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Inspiring Women 7. 1. 2022

bell hooks, a feminista que revolucionou o mundo

by Pedro Vasconcelos

 

bell hooks, 1996 © Karjean Levine/Getty Images

“Amar é estar aberto ao luto, a ser tocado pela angústia, mesmo se esta mágoa for interminável”, reflete bell hooks em Tudo Sobre o Amor (2002).  A ativista, académica e escritora morreu, aos 69 anos, no passado dia 15 de dezembro de 2021. Foi uma das vozes mais proeminentes do feminismo do século XX e XXI. O seu legado como revolucionária eterniza-a na cultura ocidental, nas suas obras hooks procurou instruir o público sobre os sistemas de opressão dos quais são vítimas, e como, com esforço comum estes podem mudar.  

bell hooks era o pseudónimo usado pela académica Gloria Jean Watkins, original do estado de Kentucky no sul dos Estados Unidos, tendo nascido em 1952, a escritora foi uma vítima de políticas de segregação. Criada no seio de uma família da classe operária, a comunidade da sua cidade natal acabou por inspirar muito do seu trabalho futuro. Hopkinsville era um verdadeiro refúgio da opressão racial que se sentia no resto do país, com uma população maioritariamente afro-americana, era um abrigo para todos aqueles que no seu quotidiano eram esmagados por opressão social, política e económica. Desde pequena demonstrou um grande desejo pela leitura, assim como uma sede de sucesso que em muito transcendia as ambições daqueles que a rodeavam. A sua irmã, numa declaração feita após a sua morte, relembra: “a Gloria aprendeu a ler e a escrever quando tinha apenas sete anos e até proclamava que seria famosa um dia”. Foi com esta motivação que, aos 17 anos, foi admitida com bolsa na Universidade de Stanford. Foi durante o período da sua licenciatura em Literatura Inglesa que bell hooks começou a escrever o livro que a catapultaria para o estrelato académico, Ain’t I a Woman.

Posteriormente continuou a sua carreira académica na Universidade de Wisconsin e na University da California, Santa Cruz, obtendo um mestrado e doutoramento, respetivamente. Em 1976 publica o primeiro livro And There We Wept, uma coleção de poemas. Foi a primeira vez que utilizou o seu pseudónimo, em honra à sua bisavó materna, Bell Blair Hooks. A autora insistiu sempre para que o seu pseudónimo fosse escrito em letras minúsculas, querendo que a atenção residisse “na substância dos livros, não em mim”, como a própria declarou. 

Foi em Ain’t I a Woman (1981) que hooks estabeleceu uma forma de feminismo que até então não tinha precedente. A autora desafiava a noção que o movimento na altura descrevia com exatidão as complexidades das vidas de todas as mulheres. A segunda onda do movimento feminista, que se iniciou em meados da década de 60, era caracterizada por vozes que se focavam nos problemas de mulheres brancas de classe média. bell hooks defendia que as mulheres de minorias raciais e de classe trabalhadora estavam às margens deste movimento e que, se não se considerasse a etnia e a classe como variáveis, o feminismo tornava-se extremamente redutor. Só através do reconhecimento de desigualdades entre mulheres se poderia criar um feminismo verdadeiramente inclusivo, e não sujeito aos mesmos pecados do patriarcado que critica. Creditada com o termo de feminismo negro, hooks possibilitou toda uma nova geração de feministas que, pela sua etnia, eram excluidas do movimento de direitos da mulher. 

A popularidade e sucesso que alcançou em muito refletiam a sua capacidade de escrever de forma objetiva sobre assuntos complexos. Ao abordar tópicos como racismo, masculinidade tóxica, ou fetichização de forma digerível para as massas, hooks rapidamente se tornou uma figura de referência na cultura popular. Ao longo da sua carreira escreveu mais de 30 livros e inúmeros artigos académicos. Desde livros para crianças a obras dedicadas à interseção entre capitalismo e o patriarcado, chegando inclusive à literatura sobre o amor. 

O legado da ativista é extremamente extenso e excecionalmente diversificado e, por essa mesma razão, organizamos uma lista daquelas que consideramos ser as cinco obras essenciais de bell hooks.

Não Serei Eu Mulher? As Mulheres Negras e o Feminismo

€ 18, Orfeu Negro

A obra que introduziu a ativista ao mundo literário feminista, assim como o seu livro mais celebrado. hooks procura entender as vidas de mulheres negras através do sexismo, racismo e elitismo que caracteriza a sociedade norte-americana. Ao executar uma análise histórica a autora explica de forma relativamente simples sistemas de opressão e dominação que se perpetuam na civilização ocidental. 

All About Love: New Visions

€ 13,86, em Wook.pt

bell hooks reintroduz o conceito de amor como nunca ninguém o fez. Ao longo das páginas de um dos seus livros mais celebrados, a ativista disseca o conceito de amor de forma a explicar a sua ligação com os sistemas de opressão que nos rodeiam. No que não deixa de ser uma obra extremamente filosófica, hooks proporciona-nos as ferramentas para receber e dar amor como um ato de rebeldia face a um mundo que, em todas as instâncias, nos procura subjugar.  

Teoria Feminista: da Margem ao Centro  

€ 18, Orfeu Negro

Considerada uma obra extremamente radical na época da sua publicação, em 1984, bell hooks defende revolução feminista que ataca diretamente políticas que refletem ideologias sexistas, racistas e capitalistas. Elaborado a partir de uma critica ao movimento feminista, o livro é considerado por muitos o modelo para o que entendemos como feminismo dos dias de hoje. 

Teaching to Transgress: Education as the Practice of Freedom

€ 44,14, em Wook.pt

Naquele que pode parecer um apelo a professores de se oporem aos sistemas de opressão para os quais contribuem, a obra de 1994 é, mais precisamente, uma análise de como a educação pode ser uma prática de liberdade. Enquanto professora, bell hooks explicita a sala de aula como o melhor campo de batalha para combater as estruturas racistas e sexistas que permeiam as sociedades ocidentais.   

Feminism is for Everybody 

€ 21,43, em Wook.pt

Naquele que é um dos seus livros mais curtos, hooks sintetiza os argumentos do feminismo, defendendo que todos se associem a este, independentemente do género, etnia ou classe social. Ao reconhecer as criticas que fez ao movimento no passado, a ativista reconhece o crescimento que este fez ao longo de 20 anos, em grande medida devido às suas contribuições. Com a sua franqueza, hooks explica objetivamente a utilidade do feminismo na vida de todos.

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