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Anjelica Bette Fellini, uma mulher destemida

22 Sep 2020
By Rui Matos

Este é o primeiro ato de Anjelica Bette Fellini, uma jovem atriz com os pés bem assentes na terra. Talento é coisa que não lhe falta e a persistência é a cereja no topo do bolo.

Este é o primeiro ato de Anjelica Bette Fellini, uma jovem atriz com os pés bem assentes na terra. Talento é coisa que não lhe falta e a persistência é a cereja no topo do bolo.

Anjelica Bette Fellini veste Frame © Alison Engstrom
Anjelica Bette Fellini veste Frame © Alison Engstrom

Foi na Broadway, como bailarina no icónico Fantasma da Ópera, que Anjelica Bette Fellini deu o pontapé de saída no seu percurso profissional. Viver de perto a magia da represenrteção fez com que um amor novo despertasse nas entranhas da atriz nova-iorquina. Fellini atirou-se aos lobos sem medos, bateu a todas as portas que conhecia, ouviu muitos nãos mas manteve sempre a cabeça erguida. Sabia o que queria fazer e focou-se nisso. Tem 25 anos, uma voz doce e um sorrio contagiante. Encara a vida de uma maneira muito realista, sem floreados e ilusões. O início pode não ter sido um conto de fadas com direito ao emblemático "Era uma vez", mas o futuro é promissor - e temos Bill Murry a corroborar tal afirmação. 

Numa ligação Lisboa - Nova Iorque, conversámos com Anjelica Bette Fellini, a Blair de Teenage Bounty Hunters, da Netflix, sobre o passado e o presente. O futuro logo se vê.  

Como é que a jornada da Anjelica começou no universo das artes performativas? 

Comecei a trabalhar na Broadway. Fiz uma digressão quando tinha 18 anos e depois fiz parte do elenco d'O Fantasma da Ópera. O teatro musical é uma combinação linda entre a representação, o canto e a dança. Estava exposta, todos os dias, à representação. Fiz O Fantasma da Ópera durante um ano e foi durante esse período que decidi que queria ser atriz. Queria ter diálogos. Queria ser atriz. Como vivo em Nova Iorque, que é uma meca para a aulas de representação, decidi fazer audições para os diferentes tipos de representação. Fui aceite e estudei durante um ano e meio até me sentir preparada para fazer castings.

A Anjelica não esperou que as coisas viessem ao seu encontro, decidiu pôr as mãos na massa e bater à porta dos agentes. Como é que foi essa jornada?

Foi difícil. Mas agora é um história fantástica e estou orgulhosa dela. Muitos dos meus colegas de digressão, diziam que “é incrível ver a tua trajetória”. Foi um período em que me sentia perdida. Assim que deixei o teatro musical, disse à minha agente da época que já não estava interessada em fazer audições para musicais e pedi para me submeterem a outro tipo de castings. A verdade é que não fui chamada para muitos, mas estava a estudar e isso deixava-me muito feliz. Tive que ser a minha própria chearleader e comecei a ligar às pessoas. No meu portefólio tinha a Broadway - pensei que se tivesse este carimbo no meu CV, mesmo como bailarina, me iria abrir algumas portas e, para ser sincera, não abriu assim tantas quanto eu estava à espera. Diziam-me: “É bom seres bailarina, vamos arranjar papéis para produções ligadas à dança.” E eu respondia: “Não. Estou a dizer que quero um casting para representação.”

Tantas rejeições não a pararam de perseguir o sonho. A Anjelica escreveu esta frase para uma artigo na revista Backstage: “Um ‘não’ não significa que é o fim, significa que esta não é a tua estrada.” O que é que aprendeu com as rejeições?

Diverti-me imenso a escrever esse artigo, eu lia bastante a Backstage e queria escrever alguma coisa que eu pudesse ter lido há dois anos. E aquilo que escrevi, era o que precisava de ouvir. Ouves muitos nãos, mas isso não significa que não és boa ou que uma outra oportunidade não vai surgir. Ouvir tantos nãos, ensinou-me a mergulhar mais e mais fundo. Vai sempre existir aquele trabalho que tu queres muito, mas as oportunidades vêm bater à tua porta. Talvez seja só um filme de escola, mas aquele realizador pode tornar-se enorme. As oportunidades podem surgir de um papel pequeno no NCIS ou no CSI em que um dos produtores reparou em ti.

Como é que se prepara para um casting?

Cada casting exige uma preparação diferente, porque tu mergulhas de formas diferentes nas personagens. Às vezes, escrevo como é que a voz da personagem deve soar, crio playlists com músicas que acho que se enquadram com a personalidade da personagem. Muitos dos meus professores de representação dizem que quando entras na sala do casting é quando te deves preparar. No tempo em que fazia casting in loco, eu ia até ao local e pensava naquilo que a personagem poderia estar a sentir. Uma vez, fiz um casting para interpretar uma agente do exército israelita - um papel que, desesperadamente, queria - aprendi o sotaque israelita e quando me sentei na sala de esperar criei toda uma cena na minha cabeça sobre o que é que se estava a passar com ela naquele momento: Quem era eu? No que é que estou a pensar? O que é que aconteceu comigo? 

Passando agora para Teenage Bounty Hunters, o que é que chamou atenção nesta personagem?

Quando recebi uma ficha com as características da Blair, dizia: “she is he own sexual lab rat.” E pensei logo: “That’s fun!” (risos). Logo de seguida percebi que não tinha lido muitas coisas onde as mulheres eram descritas como sexuais sem qualquer julgamento. Adorei isso! Quando li o episódio piloto, percebi que estas adolescentes eram aquilo que eles queriam ser o que me fez pensar: “Tenho que conseguir este papel!”.

Na série interpreta Blair, uma jovem não-conformista de 16 anos. Como é que foi preparar esta personagem? Foi difícil calçar os sapatos de uma teenager?

Encontrei muito da Blair na música. E acho que ser não-conformista é fácil para mim (risos). Foi fácil criar a personagem. É uma benção para um ator interpretar alguém que é divertido. Acho que isso é natural para determinados atores e para mim foi bastante natural.

À parte das cenas de ação e comédia, Teenage Bounty Hunters aborda temas importantes na ordem do dia, como o feminismo, o empoderamento feminino, o racismo e a homossexualidade. É importante para a Anjelica fazer parte de projetos que abordam estas temáticas?

É muito importante para mim. Um dos pontos positivos deste trabalho, como atriz, é que podes falar de assuntos que importam. Muitas séries deixam estas temáticas de parte, o que é totalmente compreensível. O que é a representação além de entretenimento? Quem somos nós além de entertainers? Acho que é um sonho para qualquer ator fazer parte de um projeto que aborda esse tipo de assuntos e não seja só entretenimento. Por exemplo, a personagem de Viola Davis em How To Get Away With Murder, é só sobre aquilo que importa no mundo. Tens a Michaela Cohen em I May Destroy You - estou obcecada com a série. Não consigo imaginar uma série mais importante como esta para as mulheres. Tenho mostrado esta série aos homens e digo-lhes: “Olhem para aquilo que estão a fazer. Olhem para as vossas atitudes.” (risos). É claro que vão sempre existir filmes de terror, de comédia, de Moda. Há espaço para todos. As pessoas merecem serem levadas para outras realidades e não pensarem na loucura dos tempos em que vivemos. 

A Anjelica faz parte do próximo filme do Wes Anderson, The French Dispatch. Como é que foi essa experiência?

Foi a melhor experiências que tive na vida. Foi surreal. Foi fantástico! Mal posso esperar para ver o filme. A nível pessoal nunca viajei internacionalmente, a primeira vez que o fiz foi agora para o filme. Estive em Paris pela primeira vez na vida com um casting incrível, muito acolhedor e incrivelmente profissional. Foi um sonho tornado realidade. 

Como foi trabalhar com o Bill Murry?

O Bill Murry levou-me ao colo (risos). Houve um momento em que eu me estava a sentir muito insegura e quando olhei para ele, ele acenou. Tinha que dizer as minhas falas muito rápido e no final ele veio ter comigo e disse-me: “Hey, foste muito boa. Acho que devem ficar com esta miúda. Ela tem futuro.” Quando voltei para o hotel, lembro-me de ter pensado: “Yep, agora posso morrer feliz. O Bill Murry disse que eu tinha futuro.”

Esta pandemia serivu para sermos mais refletivos. Como é que foi a quarentena da Anjelica?

Acho que, pela primeira vez na minha vida, fui capaz de participar nas redes sociais de uma maneira que não foi tóxica. Tenho tido muito cuidado com aquilo que partilho e na quantidade de coisas que partilho. Para as comunidades marginalizadas, aqui nos Estados Unidos da América, é traumático ver os conteúdos gráficos relacionados com a brutalidade da polícia. Há coisas que são partilhadas e que achamos que estão a ser uma boa maneira de espalharmos a palavra, mas nem sempre é assim tão bom. Tento ter imenso cuidado com aquilo que partilho. Partilho petições e informações sobre as mudanças climáticas, que é também uma questão racial, por exemplo.

 

O tempo que passou em casa foi frustante por não poder sair e viver, ou aproveitou este período para se conectar com o seu eu interior?

Um bocadinho dos dois. Acho que cada geração estão a lidar com esta situação de formas diferentes. A minha geração sabe que as pandemias não vão durar décadas, todos sabemos que num par de anos vai tudo voltar ao normal. Todos nos vamos sentir 'normais' em 2025, provavelmente (risos).

No universo da representação a vida é sempre muito instável, como é que a Anjelica se mantém positiva?

Oh, não sei (riros). Quer dizer... Não sei, não sei. (risos). O exercício é bom para tem sentires bem. E conversar com outras pessoas, com estranhos. Perguntar-lhes como é que estão, como é está a correr o dia deles. Prestar atenção aos amigos. Eu tenho um support system bom, e sou muito sortuda por isso. E claro a terapia ajuda-me a manter-me positiva quando me estou a sentir mais triste.

 

Ficha técnica:Styling: Britt TheodorCabelos: Patrick KyleMaquilhagem: Juliette Perreux

Rui Matos By Rui Matos

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