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Tendências 30. 11. 2018

The Handbag's tale

by Beatriz Teixeira

 

Não precisamos de bola de cristal nenhuma para saber que um acessório com formas infinitas, que por dentro nos leva a vida e por fora diz quem somos, só podia ser mágico.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: carteira Kelly II em pele, € 6.300, Hermès. Sparkling Blush, eau de parfum, € 56, Michael Kors. Batom Rouge Allure Velvet, € 35, Chanel. Avião em pele, Hermès. Cadeira Caribe, em metal revestido a PVC, Andres Valbuena, na Quarto Sala. Anel GG em ouro, € 1.650, Gucci. Mesa Crane Side em metal e vidro, € 295, Pols Potten. Bolsa em pele, Loewe. Sandálias em cetim de seda, € 550, Marni. Pente banhado a ouro, € 42, Aerin. Óculos de sol com armação em acetato, Acne Studios. © Fotografia de Pedro Ferreira. Realização de Ana Caracol e Pedro Barbosa.

"Nunca julgue nada pela sua aparência, até as carpet bags”, disse Poppins a Michael e Jane depois de retirar um cabide para chapéus, um espelho, uma planta e um candeeiro da sua carteira aparentemente leve e não tão grande assim. Não que esta fosse uma must-bag, mas teve um bag-effect. Vamos a uma breve história verídica, de não há muito tempo. Não é hábito vasculhar carteiras alheias, mas quando alguém há dias me pôs no colo a sua everyday bag, não resisti (somos bffs, eu posso). Os mil talões de há semanas não me surpreenderam, nem tão‑pouco o fez um nécessaire muito particular. Lá dentro, não estava um, nem dois, nem três, mas sete batons. Sete. Quase todos variações de vermelho. Amiga não julga, mas para quê? Ah, claro, porque as coisas nos dão segurança. Sei disso melhor que ninguém, não estivesse a minha carteira cheia de todo o tipo de coisas “dispensáveis”, de alfinetes a cadeados, infinitos pacotes de pastilhas, produtos de maquilhagem e skincare, molas e elásticos para o cabelo e uma série de outras coisas que não importa mencionar. Carteira inspecionada há algumas frases atrás és compreendida. Afinal de contas, sabe-se lá que compromissos de última hora nos podem aparecer na agenda e ter um batom para cada uma dessas infinitas possibilidades pode funcionar como um excelente sedativo. Contamos com as carteiras para isso mesmo, para nos reconfortarem a alma e nos salvarem num qualquer momento de desespero, seja por carregarem sete batons ou um milagroso alfinete. E, mais, contamos com elas para nos guardarem segredos, para nos disfarçarem a desarrumação (são peritas em engolir lixo sem nunca abrirem a boca) e manterem viva uma dose de mistério, como se perguntar “o que tens na tua carteira?” fosse uma espécie de invasão de privacidade. E depositamos tanta confiança neste objeto idealmente utilitário que o levamos, tantas vezes, ao limite das suas capacidades. Versão pequena ou não, queremos carregar coisas lá dentro. E conseguimos, ao longo da história, tornar-nos peritas nisso, como se de magia se tratasse. E nem o ultimate challenge em forma de obsessão por micro bags se nos meteu no caminho. 

A recente avalanche de pequeníssimas carteiras, da Le Sac Chiquito da Jacquemus à Micro Peekaboo da Fendi, pode fazer pensar que sim, mas as micro bags estão entre nós há que tempos. Não são propriamente uma novidade, e a novidade está, sim, no facto de este bombardeamento de opções mini ter criado listas de espera intermináveis, nada que o celeb effect não tenha ajudado a conseguir. Todos passámos a querer uma e nem o facto de estas versões reduzidas virem com preços não tão reduzidos serviu de empecilho ao desejo. E também não interessa para nada que algumas nem sequer tenham espaço suficiente para abrigar um iPhone Plus. Afinal de contas, quanto menor o tamanho, maior será o statement. “As carteiras pequenas não se encaixam em todas as ocasiões, mas quando as usamos, elas significam liberdade. Representam um lifestyle carefree que todos gostaríamos de encarnar de vez em quando”, escreve-nos por email Susan Alexandra, a designer por trás da marca de carteiras com o mesmo nome, aquelas que nos apareceram no feed do Instagram o verão inteiro, feitas à mão com missangas (e uma dose de magia, diz a loja online).

É, uma carteira que podia pertencer à Polly Pocket pede desapego e, em troca, dá serenidade. E é precisamente isso que queremos quando juntamos uma micro bag ao carrinho de compras. Adenorah sabe-o bem. A influencer francesa, fundadora e diretora criativa da Musier Paris, raramente é vista sem uma micro bag e a ter de imaginar a carteira perfeita prefere falar em sensações. “Eu diria libertadora. O melhor é quando nem a sentimos.” Não importa o modelo, no seu interior carrega sempre as mesmas coisas: telemóvel, cartão de crédito, batom vermelho e, se houver espaço, a câmara fotográfica analógica. “O truque é levar o mínimo possível.” Ah, que libertador soa conseguir reduzir a tralha ao essencial e encontrar o cartão de crédito ou as chaves de casa à primeira. Mas e quando isso é mesmo impossível? Adenorah tem mais truques na manga. “O segredo das carteiras pequenas é ter uma amiga com uma versão maior que possa pôr lá dentro as tuas coisas.” *inserir emoji da menina de braço levantado*

“As carteiras pequenas não se encaixam em todas as ocasiões, mas quando as usamos, elas significam liberdade. Representam um lifestyle carefree que todos gostaríamos de encarnar de vez em quando”

Mais do que liberdade e organização, uma carteira de proporções pequenas vem com poder e estatuto, não há como negar. E a sua inexistência também, dizia certa vez ao BoF.com Alexandra Shulman, a anterior diretora da Vogue britânica: “Hoje, a habilidade de ser bag-free é um power move que indica que se tem uma PR ou uma assistente que lhe carrega as coisas a uma distância discreta.” Ou, para o comum mortal, um tote bag extra... Leandra Medine, fundadora do Man Repeller, já meditou várias vezes sobre a sua relação nem sempre mágica com as suas carteiras. Primeiro achou por bem renunciar publicamente ao seu uso em geral pelo menos seis vezes na vida, motivada pela possibilidade de essa renúncia a vir a tornar uma mulher de mistérios, seriamente empenhada em apenas ter consigo aquilo de que precisasse (e, com bravura, descartar o que não precisaria assim tanto). Entretanto, os anos passaram e Leandra aprendeu a complexa arte da aceitação. “Agora que sou mais velha – e não sábia, mas certamente mais realista – sei a verdade. Já não sou falsamente otimista em achar que preciso de poucas coisas e estou a tentar sentir mais compaixão por mim própria, entrei num estado de aceitação. Esta aceitação deu-me o seguinte mantra: Mesmo que eu nem sempre tenha muitas coisas, neste momento eu tenho. E isso é OK! Por isso, em vez de tentar ser uma mulher que eu acho que sou, porque não sentir-me orgulhosa damulher que eu sou agora? Ela é cool – e tem muitas coisas. E então?” No meio dessas coisas, Leandra nem sempre inclui o porta-moedas, as chaves de casa ou o telemóvel, porque nem sempre sabe onde os tem, mas sabe de outra coisa: “As carteiras não são apenas carteiras se não quiser que assim seja. São um marco de mudança positiva. De aceitação de identidade. De amor-próprio e tudo isso.”

As carteiras já foram de muitas formas. Foram pequenas, foram grandes, foram gigantes, foram inspiradas em tendas, foram uma gaiola para pássaros, foram um emoji sorridente, foram para a noite, foram para o dia, foram para usar na mão, foram para usar coladas ao corpo, foram icónicas, foram tendência, foram desastrosas, foram de pele, foram de pelo, foram de PVC. Fossem como fossem, todas foram feitas para nos levar a vida lá dentro (não é por acaso que roubarem-nos a carteira é um sentimento semelhante a roubarem-nos a identidade). Mas também para dizer ao mundo que tipo de vida levamos, e para nos fazerem sentir bem com isso. Não importa se aquela Chanel é micro ou normal size – se a temos, ela diz algo sobre nós. Diz quem somos ou quem queremos ser. E é por isso que estamos dispostas a não olhar no momento de carregar no botão verde que finaliza a compra. Voltemos àquele artigo do BoF.com e às palavras de Alexandra Shulman. “As mulheres estão preparadas para largar quantias significativas por um item que, na sua forma mais básica, não faz mais do que faria um saco de plástico. Exceto fazê-las sentir bem.” Mais: mesmo que estas “mulheres joguem pelo seguro, devido às convenções próprias do local de trabalho ou simplesmente por falta de interesse em roupa, estas mesmas mulheres frequentemente terão uma carteira incrível”. É, este acessório tem qualquer coisa de místico, qualquer coisa que nos leva à obsessão e que nos faz ficar cegas, tentadas a cometer os maiores devaneios. Uma Birkin vale uma vida de dívidas, já se ouviu dizer, e nem mais de 30 anos recheados de títulos óbvios sobre “a nova it bag”, estação após estação, lhe roubam o poder. Passe o tempo que passar, suspeitamos que continuaremos a não ter acesso a uma pela via normal. E que outro acessório o conseguiu?

Por falar em devaneios, também estamos obcecados em andar para trás no tempo para recuperar carteiras “esquecidas”. Da saddle bag da Dior à baguette da Fendi e as variadíssimas Pradas em nylon. Porque não queremos só qualquer coisa que nos guarde no interior os cigarros que vão trazer a calma num dia demasiado tudo. Nem queremos só uma forma de nos esconder as inseguranças, a desarrumação e o exército de coisas que tantas vezes exigimos ter por perto. Queremos isso e o sentimento de encantamento que só uma carteira que exigiu lágrimas e suor nos pode oferecer. E se ela plays hard to get e nos desafia a ter menos coisas por dentro, melhor ainda. Em troca, aceitamos toda a sua magia.

*Artigo originalmente publicado na Vogue Portugal de outubro 2018.

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