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Curiosidades 21. 12. 2018

Aquele outro Natal

by Tiago Neto

 

Não há mesas cheias nem cânticos à volta da árvore, não há jantares demorados nem lareiras como argumento para fazer de casa o epicentro da quadra. Ou há, mas Yen Sung e Paulo Furtado levam o Natal a sério fora de portas, em trabalho, porque a tradição ainda o é. 

Yen Sung © D.R.

Começou por rodar discos sem nunca ter pensado fazê-lo. Nos noventas foi ter com Manuel Reis - fundador do Frágil e do Lux - e, com toda a coragem do mundo, disse-lhe que queria trabalhar no primeiro, que o bengaleiro era, talvez, uma boa opção. Mas a falta de um DJ atirou-a aos pratos e a pista de dança passou a ser casa. Yen Sung é hoje um dos nomes maiores da Lisboa sonora, uma figura de difícil comparação, mestre de cerimónias do altar-mor da capital, o Lux, numa relação que se estende há décadas e que deve muito à combinação de subtileza e bom gosto quando o assunto é música. “Desde pequenina que sabia que era criativa e que queria ser artista. Primeiro quis ser cantora, depois pintora, não sei. Queria tudo e tinha jeito, até.”

Chegou a Portugal aos sete. A família, entre ascendência portuguesa, moçambicana e chinesa, passou-lhe valores religiosos, “era um misto de várias religiões, convivíamos bem com isso”, mas ela assume a pouca prática, “o que os meus pais praticavam, era a fé, a espiritualidade”. Em África, diz, o Natal era cinematográfico, gente em casa, confusão, festa. Por cá, a dinâmica alterou-se, “era triste, foi um choque quando voltámos. Foi uma mudança muito grande. Acho que todos nós sofremos um bocadinho com o Natal”.

É contra o consumismo da época, mas diz, sem reservas, que nem sempre o foi. “Já fui muito consumista mas ando a tentar lutar contra os meus atos no que puder. Acho que a minha geração está mais consciente que a geração seguinte. E, no geral, é tudo ao contrário menos o consumismo. É tudo muito descartável e o capitalismo chegou ao seu auge.”

Talvez fosse esse, então, o catalisador que a havia de levar até Espanha, mais concretamente a Palma de Maiorca, para trabalhar pela primeira vez no 24 de dezembro. “Eles lá celebram forte e feio.” Em Portugal, a primeira vez, meio perdida por entre as memórias, “foi no Norte, não sei se no Pachá de Ofir, mas acho que sim. Mas não foi no 24, isso de certeza.”

Sobre a energia que lhe chega da pista a 24 e a 25, Yen Sung diz que é palpável, que “há um espirito diferente - sempre direcionado para a festa - é que as pessoas comem tanto, estão tanto tempo em casa com as famílias que sentem falta de extravasar”. O estilo eleito para os dias? “House. As pessoas querem House com voz, cantado, mais leve. Acho ótimo, aquele House 90’s da editora Tribal, ou da Twisted.”

Paulo Furtado © Rita Lino

Para Paulo Furtado, o corpo povoa-se de outra melodia, os cigarros completam a suavidade do discurso, o sangue tem rock a toda a espessura, uma paixão assolapante que, apesar de lhe ter chegado tarde - aos 15, por uma amiga, com quem aprendeu os primeiros acordes - em nada diminui o génio e a versatilidade. Moçambique foi o berço, Coimbra, em miúdo, ficou-lhe a casa, por culpa do pai e do convite que este recebeu para lá trabalhar, enquanto atestava o carro. Cresceu, o talento adensou-se, nascem os Tédio Boys, a resposta à Coimbra normativa. “Quando começámos era uma coisa muito chata, muito encaixada entre a universidade e o hospital, que são dois pólos muito grandes. Era uma cidade onde a oferta cultural e o acontecer excitante era muito raro. E nós basicamente levávamos a banda muito a sério. As coisas aconteceram depressa. Depois fizemos concertos de rua, apareceu a policia, no dia seguinte voltámos, depois voltámos outra vez e as pessoas começaram a apoiar.”

Em casa, os contrastes acentuaram-se. Os pais “são difíceis de catalogar”, diz, em resposta aos valores que o acompanharam a crescer. No Natal, a casa enchia quando a morada era em Lisboa, nos avós. “Depois mudou. Desde miúdo que esta história do consumismo e do cinismo – de nos sentarmos à mesa como se estivesse tudo bem mas na verdade não está – me faz pouco sentido.” Do 24 de dezembro em Coimbra lembra-se do cinema Tivoli, dos filmes de karaté, da sessão de filmes pornográficos. Anos depois, os Tédio furam o Natal em concerto, foi a estreia.

Já com o alter-ego The Legendary Tigerman, “um dos meus primeiros concertos foi exatamente numa noite de Natal, de 24, as noites de Natal do Comics, organizadas pelo Rodas - que é um mito do rock n’ roll do Porto - e durante muitos anos os concertos aconteciam a 24. Primeiro no Hard Club depois no Porto Rio. E foi talvez nessa altura, no quarto ou quinto ano em que fazia as noites de Natal no Porto que comecei a fazer também na ZDB, em Lisboa. Diria em 2004.”

As opções eram poucas, explica, “não havia nada, talvez a ZDB e uma tasca. E lembro-me que a primeira não correu nada bem, foram umas 15 pessoas, mas nos anos seguintes já correu bastante melhor”. Desde 2000 que, entre os Tédio e Tigerman, Paulo Furtado tem feito soar os amplificadores. Não há espaço a grande espírito, não há crenças, superstições, o consumismo não tem lugar. Há, sim, se estiver por Lisboa“ uma espécie de jantar de Natal, normalmente num restaurante indiano. Isto porque a primeira vez que houve um concerto a 25, o Calcutá (no Bairro Alto) devia ser o único aberto e desde sempre ficou mais ou menos instituído que ficava ali”.

Sobre o concerto perfeito de Natal, Furtado diz ter alguns: “há dois ou três anos decidimos começar a fazer várias datas. Abrimos o 25, esgotou, depois abrimos 26, depois 24. Foi incrível porque todas as noites vinham amigos tocar e sempre aproveitei a ZDB com amigos”. No fundo, termina, “isto de fazer coisas acontecer no Natal tem que ver com o sentir alguma solidão, desenquadramento, e tentar fazê-la funcionar para mim. É uma noite muito solitária”.

Paulo Furtado © Rita Lino 

A esperar este Natal no Lux: Luxxmas - Bar com Zé Pedro Moura e Mário Valente, na disco o Dr. Rubenstein e o Roi Perez. 

The Legendary Tigerman na ZDB em mais uma edição de F*** Christmas, I Got The Blues, dias 25 e 26.

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