono e a saúde mental de uma pessoa, bem como a sua capacidade de funcionar no dia a dia. Em alguns casos, pode resultar em suicídio: “Algumas pessoas passam muito tempo da sua vida a sofrer de TSPT sem sequer perceber que têm a doença”, diz Alex Gerrik, CEO da Fearless. Foi isto que aconteceu a Tiffany Denny: “As pessoas têm a ideia errada de que, ao admitir que têm TSPT, estão a admitir que têm uma fraqueza.”

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, uma em cada quatro pessoas no mundo, são afetadas por distúrbios mentais ou neurológicos, e cerca de oito em cada 10 pessoas, vão ter TSPT em algum momento das suas vidas - é por isso que é tão importante espalhar a consciencialização sobre este transtorno. “Uma maior consciencialização ajuda a desmistificar o TSPT e encoraja quem sofre a aceder a tratamentos e ajuda, de forma aberta e inclusiva”, diz Gerick.

Junho é o mês de consciencialização do stress pós-traumático, e a campanha global é lançada para fazer exatamente isso: lançar luz sobre o impacto do TSPT, as suas causas, curas, e ajudar a pôr fim ao estigma que ainda ronda a doença. 

Para marcar esta ocasião, a Vogue falou com quatro mulheres sobre como é realmente viver com TSPT.  

1. Jen Satterly, 45, EUA

“Tinha 14 anos quando me encontrei pela primeira vez num consultório de psicoloia depois de uma tentativa falhada de suicídio. O abuso de infância [que experienciei] tornou-me introvertida e isso deixou-me mais aberta a bullies. Só em 2016 fui diagnosticada. Informar-me sobre o tema foi um grande primeiro passo. Comecei a terapia aos 14 anos, mas foi só quando encontrei a Terapia Cognitivo-comportamental e a Terapia Focada nas Emoções, que comecei a sentir-me melhor e a melhorar a minha qualidade de vida e relações. Ajudar os outros com o seu trauma tem sido extremamente curativo. Partilhei a minha história no livro Arsenal of Hope: Tactics for Taking on PTSD, Together (2021). Apesar de não ser sempre fácil falar sobre TSPT, assim que o fiz, tirei-lhe poder."

2. Belinda Neil, 53, Austrália

“Tive uma carreira incrível enquanto polícia, que incluía trabalho à paisana, investigação de homicídios e negociação de reféns. Contudo, em 2005, depois de 18 anos a ser exposta a um grande número de cenas de crime e investigações horrorizantes, sucumbi ao TSPT. Tinha 35 anos e, literalmente, não conseguia sair da minha cama. O meu casamento foi a baixo e a minha carreira estava acabada. Depois do nascimento dos meus filhos, as fendas começaram a aparecer. Comecei a ter horrendos flashbacks e pensamentos intrusivos. Estava deprivada de sono e andava constantemente irritada. Andava esquecida - esquecia-me de tomar banho, pôr desodorizante e comer. Não me conseguia concentrar".

“Na altura, não estava a saber lidar com a situação, mas estava a fazer psicoterapia com uma psiquiatra que tinha experiência com TSPT. Inicialmente, recusei os conselhos da psiquiatra em tomar anti-depressivos, porque não acreditava que precisasse deles. Mudei de opinião depressa quando estive perto de terminar a minha vida. Escrevi um livro de memórias, Under Siege (2016), para dar algum apoio a quem sofre de TSPT, bem como dar sugestões sobre como amigos e família podem ajudar”.

3. Emma Boman Högmark, 31, Suécia 

“Eu tive TSPT depois de uma relação abusiva. Não soube lidar com a situação durante muitos anos: perdi trabalhos, amigos e família por causa disso. Quase perdi os meus filhos à custa disso também. Em 2020, finalmente obtive ajuda. Fiz um ano de terapia cognitivo-comportamental. Parte da minha terapia era gravar algum do trauma pelo qual tinha passado e que mais afetou a minha vida. Foi tão difícil - a coisa mais difícil que fiz em toda a minha vida. Recentemente, fui à minha última sessão e já não tenho TSPT. Tem sido um caminho árduo, mas valeu muito a pena! Agora estou livre."

4. Kinoko, 28, Japão

"Fui diagnosticada com TSPT depois de experienciar os horrores do terramoto e tsunami Tōhoku, a 11 de março de 2011. Estava em casa quando experienciei o terramoto. Desde essa altura que tenho pesadelos em que estou a morrer num terramoto pelo menos uma vez por semana - como resultado, sofro de distúrbios do sono. Ouvir um alarme de terramoto ou um som semelhante causa lágrimas ou ataques de pânico".  

"Fiquei doente tanto física como mentalmente. Sofro de depressão, distúrbios de ansiedade, transtornos de adaptação e desbalanços autônomos. A cada 11 de março, a televisão japonesa e a internet inundam-se com notícias e reportagens especiais para comemorar as vítimas do desastre. Apesar de ser importante lembrar a tragédia, é importante que as pessoas que sofrem de traumas escapem a coisas menos agradáveis ou assustadoras. Eu passo esse dia a ignorar a televisão e a internet".

Se acha que pode ter TSPT ou que alguém próximo pode estar a sofrer do mesmo, fale com um profissional de saúde mental. Encontre um mentor ou um terapeuta especializado em Stress Pós-Traumático e/ou trauma, junte-se a um grupo de apoio e/ou fale com algum membro de família ou amigo em quem confie e que o ouça. Veja aqui fóruns locais ou internacionais, e para quem sofre com pensamentos suicidas, a ajuda está aqui. 

Anne Lora Scagliusi By Anne Lora Scagliusi

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