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Entrevistas 12. 4. 2019

As múltiplas personalidades de Alek Wek (e como as adoramos a todas)

by Patrícia Domingues

 

Não tem a ver com o que nos acontece, mas sim com o que fazemos com isso. Refugiada tornada supermodelo tornada ativista e embaixadora das Nações Unidas, Alek Wek espremeu todos os limões da vida e fez o sumo que pode muito bem ser o antídoto que o mundo está neste momento a precisar de tomar. 

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©Fotografia de Hugo Comte. Realização de Cláudia Barros.

Quando tenho de explicar à minha mãe porque faço o que faço, falo-lhe de pessoas como Alek. De histórias de pessoas como Alek. De como a Moda pode mudar a vida de uma pessoa e como essa pessoa pode mudar a vida a muita gente. É uma troca de amor incessante esta. Eu não estou aqui pelos sapatos ou pelas carteiras nem para andar a dizer o que se vai usar na próxima estação – claro que adoro a roupa, não é isso que está em causa. Estou aqui para ser um veículo portador de mensagens de pessoas que já fizeram mil e uma coisas mais importantes do que eu, e que através do meio para o qual trabalho tenho o privilégio de ouvir, interpretar, editar e passá-las da forma mais fiel possível a quem nos lê.

Porque por vezes, nem sempre, nem a todos, os feitos de pessoas grandes, enormes, como Alek Wek, podem ressoar nas nossas cabeças, mudar as nossas ideias, inspirar-nos a ser alguém melhor, ou pelo menos fazer-nos acreditar que isso é possível e que o mundo é um lugar um pouco mais agradável. O que quer que seja, se esta mulher incrível que está aqui à minha frente, e tudo o que ela representa, chegarem diretamente ao coração de alguém, então a Moda cumpriu um dos seus muitos propósitos e espalhou mais um pouco de amor, numa das suas muitas capelinhas. Mas sim, mãe, também gosto muito de sapatos.

A mensagem de Alek Wek é clara e audível, ouve-se há dezenas de anos, era ela ainda uma menina muito pequenina, que enfrentava coisas muito grandes. É a mensagem de uma lutadora, que escapou a uma infância munida de tudo o que lhe faltava, mas com tudo o que ela precisava para ter nela mesma o poder de a espalhar pelo mundo. Os pais não lhe deram brinquedos, mas deram-lhe uma educação dura, ensinaram-na que só conseguimos alguma coisa se nos esforçarmos, fizeram-na perceber que era uma no meio de muitos, mas que, mesmo assim, tinha algo de especial.

"A educação é tudo. Não apenas ler e aprender, mas ser capaz de comunicar com outras pessoas, de perceber o que está certo e o que não está"

Alek cresceu a sentir-se especial – não mo disse, com estas palavras exatas, mas sente-se na atmosfera, apalpa-se nos contornos da sua voz e olha-se nitidamente na sua história de vida. “A bondade é uma linguagem que os surdos conseguem ouvir e os cegos conseguem ver”, disse Mark Twain, e basta Alek falar. Só alguém especial assim falaria desde sempre uma língua que só hoje começamos a introduzir no nosso dialeto, faria perguntas que demoraram décadas a ganhar a nossa atenção, espalharia palavras de amor, inclusão e empatia sem ser preciso haver T-shirts da Dior para isso. Alek viveu muitas vidas numa só. Alek é muitas Aleks. Mas está sempre presente para os outros. 

A Alek de hoje está sentada no sofá do lobby de um hotel em Lisboa, numa entrevista marcada há poucas horas, cansada, com as dores do primeiro dia da menstruação, depois de dois dias de shooting, com um sorriso terno no rosto e a generosidade para começar uma conversa espontânea com alguém que conheceu há meia dúzia de minutos. A primeira coisa que faz quando chego é elogiar o trabalho da equipa com quem esteve no dia anterior, de como a Cláudia é uma mulher tão nova e interessada, como sabe tanto sobre arte e de como isso a comoveu. De como Hugo lhe contou que a mãe dele investiu todo o dinheiro que tinha na educação dele em arquitetura, “e ele disse-me que deposita dinheiro na conta dela e eu achei querido, tão novo... Eu faço o mesmo com a minha mãe e a minha irmã. Sabes, it takes a village to raise a child, e é preciso uma equipa para produzir algo mágico”.

Suponho que ser entrevistado não deva ser uma troca fácil. Alek sabe muito pouco sobre mim, mas já eu li muito sobre ela, o que pode querer dizer muito ou pouco, nunca se sabe. A sua história de Cinderela do Sudão é sobejamente conhecida, ela escreveu um livro sobre o assunto, de como deixou o seu país e a casa e a família e se mudou para Londres quando a guerra civil explodiu, de como entrou no mundo da Moda de para-quedas, como mudou a história da indústria, escarafunchou os seus preconceitos e ainda tem a energia e a vontade para o continuar a fazer, não só para as passerelles e objetivas como através do seu papel ativo na causa dos refugiados.

"Todos podemos ser refugiados. Podemos encontrar as nossas almas lá. São famílias. Não é porque agora sou Alek Wek a supermodelo... eu era exatamente como eles"

Uma das coisas que percebi rapidamente é que Alek Wek não é do tipo de pessoa que te vai dar uma reposta limpinha, pronta a ser introduzida numa estrutura de texto. Se queres conversar com Alek, se a queres conhecer realmente, tens de estar disposto a parar para ouvir uma história cujo princípio parece não ter nada a ver com o fim. É como uma partida de ténis em que começas logo em desvantagem porque estás a falar com uma pro, e tu és um apanha-bolas desnorteado entre a pergunta que lançaste, a resposta que parece que não chega e a imensidão de bolas que são atiradas pelo meio e é aí que tu vês que estás a lidar não só com um jogador em muito boa forma, como também com um verdadeiro entendedor do jogo. Ela nunca se esquece do lance inicial – só que num tipo de carreira com duas décadas há que muitas vezes recorrer ao passado para explicar o que então era futuro e agora um presente que, à partida, nos parecia óbvio.

Há expressões que lhe são idiomáticas. Quando ela solta ali a meio de um longo raciocínio lógico um “side note” tens de perceber que estás prestes a apanhar uma bola que nem sequer é de ténis, até podem ser uns patins em linha, foi uma ideia que lhe surgiu ou algo que ela achou graça e quer partilhar contigo naquele preciso momento, como se tivesse receio de que o pensamento se desvanecesse no ar ou como se quisesse que tu tivesses acesso total ao interior do seu crânio (a cabeça dela pode estar em todo o lado ao mesmo tempo, mas a atenção é tua e ela é muito generosa para contigo).

Por exemplo, houve um momento no meio de uma conversa superséria onde lhe exprimia o meu choque por ter percebido que só tinha tido a sua primeira capa da Vogue em 2018, para a Ucrânia, e que ela me dizia que isso nunca tinha sido um objetivo porque “não sou uma pessoa raivosa e vou simplesmente continuar a trabalhar”, em que ela interrompe para dizer quão grata estava pelos seus genes. Foi qualquer coisa deste género: “Eu fui apresentar os British Fashion Awards e depois quis ir comer asas de frango, porque eu adoro asas de frango e há um sítio em Londres que faz as melhores, e eu chego lá e peço o molho picante e tudo e o emprego dizyou’re poppinge eu lembrei-me que estava toda maquilhada e ri-me muito e é aí que eu me sento e agradeço aos meus pais pelos genes. Não é só sobre mim. Eles deram-me os genes que me mantiveram este tempo todo. Não é fácil. Nunca fiz um facial na vida. Dorme, come e apenas sê feliz. Porque isso vai afetar a tua saúde de muitas formas. A minha mãe diz-me take life easy e por isso gosto de manter as coisas equilibradas e fazer muito ioga.”

Também há a Alek-pateta que se excede quando se entusiasma com uma ideia. Ela gesticula muito com os braços, faz sons, transforma-se numa animação teatral, ri alto, aproxima-se, como quando me fala da sua cadela fox terrier, a Little Bit, e de como ela sabe quando ela chega a casa chateada e nem precisa de lhe dizer, vai logo para a almofada dela, e depois quando se acalma e vai lá ela reconhece e é-lhe grata, terminando com “alguns seres humanos são só sugadores de energia, nunca te dão nada em troca”. O mesmo é válido para o contrário: por exemplo, quando lhe disse que tinha lido que o nome dela significava “vaca malhada” e que era sinal de bênção ela demonstrou-me com um tom de voz mais baixo que estava farta que lhe fizessem essa pergunta, sem mo dizer, atenção, respondendo que sim, que para o seu povo sul-sudanês, os Dinka, as vacas são animais sagrados e que por isso eram consideradas um sinal de sorte, that’s all, “na nossa tribo tudo é uma bênção, a vida é uma bênção”.

Apelidei-a Alek-entendiada. E depois há a Alek-irritada, ofendida, de testa cerrada, quando me fala em representatividade e de como sempre ouviu que era uma “nova Grace Jones” e agora dizem às miúdas mais novas “que elas são uma nova Alek Wek”, e que somos todos diferentes e se devia respeitar mais isso do que a cor da pele. E há ainda a Alek-guru, que é aquela que vai soltando frases que podiam preencher todo um livro de citações que não me importaria nada de ter na minha mesa de cabeceira para os dias em que falha a bússola e é preciso que a honestidade de alguém nos devolva a nossa própria honestidade. “I ain’t got shame in my game, “É muito importante seguires o teu coração”, “seremos sempre meninos da mamã” ou “crescer dói” são algumas das frases que fazem da Alek-guru a minha preferida, porque, convenhamos, o planeta está cheio de modelos de sucesso, mas de pessoas com coisas sábias para dizer nem tanto.

Aquilo que acho, na minha modesta opinião, que está a fazer falta ao mundo são as pessoas que o amam, sejam elas de que especialidade forem. São as que retribuem o que lhes é dado, as que põem pensos sobre as feridas dos outros, as que contam histórias, as que praticam a paz, as que estão bem com elas mesmas e de onde vieram, as que o tornam uma morada mais habitável e mais humana. E esse tipo de qualidades tem pouco a ver com sucesso, pelo menos na forma como o encaramos no nosso conceito moderno.

"Sempre soube aquilo que me apaixonava. A minha mãe, se fosse por ela, eu já teria oito filhos, já lhe teria dado uma data de vacas de um dinka guy"

Claro que isto faz de Alek a lotaria dos humanos, porque não só reúne todas estas características de wholehearted, como os americanos chamam (coração pleno, na tradução mais próxima mas, ainda assim, não tão exata do termo), mas também é uma profissional do caraças, cuja trajetória no mundo da Moda foi tão intensa que não só ficou na história como a alterou para sempre. A ironia desta história – ou talvez não, para quem é atento às subtilezas do destino – é que quando Alek aterrou no mundo da Moda ela não sabia absolutamente nada sobre ele (ou ele sobre ela, mas isso já são outros 500).

Aquilo que ela tinha era uma ética de trabalho impenetrável, vários ensinamentos dados pelo pai (que, entretanto, havia morrido quando fugiam da guerra mas cuja presença se manteve intacta até ao dias de hoje), uma mãe que sempre lhe fez ver quão belos todos somos e que lhe ligava a meio dos trabalhos de Moda para falar com os agentes (who is this? This is motheré assim que o descreve), e uma certeza que não se sabe muito bem de onde veio, mas que nasceu com ela, de que isto tudo que lhe estava a acontecer não era sobre ela.

“Ou sobre a Moda sequer, isto tem a ver com educação”, diz. “A educação é tudo. Não apenas ler e aprender, mas ser capaz de comunicar com outras pessoas, de perceber o que está certo e o que não está. Abençoada a alma do meu pai que sempre me disse: ‘Alek, os teus instintos não mentem. E tu não consegues ler a mente das outras pessoas nem elas a tua, por isso é muito importante, tens de ser engaging. E se não fores educada não irás conseguir respeitar-te a ti mesma ou aos outros.’

"Eu vim para a Moda porque adoro artes, adoro evoluir como ser humano e ter trabalhado com pessoas como o Irving Penn e o Herb Ritts, nem consigo explicar... foram momentos mágicos, onde falamos sobre história, tanta coisa"

“Eu venho desse background. E chegar ao mundo da Moda é algo muito novo, seja para mim que vim do Sul do Sudão ou para outra miúda qualquer. Há taaaaaantas pessoas. E não há propriamente uma lei ou regulamentação, como quando vais para um escritório onde há leis de conduta. Lidas com jovens e com adultos e pode-se tornar confuso, mas no fim do dia é um negócio e foi assim que o vi desde o primeiro minuto. E na altura algumas pessoas não acreditavam em mim em termos comerciais, diziam ‘ela é um pouco bizarra, um pouco estranha’. Isso deu-me ainda mais incentivo para o fazer, porque senti que as caras precisam de ser representadas, as histórias precisam de ser contadas.”

“A crise dos refugiados... Todos podemos ser refugiados. Podemos encontrar as nossas almas lá. São famílias. Não é porque agora sou Alek Wek a supermodelo... eu era exatamente como eles. E por isso é importante usar uma plataforma para iluminar estes assuntos tão importantes, como a crise dos refugiados, como as doenças negligenciadas, a malária, o VIH. Só porque há doenças que não acontecem aqui não deixam de ser um problema. São doenças que matam muitas, muitas pessoas. E não é um problema daquele lugar.  É um problema da humanidade. Porque às vezes estamos a falar de sapatos ou roupa como se fossem pessoas, como se fossem uma emergência.”

“A vida, a saúde é uma emergência. E é nesses assuntos que me foco e que me tornam humilde. Porque no fim do dia temos uma cama em que nos deitamos, médicos a quem podemos ir, podemos proteger-nos porque somos educados. Enquanto humanos se assumirmos a responsabilidade e olharmos para a big picture podemos fazer a diferença. Até escrevendo sobre isso. Tem tudo a ver com escolha. E é isso uma das coisas que me leva a trabalhar e a continuar a gostar de trabalhar em Moda. E adoro os outfits, claro”.

Pausa para risos. A Alek-pateta está de volta, depois de uma muito irritada Alek-irritada e de um grande vislumbre da Alek-guru. “Sempre soube aquilo que me apaixonava. A minha mãe, se fosse por ela, eu já teria oito filhos, já lhe teria dado uma data de vacas de um dinka guy, ela está muito chateada. No outro dia eu estava a dizer lhe ‘mãe, temos de seguir em frente, desiste, tens as minhas outras irmãs, já fizeste os óleos, os casamentos e as vacas, deixa-me em paz. Eu vou ser aquela esquisita das artes’.” Da lama, fazia pequenas esculturas de vacas – lá está –, renunciando ao quadro de menina bonita que a mãe queria para ela.

“Ela às vezes vê a minha roupa e diz ‘mas porque usaste isso? Isso não é um vestido bonito’. E outras diz: ‘oh, a minha filha, está tão bonita, devias continuar a usar isso’ e eu respondo-lhe ‘eu uso o que quiser mãe, chama-se Moda’ e ela responde-me ‘pois, eu não gosto dessa coisa da Moda, então’.”

Alek, é óbvio que vê na profissão mais do que uma oportunidade de usar vestidos bonitos. O que há na Moda para si? “Há muitas pessoas que acham que me tornei famosa apenas pela minha aparência. Não é. O meu agente teve de lutar para eu estar na capa da Elle em 1997. Todas as minhas amigas faziam tudo. O meu agente teve de dizer ‘não é justo. Ela é boa o suficiente, ela faz os shootings todos e ela está a vender, a usar a roupa...’”

“Essa é outra coisa: eu uso a roupa que vendo. E eu usava-a de uma forma moderna. E eu praticava ioga para ter a certeza de que conseguia dobrar-me e esticar-me. E acho muito importante que as raparigas saibam que não é só por serem bonitas. Tens de ser profissional. Trabalhar com as pessoas, como equipa. Team work makes the dream work. Não é apenas giro – é real. E isto é um negócio, é dinheiro. Isto é a vida das pessoas, as pessoas precisam de comer. Vim do nada e cheguei lá e pensei ‘esta merda tem de resultar’. E quando acreditas e és apaixonada, resulta. Mas tens uma equipa que precisa de acreditar nisso também. E o meu agente teve de dizer muitas vezes ‘não, isto não está certo. Isto já nem sequer é sobre brancos ou negros. É sobre respeito’. E então foi quando eles começaram a sentir-se estúpidos. Porque diziam ‘ah ela é tão sofisticada, adoramo-la’. Ok, então e a capa?”

"O negócio precisa de mais diversidade. Representação igual. E criatividade. E se juntares isso é muito poderoso. E é uma mensagem para a próxima geração. É assim que a mudança acontece. E a mudança é muito importante"

“E a capa chegou. Sentiu diferença? “Oh yeah... oh yeah. Tens de te lembrar que não havia redes sociais, então as pessoas liam, as pessoas viam as coisas. Agora temos de ser mais estrategas para sermos vistos e como vender. Era muito importante ver. Nem toda a gente as podia comprar, mas podia vê-las. É por isso que é tão importante representar num espectro mais amplo. Incluindo na publicidade. Agora as marcas querem-no.” 

“E eu ponho os vestidos e olho-me ao espelho e há momentos em que me chegam as lágrimas aos olhos, porque lembro-me de ser a noiva na Chanel e a Anna Wintour vir ao backstage, e eu estava apenas há cinco anos na indústria, e eu estava a mudar de roupa e ela tira os óculos e diz-me ‘foi fabuloso’, e toda a gente ‘sabes quem ela é?’ Ela sabia que nesse momento algo mágico estava a acontecer.  E não era só porque eu era diferente – ela sabia. Era sobre vender estas coisas porque há vidas de pessoas envolvidas. E isso para mim é suficiente. Todo o outro fluffnonsense.” 

“Eu vim para a Moda porque adoro artes, adoro evoluir como ser humano e ter trabalhado com pessoas como o Irving Penn e o Herb Ritts, nem consigo explicar... foram momentos mágicos, onde falamos sobre história, tanta coisa. O negócio precisa de mais diversidade. Representação igual. E criatividade. E se juntares isso é muito poderoso. E é uma mensagem para a próxima geração. É assim que a mudança acontece. E a mudança é muito importante. Se ficares fixado numa coisa numa idade tão jovem ficas preso. Preso na ignorância. E isso é a coisa mais perigosa que podes fazer na nossa sociedade. Isto é a única forma e isto é que é beleza.”

“A beleza está em todo o lado, somos todos. Somos diferentes enquanto pessoas mesmo que tenhamos vindo dos mesmos pais. E é importante mostrá-lo. E é algo que aprendi com a idade e tornando-me madura. Não é sobre mim, é maior do que eu. Se conseguirmos usar esta plataforma da Moda para corrigir as coisas não ficamos presos como adultos”, faz uma pausa para me dar a conhecer uma nova Alek, a Alek-gozona. “Bom, espero ter respondido à tua pergunta sobre o que me faz trabalhar em Moda”, esboça entre risos.

Alek está com fome, sentamo-nos à mesa do bar e pedimos qualquer coisa leve que possa mordiscar antes de se enfiar no táxi para apanhar o seu voo de volta a Nova Iorque. Fala da sua vida amorosa, da vontade de constituir família, de como o ioga lhe mudou a vida e de como está a achar um piadão ao facto de não postar nada no Instagram há dias e ninguém saber onde ela está. É pouco ligada a tecnologias (uma olhadela rápida ao Instagram e verá as suas fracas skills para edição de fotos) – aliás, foi o agente que praticamente a forçou a criar uma conta para estar mais próxima da sua legião de fãs. “Ontem à noite fiquei sem bateria, então vim aqui à receção e deixei o meu telemóvel aqui a carregar”, diz com a naturalidade de alguém que está mais interessado na realidade do que no virtual.

Ela é uma pessoa de pessoas, gosta de meter conversa com a rececionista, tal como me diz que nunca fotografaria com o Peter Lindbergh por ser o Peter Lindbergh. “Isso é só um nome!”, como se fosse óbvio. “É esse gelo que temos de quebrar. Todas as pessoas têm um ponto de vista e o mais importante é respeitarmo-nos pelas nossas diferenças. Que seca seria se fossemos todos iguais, mas o mais importante é ouvirmo-nos uns aos outros e conectarmo-nos. Quando abordamos as coisas na maioria das vezes suspiramos de alívio. Pensamos: afinal, não era assim tão mau. E na maioria das vezes nem sequer havia um problema, nós criamos esse problema. Esse é o tipo de coisas pelas quais me sinto muito grata por ter aprendido na tribo Dinka, porque simplesmente nos sentávamos debaixo das árvores e resolvíamos as coisas de uma forma normal. E bebíamos chá. Bom, acho que é por isso que vim este caminho todo ate à América, para crescer como pessoa. E depois tudo se fechou num círculo completo”, que hoje se entrelaça em tantos outros, fazendo desta troca humana a verdadeira invenção da roda dos tempos modernos. Ah, Alek-guru. Vou ter saudades.

Cabelos: Cláudio Pacheco para Chiado Studio com produtos L'Oréal Pofessionnel
Maquilhagem: Patrícia Lima 

Artigo originalmente publicado na edição de abril 2019 da Vogue Portugal.

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