Numa retrospetiva com os olhos postos no futuro, a Vogue Portugal falou com Bia Caboz para descobrir mais sobre a sua carreira e a forma como a música e a Moda se entrelaçam no seu universo criativo, desta vez, aliada à adidas e aos clássicos Superstar.
Há uma certa precisão na miscelânea que define a arte de Bia Caboz. Entre a herança lusitana do fado e uma visão que espelha a sua realidade além-fronteiras, a artista tem vindo a tecer um percurso singular no mundo da música nacional. Agora, prestes a iniciar um novo capítulo profissional com o single Contramão, a fadista aliou-se à adidas para uma colaboração que atravessa diferentes visões criativas.
Como é que a música chegou à tua vida?
A música chegou muito cedo. Comecei a tocar viola por volta dos seis anos e rapidamente se tornou parte natural da minha rotina. No início, era sobretudo curiosidade; com o tempo, fui percebendo que cantar era mais do que um passatempo. Era uma forma de me expressar e de dar voz a emoções que não sabia explicar. A música acabou por se tornar o lugar onde tudo fazia sentido: as histórias, os sentimentos e a forma como via o mundo.
O fado é um género com longas décadas de história. Como é que percebeste que esse era o espaço musical com o qual sentias mais afinidade?
Curiosamente, comecei a cantar fado sem influência direta de ninguém. À medida que ia descobrindo novos fados, a minha mãe e as minhas tias reconheciam-nos imediatamente. Não porque me tivessem passado esse gosto, mas porque também tinham crescido dentro desse universo. Ao ouvirem-me cantar, vinham-lhes à memória pedaços da própria infância, e criava-se ali um encontro muito bonito entre gerações.
Mais tarde, quando voltei a viver na Madeira, essa ligação ganhou outra força. O fado era a memória viva das bordadeiras, que tinham passado a vida a bordar com o rádio ligado. (...) Havia também algo curioso: cada vez que eu cantava fado, pediam-me sempre para repetir. Nunca acontecia com outras músicas. Foi aí que comecei a perceber que, mesmo cantando vários estilos naquela altura, o fado tinha em mim um impacto diferente – e em quem me ouvia também.
Nasceste na Madeira e cresceste em Lisboa, mas passaste também temporadas em Londres, na Suíça e no Brasil. De que forma é que esse acumular de experiências se reflete na tua arte?
A Madeira foi o início de tudo. Foi onde comecei a cantar e onde montei o meu primeiro projeto. Foi também lá que tive as primeiras oportunidades de abrir concertos de grandes artistas internacionais. (...) Nem sempre tudo corria exatamente como imaginava, mas foi ali que aprendi uma coisa muito importante: a não depender de ninguém para transformar uma visão em espetáculo. Mais tarde, cheguei às casas de fado em Lisboa, mas viver fora foi absolutamente essencial para o meu percurso. Passar por Londres, Suíça e, sobretudo, pelo Brasil permitiu-me entrar em contacto com outras formas de viver, de pensar e de sentir o mundo. Quando nos afastamos do lugar onde tudo começou, ganhamos uma espécie de distância interior que nos permite olhar para nós próprios com mais clareza. (...) Às vezes, é preciso afastarmo-nos para perceber com mais nitidez de onde vimos – e que voz queremos trazer connosco.

Como é que descreverias o teu processo de criação artística?
O meu processo de criação é muito consciente e muito rigoroso. Eu escrevo, componho e produzo, por isso, uma música pode passar bastante tempo comigo antes de estar realmente terminada. Às vezes, começo pela letra e pela melodia ao mesmo tempo, outras vezes nasce primeiro a melodia, mas a parte mais difícil é quase sempre encontrar as palavras certas. (...) Comecei a olhar para cada palavra quase como uma equação matemática. A ideia é encontrar um ponto muito preciso entre várias coisas ao mesmo tempo: escrever com significado e profundidade, mas de uma forma simples o suficiente para que a mensagem chegue ao maior número de pessoas possível, sobretudo aos mais jovens.
O mesmo acontece na melodia – procuro medir muito bem as voltas fadistas que dou, para que a música mantenha essa riqueza, mas sem se tornar distante para quem não tem o hábito de ouvir fado. Para mim, é importante conseguir chegar a esse público de forma estratégica, introduzindo, aos poucos, elementos dessa linguagem para que ela vá entrando naturalmente no ouvido deles. A ideia é que a mensagem chegue quase sem se aperceberem – e que acabem por cantar algo que, no fundo, traz um ensinamento ou uma reflexão importante. (...)
No fundo, as minhas músicas nascem de um processo de observação consciente da vida e da caminhada evolutiva que, para mim, acontece sempre em espiral. A música só termina quando sinto que tudo comunica exatamente a mesma coisa: a voz, a produção, a melodia e o ambiente visual.
De que forma é que a adidas se encaixa neste teu universo?
É muito especial para mim poder associar-me à adidas. É uma marca que, tal como eu, tem uma relação muito forte com a tradição, mas que nunca teve medo de a reinventar. E por isso é que se tornou tão forte, cool e abrangente. A ousadia de pegar em algo com história e transportá-lo para novos contextos é algo com o qual me identifico muito e que também está no centro do meu trabalho artístico.
É uma honra enorme ter a adidas como parceira em Contramão. Especialmente por ser uma parceria envolvendo os Superstar Originals. Foi incrível perceber como tudo encaixou na perfeição dentro da minha estética visual – no universo do lançamento do álbum e, sobretudo, na identidade do single para o qual fizemos o videoclipe juntas. Contramão fala de não parar e de seguir sempre em frente. Tem uma mensagem forte – e o simbolismo dos Superstar veio fechar tudo com chave de ouro. No videoclipe, existem duas personagens: uma Bia Caboz mais tradicional e outra mais disruptiva. O que as distingue está nos detalhes. A Bia mais tradicional usa Superstar pretos, normalmente associados ao fado, com riscas brancas – quase como um sinal de que, dentro dessa identidade mais clássica, existe um lado mais fresco. Já a Bia mais disruptiva aparece com Superstar brancos de riscas pretas – o inverso. Uma forma de dizer que, mesmo na minha versão mais moderna, a tradição está lá, viva.

A tua imagem artística tem uma forte componente visual. Até que ponto a roupa e o styling influenciam a forma como apresentas a tua música ao público?
Influenciam completamente. A roupa não muda apenas a forma como as pessoas me vêem – muda também a forma como escutam e interpretam a música. O visual é uma extensão daquilo que está a ser cantado. Para mim, tudo faz parte da mesma narrativa: o som, o palco, o movimento e a imagem. Quando comecei a pensar na minha identidade artística, algumas coisas ficaram muito claras desde o início. A imagem teria sempre uma base sensual e elegante. O figurino pode mudar consoante o concerto, o videoclipe ou a personagem de cada música, mas todas essas variações pertencem a esse mesmo universo.
Existem dois elementos que mantêm sempre essa continuidade visual: o cabelo e as joias. O cabelo quase sempre solto, muito natural, com um volume forte, que comunica uma energia visceral e instintiva. As joias também são uma parte essencial dessa identidade. São joias tradicionalmente associadas ao fado, mas inventei uma forma personalizada de as usar. Uso aneis em todos os dedos, muitas pulseiras, colares e brincos grandes. As pulseiras são usadas como se fossem luvas, criando uma espécie de armadura simbólica. (...) No fundo, a imagem é aquilo que comunica quando não há espaço para explicações. É ela que revela a intenção, o conceito e a energia de tudo o que está a acontecer. Por isso, no meu caso, a imagem nunca é um detalhe. Tudo é pensado milimetricamente.
Os Superstar são um modelo clássico da adidas. O que é que te atrai neste tipo de peça icónica quando pensas no teu visual?
O que mais me fascina é a capacidade de ser intemporal. São ténis que funcionam com qualquer roupa, não apenas porque ficam bem, mas porque carregam uma memória e uma identidade que continuam vivas ao longo do tempo. De certa forma, isso representa muito aquilo que eu também procuro fazer na música: atravessar tradição e modernidade sem perder identidade. É quase arrebatador pensar que alguém desenhou aquele modelo há tantos anos e que ele continua a fazer sentido hoje. Faz-me acreditar que certas ideias, quando são realmente fortes, conseguem viver para sempre. É exatamente isso que a adidas faz de forma brilhante com os Superstar: criar algo que atravessa gerações sem perder identidade. É também isso que espero conseguir construir com a minha carreira.

O fado é algo intimamente português; ainda assim, num mundo cada vez mais global, quais sentes que são os valores deste tipo de música que mais facilmente se traduzem para outras culturas e partes do mundo?
Eu acho que a coisa mais especial do fado é a melodia. Portugal é um país muito pequeno no mapa, mas tem uma linguagem musical extremamente única. Quando alguém ouve fado, mesmo sem perceber a letra, sente imediatamente que há ali qualquer coisa muito especial. É um pouco como acontece com certas melodias árabes ou flamencas: não precisamos de entender as palavras para sentir a intensidade daquela música.
Foi exatamente a pensar nisso que escrevi Sentir Saudade. Desde o início que queria criar uma ponte entre a melodia marcada do fado e o universo da música eletrónica. Quando escrevi a música ao piano, percebi imediatamente que aquela melodia podia viajar muito mais longe se fosse colocada num contexto diferente. A ideia era precisamente essa: manter a identidade fadista da melodia, mas levá-la para uma produção eletrónica que pudesse chegar a novos públicos. (...) A minha intenção era simples: pegar numa linguagem muito portuguesa e deixá-la circular noutros territórios musicais. (...)
Sinto que o fado tem uma capacidade muito rara. Quando chega a alguém que nunca o ouviu antes, pode ser profundamente impactante. O fado é quase como uma língua musical: pode não se perceber a palavra, mas percebe-se imediatamente a emoção. E acho que ter uma tradição musical assim, tão distinta no mundo, é uma riqueza cultural enorme para um país tão pequeno.

Qual foi o teu maior pinch me moment até agora e qual gostarias que fosse a tua próxima grande conquista?
Curiosamente, grande parte do que aconteceu na minha carreira até agora foi pensado. Muito pouco surgiu por acaso. A maioria das oportunidades que tive foram criadas por mim própria e isso, por si só, já é algo que me deixa muito feliz – ver ideias que nasceram na minha cabeça tornarem-se realidade. (...) Quero construir um legado consistente e consciente de melhoramento humano. Deixar mensagens, aprendizagens e reflexões que a vida me trouxe e que podem ajudar outras pessoas a olhar para si próprias e para o mundo de outra forma. Se puder fazer isso em grandes palcos, para muita gente, em lugares ainda não imaginados, então saberei que não passei por aqui em vão.
Eis como recriar o look adidas Superstar de Bia Caboz em Contramão:
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