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Cecília Henriques por uma lupa

Entrevistas 2. 10. 2017

by Ana Carvas

 

Viajámos pelo imaginário da atriz numa tentativa de descortinar a evolução de uma ideia até à concretização de um sonho, de um projeto e de uma vida. Falámos com Cecília Henriques, a rapariga de armas e sem papas na língua que nos deu as voltas com afirmações ousadas dignas da sua atitude rebelde q.b.

Para os mais desatentos ao melhor que o teatro e a televisão têm para oferecer em Portugal, a atriz é certamente um dos nomes a conhecer. Ela é a Gisela da novela. É também uma das fundadoras da companhia Plataforma285, que tem prestado um trabalho de excelência no teatro, com peças únicas, originais e pertinentes - no palco, fazem uma reprodução crua e dura da realidade. Para além disso, leva-nos numa odisseia pelo conhecimento da explosão criativa nacional. Que é real, e a um nível astronómico, muito graças a pessoas como ela.

Num privado, desvendamos a essência de uma pessoa. Com Cecília Henriques, esta tarefa pareceu-nos árdua dada a sua complexidade. Mas pelo menos tentámos.

 

O sonho

Quando eu era criança queria ser caçadora de tornados, caixa de supermercado, a Barbie Malibu, a Gwen Stefani. Traduzi esta vontade numa profissão que me permite ser estas coisas todas. 

Relação com o mundo

Tenho para aí uns 5 amigos e um gato. Mas exijo muito deles, de mim e do Mundo.

O sucesso

Tenho sorte porque passo o meu tempo livre em sítios onde as pessoas quase não veem televisão. Às vezes, por preconceito parvo; outras vezes, por falta de tempo. De resto, a Gisela da novela Amor Maior só me trouxe coisas boas - como por exemplo mais tempo de antena para falar do que acho pertinente.

Amor maior: novelas vs teatro

O meu amor maior são os objetos artísticos nos quais estou envolvida. Seria complicado fazer só isto porque os apoios para as artes estão viciados e a condicionar pensamento para servir "certas" agendas, o que é extremamente perigoso. Eu adoro fazer novela! Para além de ser o que me permite estar mais descansada a nível monetário, diverte-me muito e torna-me mais rápida na ação. No entanto, onde existo como ser criativo, e onde encontro lugar para questionar e gerar discurso, é no meu trabalho de criação na Plataforma285. E também com outras companhias como o Cão Solteiro. Aí é que existo. Acho incrível esta coisa de poder estar com um pé no mainstream e outro no menos conhecido. Não tenho perfil para lamber as botas certas no meio do teatro, por isso, esta dualidade Televisão-Teatro é a única maneira de continuar.

Ter uma companhia de teatro

Conheci o Raimundo na Lua Vermelha. É engraçado que a Plataforma285 tenha surgido através de uma novela. Não é por acaso e isso traduz-se no nosso trabalho. Os dois tínhamos muitas dúvidas sobre o teatro que se fazia, e sobre o que seria esta coisa do "so called teatro”, e estávamos cheios de vontade de fazer coisas nossas. Essencialmente, sobre assuntos urgentes para nós. Sem a figura antiga e, por vezes, paternalista do encenador. Fazer coisas nossas. Era essa a nossa vontade.

Plataforma285 

A Plataforma285 tem, como núcleo duro, eu, o Raimundo Cosme e a Marta Passadeiras. Fazemos espetáculos que testam os limites do teatro e o põe em confronto com outros formatos. O próximo espetáculo vai ser em formato de karaoke. Já fizemos um que era um leilão, outro que era um concurso, outro em formato concerto-tributo. Gostamos deste confronto de tentar teatralizar formatos que se mostram, à partida, não "teatralizáveis". Desenvolvemos uma dramaturgia original, sempre em co-criação. Falamos sobre alta cultura e baixa cultura. Adoramos o Sex send me to the ER do TLC.

Ser atriz

Ser atriz é um conceito um bocado vago embora seja mais concreto em televisão. No teatro que faço, o criador e o performer (ator) são termos tão próximos que se confundem.

Referências

Paula Sá Nogueira e a Baby, do Dirty Dancing. Não me lembro do nome da atriz! [Jennifer Grey.]


Ser sexy

É um bocado como o slogan da Evax: “sentes-te limpa, sentes-te bem”.

Redes Sociais

Uso, mas nem tanto. A minha página dá-me muito trabalho... Prefiro materiais em 2D.

Personalidade

Aquele emoji com as flames, claro.

Moda

É mais uma forma que tenho para comunicar. E para gerar discurso. Para incomodar ou descontextualizar. Faz parte da identidade. Tento que tudo o que eu visto tenha um discurso, que atue de alguma forma. 

Vestes o que sentes? Ou sentes o que vestes?

Visto o que sinto e sinto o que visto. Quanto muito, porque o tato está ligado ao tecido. Mas isto é só semiótica!

A última inutilidade que comprou

O meu namorado.

Vícios

Feijão com arroz e manga com chocolate.

Causa

Todas as causas são boas desde que sejam justas.

Alcunhas carinhosas

A minha família trata-me por bebé, porque sou a mais nova. É assim porque eles gostam. Mas chamo estúpido ao meu namorado porque gosto muito dele. Estas são as minhas preferidas - as alcunhas não concordantes com a verdade.

Nome de uma autobiografia

Do convento para o Cabaret ou Do Novo Circo para o Lux.

A melhor arma de uma mulher é...?

Há-de ser a mesma que a dos homens, certo?

Quem dá o dia não pode dar a noite. O que escolhias?

O meio termo. Pode ser que veja as duas luzes.

Projetos futuros

You Need Heart To Play This Game, da Plataforma285 no Maria Matos em fevereiro. Vale Tudo na SIC. And so on, and so on. Não sou pessoa de estar parada.

 

Ficha Técnica

Fotografia: Rui Palma

Styling: Mia Lourenço

Maquilhagem: Rúdi Fernandes

Cabelo: Danila Hatzakis

Produção: Joana Cavaco e João Louro (HIT Management)

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