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Entrevistas 21. 10. 2019

André Aciman fala sobre Find Me, a sequela de Call Me By Your Name

by Hattie Crisell

 

Doze anos depois do livro Call Me By Your Name ter sido publicado, a tão espera sequela Find Me está quase aí. O autor André Aciman conversou em exclusivo com a Vogue sobre revisitar as personagens Elio e Oliver, o impacto que o filme teve e o porquê da homofobia não fazer parte da sua icónica história de amor homossexual. 

André Aciman © ChrisFerguson 

Doze anos depois de Call Me By Your Name - o livro de André Aciman que conta a intensa história de amor de verão entre um adolescente e um estudante mais velho - a sequela da obra está quase a chegar. Find Me (que será publicado no dia 29 de outubro) segue a história de Oliver, duas décadas depois de ter regressado aos Estados Unidos e de ter deixado Elio em Itália, e ainda nos revela o que a vida fez a estes dois homens na vida adulta. 

Este livro vai também, e pela primeira vez, levar-nos numa viagem ao interior da mente do pai de Elio, Sami; a primeira parte do livro é escrita a partir da sua perspetiva, à medida que encontra o amor tarde na sua vida. “Com excepção do filme, ele nunca foi chamado de Sami ”, confessa Aciman com uma risada. “Mas isso é ok - roubei o nome do filme.”

O filme que André se refere é, claro, a tão aclamada adaptção de Luca Guadagnino, o sucesso indie de 2017 com Timothée Chalamet e Armie Hammer nos papéis principais. Uma década depois da publicação do livro Call Me By Your Name, o filme trouxe um olhar diferente para esta história, com uma nova audiência e apelo pelo verão italiano dos anos 80. Aciman é fã acérrimo da longa-metragem: “Acho que sou o único autor que gosta da adaptação cinematográfica do seu livro”, sublinha. 

Tanto o livro como o filme deixaram muitos fãs ansiosos com o reencontro entre os personagens principais, e Find Me leva a cabo esse desafio através de uma exploração maior sobre o amor, a vulnerabilidade e a memória. A partir da sua casa em Nova Iorque, Aciman fala com a Vogue sobre revisitar Elio e Oliver, o impacto que o filme teve e o porquê da homofobia não fazer parte da sua icónica história de amor homossexual. 

Porque é que decidiu escrever uma sequela?
As personagens nunca te deixam. Não te consigo dizer o número de vezes que já tentei dar-lhes liberdade para elas seguirem com as suas vidas. Comecei sempre com o Elio como personagem principal e, mais tarde, percebi que isso foi um erro. Depois, por mero acaso, comecei a escrever sobre o pai, e percebi que o Elio voltaria a aparecer - e foi aí que soube que tinha um livro. Foi apenas uma questão de escolher diferentes espaços temporais nos quais eles pudessem contar as suas histórias, e é por isso que vemos os 10 anos depois, os 15 anos depois e os 20 anos depois, exatamente como acontece em Call Me By Your Name

Em Call Me By Your Name explorou o primeiro amor. Agora, com Find Me, explora o amor numa idade mais avançada, tanto para o pai, que se apaixona por uma mulher mais nova, como para Michel, um homem mais velho que se envolve com Elio, que está já na casa dos 30. 
Sim, os homens mais velhos desta história apaixonam-se por pessoas mais novas. Eu gosto do mix de jovem-velho, velho-jovem; o facto de um dar a energia que falta ao outro, e a pessoa mais velha dar a estabilidade, a gentileza e a sabedoria que é adquirida com a idade. Acho isso mais interessante do que ter uma paridade sublime entre pessoas da mesma idade: ela tem 45 anos, ele tem 45 anos. 

Como é que foi revisitar o Elio e o Oliver? Como é que a dinâmica entre ambos se desenvolveu entre os dois livros?
Agora, eles são claramente maduros, e sabem o quão frágil a vida pode ser. Ambos tiveram outras relações, sabem que precisam de ser cautelosos e que uma separação, caso esta aconteça outra vez, seria devastadora. O Find Me deu-me um sentimento de conclusão. Claro que a vida está cheia de surpresas e nenhum caminho se percorre sem buracos ou decisões erradas. Mas acho que isto termina a história do Elio e do Oliver. 

Quando viu pela primeira vez o filme do Luca Guadagnino, foi aquilo que imaginou?
Sim e não. Estava muito preocupado com o final do filme porque me disseram que iria terminar com um plano do Elio a chorar e pensei logo: “Oh meu Deus, isto vai ser muito sentimental.” Claro que não foi. Ele estava só a aprender uma lição de vida: como é que tu aceitas a dor e como é que tu deixas de lado o término de uma relação? Eu achei que isso foi muito bem feito. Eu disse ao realizador: “O final do teu filme é muito melhor do que o final do meu livro.”

Há uma cena muito famosa que envolve um pêssego. Algumas pessoas ficaram desapontadas com o facto do Armie Hammer [Oliver] não ter comido a fruta no filme, visto que no livro isso acontece. Foi algo que o incomodou?
Não. Quando escrevi aquela cena, eu estava a divertir-me. Mas quando a escreves, é uma coisa totalmente diferente. Acho que comer o pêssego era muito forte para o grande ecrã. Eu adorei a maneira como [a cena] foi feita. Eu não precisava de o ver a comer um pêssego, eu não preciso de ver sexo cru, por isso está tudo bem. 

Para si, como foi a resposta ao filme?
O poder do cinema é inacreditável. Nos Estados Unidos, quase um milhão de pessoas compraram o Call Me By Your Name, coisa que nunca iria acontecer caso o filme não tivesse saído. O livro já existia e estava impresso, mas não desta maneira. O filme mudou tudo. Do nada transformei-me num autor de um bestseller do New York Times, a última coisa que eu imaginava vir a ser. Oito anos antes de o filme ter sido feito, eu já sabia que isso ia acontecer - mas não imaginaria que viria a ser um fenómeno mundial. 

Gostaria que Find Me também fosse adaptado para o cinema?
Sim, adoraria. E gostava muito de poder participar na escrita do guião. Assim que o primeiro filme saiu, todos estavam a falar de uma possível sequela - mas não sei se isso está a ser falado no momento. Eles estão todos tão ocupados. 

A capa de Find Me, de André Aciman

As relações homossexuais são muitas vezes escritas de forma trágica. Uma grande parte da comunidade LGBTQIA+ gostou do facto de Call Me By Your Name ter um tom tão positivo. Isso foi intencional?
Eu estava a escrever sobre a atração de uma pessoa por outra e também sobre toda a atração. Não estava minimamente interessado em fazer bullying, gozar, violentar ou abordar o tema da SIDA. Eliminei todas essas componentes, de certa forma previsíveis em todas as histórias de amor homossexual. Queria uma coisa mais ao estilo do Romeu e Julieta mas sem os Capuletos e os Montagues. Eu não queria escrever um livro sobre alguém que é espancado até à morte. Isso não estava de todo nos meus planos. 

Mesmo nos anos 80, as suas personagens não sofrem de homofobia.
Não. Não queria nada disso. As pessoas sabem que eles são homossexuais e ninguém pensa duas vezes sobre o assunto, que é assim que deve ser - e tenho que dizer isto, no mundo onde vivo é assim que é. 

Find Me de André Aciman é publicado pela Faber & Faber e vai ser editado a 29 de outubro de 2019.

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