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Michael Kardamakis construiu um dos maiores arquivos da Helmut Lang

13 Sep 2021
By Alex Kessler

Michael Kardamakis, arquivista sediado em Berlim, descreve o seu amor pelo designer de culto dos anos 90, e o que a indústria pode aprender com esta parte da história.

Michael Kardamakis, arquivista sediado em Berlim, descreve o seu amor pelo designer de culto dos anos 90, e o que a indústria pode aprender com esta parte da história.

Michael Kardamakis © Chris Kontos
Michael Kardamakis © Chris Kontos

Tendo começado a sua carreira enquanto vendedor online, Kardamakis transformou a sua compreensiva coleção naquilo que é hoje: um espaço para guardar peças raras da história da Moda e um recurso essencial para as marcas contemporâneas. “Designs icónicos podem ser usados como a base para novos ótimos produtos”, diz o arquivista. “Neste momento trabalhamos maioritariamente com consultoria, temos material para as maisons de Moda criarem novos produtos.”

ENDYMA – o termo grego para “vestuário” – foi criado quando Kardamakis estava ainda na sua cidade natal em Atenas antes de se ter mudado para Berlim em 2020. Durante o Reference Festival, algumas das mais importantes peças Helmut Lang foram expostas no Reference Studios showroom. O arquivo também se especializa noutras marcas igualmente influentes, incluindo Raf Simons, Miu Miu menswear, Rick Owens e Burberry Prorsum. 

Kardamakis apresenta aqui o seu amor pela Helmut Lang, a importância de cuidar da roupa e o motivo pelo qual o sistema da Moda precisa de ser reformulado.

© Getty Images
© Getty Images

De onde nasce o seu interesse pela Moda?

Eu comecei a interessar-me por moda quando estava a estudar história da arte na Universidade de East Anglia, em Norwich, e estava sempre a tentar integrar Moda contemporânea no meu curso. Escrevi ensaios sobre jeans e a minha dissertação foi sobre a forma como a Ann Demeulemeester corta os casacos. 

O que é que o levou a colecionar roupa?

Enquanto estava a estudar, ganhava dinheiro a revender roupa e no percurso aprendi bastante sobre os pormenores das peças. O meu interesse pela Helmut Lang começou em 2011, quando ainda ninguém queria saber do minimalismo dos anos 90. Dois anos depois de ter terminado a minha licenciatura e lançado o meu site, tive uma reunião com um designer de uma grande maison de Moda que me perguntou se eu arrendava peças. Desde aí, tornou-se num arquivo. 

De onde vêm as peças?

Procuramos em todo o lado. Se há uma pedra, levantamo-la para ver por baixo. Para além da procura, muitas pessoas encontram-me no Google – mandam-me e-mails e mensagens. Fazemos trocas também com pessoas que conheço pessoalmente. Recebemos pelo menos uma peça por dia.

O que é que procura para a sua seleção?

Estou focado em completar algumas coleções e grupos de objetos, e encontrar também algum vestuário menos conhecido. Os grails em Helmut Lang são óbvios – toda a gente conhece as peças icónicas. Mas para o meu trabalho de arquivista, estas peças são um beco sem saída – são demasiado famosas, demasiado reconhecidas para serem utilizadas enquanto material para trabalho novo.

O que é que o atrai em Helmut Lang?

O trabalho dele é, de muitas formas, estranho porque a maioria das peças não são muito “desenhadas”. Há uma abordagem de arquétipo – os fatos dele são a definição exata de um fato na geometria e proporções clássicas. Há uma clara obsessão pela tradição, mas depois meia manga tem uma cor diferente e com essa característica toda a gente fica maravilhada.

Quais os seus itens favoritos?

Os momentos dos anos 2000 são muito icónicos. Os casacos de ganga também, dos quais tenho uma coleção compreensiva que abrange todas as variantes. Gosto bastante das saias de ganga Hemlut Lang, que serviram de base para a Calvin Kleine de Raf Simons.

Para além de Helmut Lang, quais são os seus designers favoritos?

Neste momento, o trabalho de Dirk Bikkembergs até 1999. Costume National antes de 2001. Também tenho recebido algumas marcas japonesas de malhas, como a FICCE, que fazem malhas ornamentadas. Vintage Burberry, de meados dos anos 80, também.

Quando considera a roupa um investimento?

Obviamente que uma peça reconhecível é um bom investimento porque é uma peça com uma posição na história do design. Também tenho estado a desenvolver algumas propostas próprias, para encontrar valor em peças que não são valorizadas pela maioria. 

O que eleva um designer ao estatuto de culto?

A consistência é crucial na transformação da produção de um designer em algo icónico. Isto requer força, paciência e uma obsessão que a longo prazo se torna numa longa narrativa. Uma peça testada pelo tempo que se mantém cool após 20 anos, isso legitima e, a meu ver, eleva a peça a “culto”.

Porque é que há uma agora uma maior ênfase nos cuidados com a roupa e nas compras em segunda mão na atualidade?

Bem, para começar, eu não teria a possibilidade de comprar um produto high-fashion; comprar em segunda mão foi uma abertura para este mundo. Atualmente, o sistema da Moda tem preços demasiado altos. Há uma constante entrada de novos produtos, parece que estamos descontrolados. 

O que espera que seja o futuro da Moda?

Eu gostava que as maisons de Moda produzissem um terço do que estão a produzir e investissem mais na sua imagem de marca ao invés de tentarem sempre fazer designs diferentes para toda a gente e para cada estação. Esta obsessão pelas tendências, é uma corrida, e não tem sentido. 

Alex Kessler By Alex Kessler

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