Fotografia: Szilveszter Makó
Protagonista da atuação na Galleria Vittorio Emanuele II, Alicia Keys usa um vestido de Francesco Risso que celebra a arte de sonhar sem reservas: "Há tanto amor à nossa volta". A cantora veste a visão fragmentada do Bureau of Imagination.
Alicia Keys é a capa digital do Vogue World 2026: Milano, com um vestido de Francesco Risso que celebra a arte de sonhar sem reservas: "Há tanto amor à nossa volta".
Existe uma expressão paradoxal, na linguagem da música, que descreve quem se move com paixão ao percorrer uma partitura. Diz-se "Lento con fuoco", uma forma adequada para descrever também o ritmo ousado e a profundidade da voz típicos do R&B e do soul, dos quais Alicia Keys, com mais de 90 milhões de discos vendidos e 17 prémios Grammy conquistados, é considerada a rainha indiscutível. "Lento con fuoco", que não exige que o músico corra ou seja rápido: mas que sonhe e faça sonhar. Se isso aconteceu na vida de Alicia Keys — cujo nome de nascimento é Alicia Augello Cook, nascida e criada no bairro de Hell’s Kitchen —, em consonância, por assim dizer, com a Girl is on Fire do seu single de 2012, também o Vogue World 2026: Milano, onde se apresentou a cantar I Feel Love, de Donna Summer, teve a estrutura de um sonho: um desfile na Galleria Vittorio Emanuele II que atingiu o seu auge precisamente na atuação da artista nos momentos finais, rodeada por uma série de vestidos brancos dos quais emergiu como uma flor.
Qual é o peso dos seus sonhos? É a pergunta a que parece responder a fotografia de Szilveszter Makó, na qual Alicia Keys é a protagonista, por ocasião do Vogue World 2026: Milano (a canção reflexiva Dreaming data de 2009 e a villa modernista adquirida em 2019 juntamente com o marido, Swizz Beatz, batizada de Dreamland). No teatro imaginário de Makó, um espaço íntimo semelhante a um palco, Keys vestiu uma criação do Bureau of Imagination, o projeto coletivo de Francesco Risso realizado em colaboração com Alex Sossah. "Quando Alicia Keys foi confirmada, conversámos com ela antes de decidirmos quem deveria criar o vestido. Tinha de ser performance, movimento, Arte, pintura", afirma Luca Galasso, Diretor de Moda para Artistas Especiais e Elenco do Vogue World 2026: Milano. "Perguntámo-nos quem criava arte de forma moderna e contemporânea, acima de tudo, e o nome de Francesco Risso foi revelador. A Alicia sonha, ela é uma sonhadora. Eu sou, o Francesco é. Era perfeito".

Alicia Keys na capa digital do Vogue World 2026: Milano.
Fotografia de Szilveszter Makó.
Alicia Keys no Vogue World 2026: Milano, o vestido da Bureau of Imagination é uma celebração de todos os fragmentos que nos definem
Vestida com um vestido do Bureau of Imagination, a história que Alicia Keys traz para o Vogue World 2026: Milano é a mesma que inspira a criatividade do designer: o resgate da imaginação, a maravilhosa ingenuidade dos desenhos e dos esboços em cartolina, precisamente numa época que parece afastar-nos da capacidade de olhar para além da dimensão do real. Risso também o afirmou, numa entrevista concedida pouco antes do evento de 22 de setembro: "O ponto de partida foi a ideia dos fragmentos: peças que já viveram de alguma forma e que se unem para dar vida a outra história", e foi por isso que o vestido foi composto por retalhos de cetim, chiffon, georgette e crêpe de Chine, todos ligados entre si por um trabalho de fios e miçangas. "Fascinava-me a ideia de que a fronteira entre onde termina um tecido e onde começa outro quase se perdesse. Trata-se de duas peças que se tornam quase uma só quando Alicia se move", continuou o designer, insistindo na importância do movimento, na necessidade de o vestido acompanhar o corpo da artista durante a atuação, "tem de se pensar em como capta a luz, no que acontece a uma cauda enquanto atravessa um palco". "Sabíamos que Alicia iria encerrar o Vogue World com uma atuação, por isso o look tinha de ter presença e emoção, mas também movimento", afirmou sobre a colaboração com a artista. "Queríamos criar algo que fosse solene sem se tornar demasiado formal ou rígido. O que considerávamos fundamental era criar algo que permitisse à Alicia incorporá-lo completamente. Para mim, vestir alguém para uma atuação nunca significa impor-lhe uma personagem; as roupas têm de se tornar parte da sua própria linguagem".
O vestido Bureau of Imagination: a delicadeza do vestido tipo slip combina-se com a monumentalidade pictórica
O vestido desenhado por Francesco Risso para Alicia Keys no Vogue World 2026: Milano é uma combinação de delicadeza e monumentalidade quase marmorea. Não só reflete a visão de Risso sobre o artesanato italiano, tema principal do Vogue World 2026: Milano – "Para mim, o artesanato italiano não é apenas perfeição. É também o trabalho manual, ou seja, compreender o material tão profundamente que se consiga manipulá-lo, transformá-lo e permitir que os “acidentes” aconteçam" –, mas também está ligado à carreira de Keys, que fez das suas próprias mãos ao piano o seu principal instrumento de trabalho.
Quanto ao look: trata-se de um vestido tipo slip composto por diferentes elementos que se prolonga numa enorme cauda pintada por Flaminia Veronesi, que decorou toda a superfície inteiramente à mão, como se fosse uma tela, tornando-se assim parte de uma série quase infinita de variações de textura, cor e material. "Há algo de quase contraditório nisto: suavidade e estrutura, masculino e feminino, algo inacabado em contraposição a algo solene. É um trabalho que fala de acumulação, transformação e memória", acrescenta Risso.
Alicia Keys, a história de uma mulher que contemplava as luzes da cidade
"Lento con fuoco", porque há uma força e uma presença, um equilíbrio entre coisas poderosas e maravilhosas em Alicia Keys que se concretiza desde a adolescência e depois se expande nas letras, como ela própria contou na autobiografia de 2020, More Myself: A Journey: uma viagem que teve inicialmente como protagonista a sua mãe, Terria Joseph — de origens ítalo-irlandesas —, que a criou sozinha, desempenhando três empregos diferentes, e que depois se expressou ao piano, onde começou a praticar com apenas sete anos, mergulhando na música de Chopin, Beethoven e Mozart no caos de Hell’s Kitchen ("cresci numa zona muito difícil", disse numa entrevista, "antes de mais, precisava dos sapatos certos para estar pronta para correr"). Aos dezasseis anos, concluiu o ensino secundário antecipadamente e com a nota máxima na Professional Performing Arts School de Manhattan, pouco depois de ter sido admitida na prestigiada Universidade de Columbia, que abandonou para se dedicar inteiramente à música, assinando o seu primeiro contrato discográfico.
Também por isso, por tudo o que a moldou, desde a primeira canção, Butterfly, composta aos 14 anos e posteriormente incluída no seu álbum de estreia de 2001, Songs in A Minor — escrita no seu quarto enquanto procurava a sua identidade e liberdade artística —, nunca deixou de fazer das suas canções um manifesto de independência. De emancipação feminina contra as limitações patriarcais, como Superwoman e A Woman’s Worth; de aceitação pessoal e vulnerabilidade, como Un-thinkable, In Common e Me x 7, com as quais convidou a livrar-se de qualquer suposta perfeição autoimposta. Em 2016, escreveu um ensaio para a newsletter Lenny Letter, explicando a decisão de deixar de usar maquilhagem em público: uma escolha política contra a pressão que a indústria do espetáculo exerce sobre as mulheres. Em pouco tempo, esta tomada de posição transformou o seu rosto num símbolo global de liberdade, levando-a a fundar a sua marca de bem-estar holístico e cuidados da pele, a Keys Soulcare.
São raras as ocasiões em que Alicia Keys foi vista com um vestido de noite. Calças de ganga e camisola de alças têm sido, durante anos — e continuam a ser —, as roupas que ela usa sempre, mesmo no recente dueto de Fallin com Raye, durante a final de American Idol, em maio passado. Se, no Bureau of Imagination, durante o Vogue World 2026: Milano, Alicia Keys parece usar um vestido que a compreende e a entende, é porque Francesco Risso gosta de coisas que trazem consigo vestígios do lugar por onde passaram, em vez de chegarem completamente intactas ou definidas. "Interessa-nos o imprevisto que pode surgir quando objetos, roupas, materiais e pessoas diferentes entram em contacto uns com os outros. O vestido pertence à nossa linguagem Vestige, na qual peças únicas são criadas a partir de partes compostas. O que resulta novo é talvez o contexto: pegar nesse processo artesanal, íntimo, e deixá-lo tornar-se algo grandioso através da Alicia e da sua atuação".
"Lento con fuoco" não é apenas uma forma de se mover na partitura, mas uma atitude com que se percorre o mundo. Alicia Keys é a prova viva disso. Todos nos apercebemos disso quando uma borboleta passa no momento das fotografias e ela diz: "Há tanto amor à nossa volta". Tal como cantava Donna Summer.
Traduzido do original, disponível aqui.
Most popular
Relacionados
Em 2027, o Vogue World volta a rumar para a costa oeste americana — desta vez, para São Francisco
06 Aug 2026
