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Carolina K chega à Comporta

24 Jun 2026
By Vogue Portugal

Fotografia: Luísa Bravo

Numa missão de traduzir técnicas ancestrais em peças contemporâneas, Carolina Kleinman fundou a Carolina K com um olho no passado e outro no futuro – mantendo sempre um pé bem assente no presente. Para celebrar o novo capítulo da marca, a Vogue Portugal rumou à Comporta para conversar com a fundadora e designer sobre a importância do artesanato na Moda.

Já todos sabemos que a Moda é uma contadora de histórias; mas mais do que traduzir emoções em padrões e visões artísticas em silhuetas que ilustram o dia a dia que nos rodeia, a Moda é também o habitat predileto de técnicas cujas origens se tornaram dúbias ao longo das décadas. Entre segredos ancestrais e ferramentas que pulam gerações ao invés de crescerem com elas, a Moda tem vindo a tornar-se um veículo de conservação histórica e cultural. 

Carolina Kleinman sempre soube que o seu caminho seria a Moda. E foi sob a missão de reforçar que somos o resultado das facetas que vamos colecionando ao longo do tempo que decidiu criar a sua marca homónima, Carolina K. Num entrelaçar de referências e inspirações que datam aos primórdios da história e nos convidam a embarcar numa aventura pelos mais diversos cantos e recantos do nosso planeta, a marca estabeleceu o seu ADN através de colaborações artesanais com talentos locais. Agora, a fundadora traz as suas propostas de Moda, acessórios, decoração e beachwear para Portugal, através de uma loja pop-up na Quinta da Comporta. 

Ao longo de um dia passado na serenidade da Comporta, Carolina Kleinman, a fundadora da marca, falou com a Vogue Portugal sobre o que este novo capítulo representa para a Carolina K, assim como o seu eterno fascínio por colecionar e incorporar técnicas seculares no seu trabalho.


Fotografia: Luísa Bravo

Como é que a marca surgiu? Houve algum momento específico que a tenha inspirado a dar início a este projeto?
A Carolina K foi lançada em 2005, mas a inspiração para a marca surgiu muito antes. Cresci rodeada de Moda e têxteis. A minha mãe era designer de Moda em Buenos Aires, e o meu avô dirigia uma empresa de têxteis e aviamentos na Bolívia antes de eu nascer, por isso a Moda estava, sem dúvida, no meu sangue. (...) Desde o início que sabia que, se alguma vez criasse uma marca de Moda, queria que ela tivesse um propósito mais profundo. Queria construir algo significativo que pudesse ajudar a preservar a cultura, a história e o património, ao mesmo tempo que criasse oportunidades para as comunidades de artesãos. Essa visão tornou-se a base da Carolina K e continua a orientar tudo o que fazemos hoje.

Já viajou bastante, e isso é visível em todo o ADN da marca. Quais foram as principais lições que retirou das suas viagens e que implementou na marca?
Viajar ensinou-me que cada cultura possui a sua própria sabedoria, beleza e forma de compreender o mundo. Uma das lições mais importantes que aprendi foi o valor de abrandar o ritmo e apreciar o toque humano por trás das coisas que criamos com os nossos parceiros. Passar tempo com comunidades de artesãos em toda a América Latina e além-fronteiras mostrou-me que o artesanato não é apenas uma técnica; é uma forma de preservar a identidade, a história e um sentimento de pertença.

As minhas viagens tornaram-se também uma extensão da própria marca. Viver durante longos períodos em locais como o México e o Peru ensinou-me a importância do respeito, de saber ouvir e de construir relações genuínas. Sempre que visito uma comunidade, não estou lá para transmitir conhecimento, mas para aprender com o conhecimento que já existe. Estes encontros moldaram a forma como trabalhamos enquanto marca, promovendo relações duradouras com os artesãos e criando coleções que honram as suas tradições, permitindo-lhes, ao mesmo tempo, evoluir e alcançar novos públicos. Através destas experiências, percebi que a moda pode ser uma ponte entre culturas. O espírito de intercâmbio cultural, colaboração e respeito mútuo está profundamente enraizado no ADN da Carolina K e continua a inspirar tudo o que fazemos.


Fotografia: Luísa Bravo

O que é que mais a inspira quando está a criar uma nova peça ou coleção?
(...) Cada coleção começa com uma história. Por vezes, essa história leva-me de volta às minhas raízes na Argentina, levando-me a explorar a minha herança cultural e as tradições que me moldaram. Outras vezes, é inspirada por um lugar que estou a descobrir. Por exemplo, a nossa próxima coleção primavera/verão é inspirada em Portugal. Um dos meus designers vive aqui e, juntos, passámos algum tempo a explorar o país, a visitar lojas de azulejos antigos, a fazer viagens de carro até fábricas locais de artigos para o lar e a mergulhar na sua cultura e no seu artesanato. Gostamos de aprofundar-nos quando criamos. Há sempre uma história por trás de cada coleção, desde o momento em que embarcamos num avião para explorar um destino, até às pessoas que conhecemos e aos artesãos que dão vida a cada peça. Estamos constantemente à procura de formas de honrar as técnicas ancestrais, reinterpretando-as através de uma perspetiva contemporânea. O resultado é algo que se revela único, significativo e profundamente ligado à viagem que o inspirou.

A sua marca combina ready to wear, beachwear, acessórios e decoração. Na sua opinião, o que é que liga todos estes universos diferentes?
O que une todos estes universos é a arte de contar histórias, o trabalho artesanal e um modo de vida. Quer se trate de um vestido, de um fato de banho, de um acessório artesanal ou de uma peça para a casa, cada criação começa com a mesma intenção: celebrar a beleza, a cultura e as mãos humanas por trás do que criamos.

Sempre considerei a Carolina K mais do que uma marca de Moda. É uma marca de lifestyle inspirada nas viagens, na Arte, na natureza e nas incríveis comunidades com as quais trabalhamos em todo o mundo. Cada categoria torna-se mais uma forma de expressar esse universo. (...) Juntas, criam um mundo coeso que reflete um sentimento de ligação, criatividade e individualidade. Em tudo o que criamos, há um fio condutor: o compromisso com o artesanato, o design significativo e peças que contam uma história. Quer se trate de Moda ou de decoração, queremos que cada artigo transmita uma sensação de personalidade, atemporalidade e alma.


Fotografia: Luísa Bravo

É argentina, mas já viveu no México, está atualmente nos EUA e está agora a celebrar a inauguração de um espaço pop-up em Portugal. Dito isto, acha que a sua marca está ligada a um local específico ou que, por natureza, se inspira nos diferentes cantos do mundo?
Sim, cresci na Argentina, mas saí de lá ainda muito jovem. Morei em Los Angeles e em Nova Iorque antes de me mudar para o México, onde passei vários anos nas montanhas de Tepoztlán. Também morei no Vale Sagrado, no Peru, e viajei bastante pela Colômbia, pela Guatemala e pelo Uruguai. No início da minha marca, passei algum tempo na Índia, onde fui para um ashram para praticar yoga e meditação. Essa experiência permitiu-me conectar-me mais profundamente com o meu lado espiritual, o que, juntamente com o meu amor pela música, se reflete em toda a marca. (...) Não creio que a marca pertença a um lugar específico. É inspirada nos muitos lugares, culturas e pessoas que moldaram a minha vida. Cada destino deixa uma marca, seja através do artesanato, das tradições, das cores, das paisagens ou do modo de vida.

Tenho também uma ligação especial com Portugal. Falo um pouco de português porque cresci a visitar o Brasil, onde tenho família, e sempre me senti atraída pela cultura portuguesa e pelo seu forte sentido de identidade. (...) Não consigo imaginar-me ligada a um único lugar. Adoro descobrir novas culturas, aprender com diferentes comunidades e passar momentos significativos nos locais que visito. As viagens continuam a inspirar-me, tanto a nível criativo como pessoal. Por muito que aprecie a consistência, sinto sempre curiosidade em saber o que mais há para aprender e experimentar. Esse espírito de exploração está no cerne tanto da minha vida como da minha marca.

As suas peças recorrem a técnicas antigas. Como é que consegue encontrar o equilíbrio entre o passado, o presente e o futuro?
(...) Acredito que algumas das ideias mais significativas do passado podem ser trazidas para o presente e repensadas para o futuro. Vejo isso como um círculo contínuo, ou até mesmo uma espiral. O passado torna-se o presente, o presente torna-se o futuro e, depois, o ciclo recomeça. Essa sensação de continuidade ressoa profundamente em mim e influencia a forma como penso sobre o design. Em vez de estar constantemente à procura de algo totalmente novo, estou interessada em conferir longevidade ao que já existe. (...) Acredito que a permanência é algo de que precisamos mais na Moda. Vivemos num mundo saturado pela sobreprodução e pelo consumo constante. (...) Para mim, o verdadeiro design consiste em criar coisas que se mantêm relevantes e significativas ao longo do tempo.

Ao mesmo tempo, corremos o risco de perder técnicas artesanais e tradições culturais incríveis. Preservá-las tornou-se parte da minha missão. Através do nosso trabalho e de colaborações como a Fashion for Fragile Ecosystems, apoiada pela FAO, espero ajudar a dar visibilidade a comunidades e ao artesanato que, muitas vezes, passam despercebidos no cenário global. Acredito que a tecnologia pode desempenhar um papel importante para ajudar estas tradições a prosperar (...) e acredito que o futuro da Moda reside no restabelecimento da ligação com o artesanato, a durabilidade e a alma. As ideias mais inspiradoras provêm, muitas vezes, de culturas e tradições ancestrais. O nosso papel é honrar esse conhecimento que vem do passado, ao mesmo tempo que encontramos formas ponderadas e inovadoras de o levar adiante.


Fotografia: Luísa Bravo

De que forma é que a estética da Carolina K se enquadra no ambiente e na atmosfera da Comporta?
O que acho mais interessante na Comporta é o equilíbrio entre sofisticação e simplicidade. É um lugar onde as pessoas têm olho para o design, mas onde tudo transmite uma sensação de descontração e despretensão. (...) O que mais adoro é que a Comporta conseguiu preservar uma certa autenticidade. Apesar de ficar relativamente perto de Lisboa, parece completamente afastada do ritmo da vida citadina, como se estivéssemos a entrar noutro mundo. De certa forma, acho que a Carolina K complementa esse espírito. As nossas coleções trazem cor, artesanato e narrativas a ambientes naturais e discretos. Existe um equilíbrio entre a vivacidade e a simplicidade, entre os detalhes artesanais e um estilo de vida descontraído. Acho que essa combinação se encaixa na perfeição na Comporta.

Tem planos futuros de expansão para o resto de Portugal?
Neste momento, estamos a conceber uma coleção inspirada em Portugal e a colaborar com artistas portugueses, o que tem sido um processo muito emocionante. Esta é a terceira vez que passo um período prolongado aqui e, a cada visita, sinto uma ligação cada vez mais forte ao país, à sua cultura e à sua comunidade criativa. Espero continuar a expandir a nossa rede de artesãos, artistas e fábricas em Portugal. Existe um nível incrível de mestria artesanal, especialmente na cerâmica, nos têxteis e nos artigos para o lar, e estou muito interessada em explorar mais a fundo essas colaborações.

Portugal está definitivamente no radar da Carolina K – seja através de futuros eventos, parcerias criativas, produção de peças de decoração ou novos projetos, vejo esta relação a continuar a crescer. Mais do que uma mera expansão, estou interessada em construir ligações significativas e criar trabalhos que sejam genuinamente inspirados nas pessoas e nas tradições que encontramos ao longo do caminho.


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