Artigo Anterior

Maria Grazia Chiuri fala sobre a natureza sobrenatural da mais recente coleção Dior

Entrevistas 27. 7. 2020

Agatha Ruiz de la Prada, a inadaptada

by Ana Murcho

 

Toda a gente sabe quem é Agatha Ruiz de la Prada, a criadora espanhola que desde o début da sua marca homónima, em 1981, insiste em fazer roupa colorida, vibrante, de cortes inesperados. Mas poucos saberão quem é a mulher por detrás da designer irreverente, corajosa, sem papas na língua. Por isso pedimos-lhe para falar sobre coisas sérias. E de outras mais mundanas.

English version here.

Agatha Ruiz de la Prada © Amm Advertising

"Toda a vida fui louca por museus, exposições, feiras de arte, galerias, mas depois do meu divórcio aconteceu-me uma coisa muito curiosa, uma espécie de desapego radical dos objetos. Sempre fui muito ‘coisista’ (como diria o meu vizinho Antonio Garrigues), o amor pelos objetos vem do meu pai. E, de repente, tive um pequeno ataque de ansiedade no MoMA, em Nova Iorque, senti uma angústia, senti que a arte já não me preenchia… Digo isto e amanhã vou pela primeira vez, desde a pandemia, ao Museu do Prado. A arte trouxe-me muita felicidade, paz e diversão ao longo da vida, mas também é capaz de criar angústia.” Agatha Ruiz de la Prada (Madrid, Espanha, 1960) cresceu com o desejo de ser artista. Não sonhou ser designer, isso foi um percalço bom que a vida lhe trouxe. Mas, com o passar dos anos, foi percebendo que tudo o que está relacionado com arte é demorado e, de certa forma, frustrante – ao passo que a moda lhe confere uma “satisfação imediata.” E isso é relevante, porque não é pessoa de marcar passo, de perder tempo.

Agatha é uma bolha de energia, e isso sente-se tanto no seu trabalho – as suas roupas não encaixam em nenhum movimento ou tendência, são apenas alegres, diferentes, assumidamente fora da caixa – como nas suas palavras. Em 30 anos de carreira – passados, boa parte deles, a ignorar os mandamentos da indústria, a virar as costas a editores e buyers e a mandar as convenções à fava, o que, no fim de contas, talvez seja o segredo do seu sucesso, ou parte dele – montou um império que vive tanto da sua intuição como do seu talento. Para além da roupa, há perfumes, mochilas, almofadas, óculos de sol, tudo o que possa ser portador de (alguma) felicidade. “Todos os meus produtos carregam na sua essência a mensagem otimista do meu universo multicolorido. Sempre considerei as minhas cores e os meus ícones como um veículo de alegria. O seu objetivo é simples, mas profundo. Há que desfrutar da vida e divertirmo-nos com a moda. A moda tem de acrescentar [alguma coisa] à tua felicidade e à felicidade coletiva. Tem de ser confortável e coerente, ou seja, sustentável e com intenções humanistas. Tenho-me empenhado, ao longo de toda a vida, na importância do ambientalismo; desde o começo que o considerei fundamental para o meu processo criativo. O ritmo selvagem do mercado chegou a pô-lo em perigo, mas agora, graças a Deus, estamos todos a perceber que o ambientalismo e a moda têm de andar de mãos dadas.”

Vestido, Agatha Ruiz de la Prada e pintor Pep Guerrero, 1999

Várias vezes quiseram pintar Agatha Ruiz de la Prada como uma espécie de mad hatter que apenas desenha roupas com as cores do arco-íris e lança farpas sobre tudo e sobre nada. Só que há mais, muito mais, para além do mito.

Quando começou, Espanha vivia em plena La Movida, um período de renascimento artístico e cultural em que tudo parecia possível. O que relembra dessa altura?
Eu acho que o princípio de qualquer coisa é [sempre] maravilhoso, são dias surpreendentes, cheios de emoção, em que não sabes o que fazer. O meu começo no mundo da moda também foi o meu começo no mundo do trabalho, descobri como sobreviver, como criar a minha própria empresa, como é que as pessoas reagiam ao meu trabalho. Foi uma aventura muito emocionante, principalmente porque tive a sorte de coincidir com um dos melhores momentos de criatividade de Madrid. Tenho ótimas memórias daqueles tempos, costumava dizer “Se isto é trabalhar, que divertido é trabalhar!”

O seu primeiro desfile aconteceu em Madrid, em 1981. A cor e as formas atípicas das roupas chamaram a atenção do público e da crítica. De onde veio a inspiração para criar este universo tão peculiar?
A inspiração vem do meu percurso de vida. Na infância alimentamo-nos do que nos rodeia, o meu pai era colecionador de arte, eu queria ser pintora e passei por uma fase de arquiteta frustrada. Por isso, foi a própria vida que me inspirou, as suas misturas, as suas dicotomias, a mistura do “comme-il-faut” e do moderno, de Madrid e Barcelona, e de tantas outras coisas que me tornaram naquilo que sou hoje.

Vestido Taca-taca, primavera/verão 1987. Set composto com peças de design de Agatha Ruiz de la Prada.

Em menos de nada a sua carreira disparou. Considera-se uma pioneira na indústria?
Não. Diria que o grande pioneiro da indústria é Pierre Cardin. Numa outra esfera, Philippe Starck e, em Espanha, Javier Mariscal. Eu apenas faço parte da segunda onda.

O que é que, a seu ver, a distingue dos outros criadores?
Acho que o que me diferencia como designer é a minha própria identidade. As minhas criações são o que são porque me refletem, como as de Cardin [o refletem] a ele ou as de Starck as suas. Cada artista é um indivíduo, com o seu próprio ponto de vista e mundo interior. Existem muitos outros criadores irreverentes, como Jean-Charles de Castelbajac, um amigo que admiro muito, mas a nossa jornada particular pela terra não é a mesma e há nuances nas nossas irreverências. Cada um é o que é devido a uma infinidade de fatores, alguns dele indescritíveis. 

Alguma vez pensou em mandar tudo ao ar, fechar a porta, desistir?
Não, porque se mandar tudo ao ar, para onde vou? Não saberia o que fazer. Para mim, o trabalho é muito bom para a minha cabeça. A minha mãe sofreu de depressão toda a vida e, graças a Deus, nunca tive problemas. Sempre associei isso ao trabalho. Imagino que, se não tivesse um emprego, teria problemas de cabeça. A verdade é que prefiro mil vezes trabalhar. 

Casaco Michelin, outono/inverno 1986.

Costuma acompanhar o que se faz na indústria? Vê desfiles, lê revistas de moda, compra roupa de outros criadores?
Nunca compro roupa de outros criadores. Nem perco tempo a ver os seus desfiles. Já vi inúmeros desfiles de outros criadores, é claro, normalmente quando estou à espera que comece o meu próprio desfile, mas não me interessam, em absoluto. Os jornalistas acreditam que os criadores são jornalistas e não criadores, insistem em perguntar-nos sobre os outros designers. Em todos os países a que vou [acabam sempre] por me perguntar o que penso, por exemplo, sobre a moda da Transilvânia. Acabei de sair do avião e pouco sei sobre o país, como saberia do estado da sua moda? Karl Lagerfeld veio a Madrid e mandou os jornalistas para o inferno por causa desta mesma pergunta. Um criador não está pendente de outros criadores, tem outros problemas.

Tem uma carreira vastíssima mas, nos últimos anos, parece que renasceu. Tem recebido vários prémios, inclusivamente. A que é que isto se deve? É uma vontade de nunca parar, de querer fazer sempre mais?
Pelo contrário, diria que esta é uma das épocas da minha vida em que estou a trabalhar menos. Houve alturas em que trabalhei como um animal, trabalhei, trabalhei, trabalhei… Mas considero que o que trabalhas não tem nada a ver com o resultado do teu trabalho. Ou quase nada a ver. De repente alguém te dá um prémio e começam a chegar prémios de todo o lado. Também pode dar-se o facto de ter atingido uma idade em que, de certa forma, os prémios correspondem a mim própria. Eu trabalho da mesma forma com ou sem prémios. Agradeço muito, mas não mudam nada.

Li numa entrevista que as cores, para si, atuavam como “antidepressor.” Consegue lembrar-se quando é que foi a última vez que se vestiu de preto?
Infelizmente, cada vez mais me visto de preto. Estes meses foram terríveis. Estou como a minha avó, que se levantava todos os dias para ver quem tinha morrido – ao meio dia anunciam os mortos em Espanha, e às sete em Itália. Associo o vestir-me de preto com funerais. Embora também estivesse de preto quando fui conhecer o Papa, recentemente. Pensei muito sobre o assunto, apenas as rainhas vestem de branco diante do Papa, amarelo é uma cor da igreja, rosa é uma cor da igreja, vermelho é uma cor da igreja, roxo é uma cor da igreja. No final preferi usar preto por respeito. Sempre tive muito respeito pela igreja e pelo Papa e, além disso, o atual Papa pareceu-me maravilhoso.

Tarta - Coleção Paris 1994, Museu de Arte Moderno de Paris. 

O mundo parece estar virado de cabeça para baixo. Avizinha-se uma crise económica – e social. Qual pode ser o papel da moda em momentos como este?
Eu acho que a moda pode desempenhar um papel libertador absolutamente mágico. Após estes três meses em fato de treino, quando as pessoas põem um belo vestido e [calçam] uns sapatos de salto alto, isso irá dar-lhes um “subidón” tal que entenderão perfeitamente o poder imparável da moda.

Esta edição é dedicada à loucura. Como é que entende o significado de loucura?
Por um lado, a loucura assusta-me muito, porque a conheço. Por outro, acho que sempre fui alguém muito atraente para pessoas loucas. E é um assunto que me interessa, de facto, antes de ser criadora quis ser psiquiatra. Adorava ter sido psiquiatra para poder curar pessoas, mas há momentos em que não as podemos curar e elas nos arrastam para a loucura. Desde que seja divertida, positiva, criativa, a loucura é fenomenal, mas quando se transforma em sofrimento pode ser aterrorizante.

Tambores - Coleção Paris 1994, Museu de Arte Moderno de Paris

 

Qual foi a coisa mais louca que já fez na vida?
A verdade é que tenho bastante senso comum, suponho que seja o meu lado catalão. E também tenho genes de loucura que tento controlar. Diria que tudo o que faço é uma loucura controlada.

Numa escala de zero a dez, qual o grau de loucura ideal que cada um de nós devia ter? 
O grau ideal de loucura é aquele que te permite desfrutar e que não te faz sofrer.

Ao longo da vida, tem sido exímia em lidar com as críticas, e com a forma como alguns detalhes da sua vida privada foram puxados para as primeiras páginas dos jornais e revistas. Onde é que vai buscar a força para lidar com o lado mau da exposição pública?
Vivi 30 anos com um diretor de jornais, por isso sei dançar intimamente com a imprensa, o que é fundamental para qualquer criador. Diria que, para ser designer, é preciso desenvolver três áreas: a primeira é ter a sua própria identidade; a segunda é saber vender os seus produtos – o que eu pessoalmente considero ser mais complicado; e a terceira, saber comunicar [a sua marca] - se não aprenderes a comunicar não existes para o mundo em geral.

Look total, primavera/verão 2000

Gosta de ser famosa?
Quando comecei a minha carreira, em plena movida madrilena, todos queriam ser famosos, a canção da Alaska em que ela canta “Quiero ser un bote de Cólon y salir anunciado por la televisión” diz tudo. Nessa época não sonhávamos ser ricos, mas famosos. E a verdade é que sim, sempre gostei de ser famosa e de conhecer pessoas famosas. Sou um produto da minha geração.

Os efeitos colaterais da quarentena ainda se fazem sentir - poucas pessoas nas ruas, nas lojas, nos restaurantes... O que é que aprendeu durante esse período? Como é que o viveu?
Tenho muita sorte em ter uma casa no campo que parece ter sido desenhada expressamente para o coronavírus, parece que me preparei para esta situação a vida toda. Por outro lado, sou uma pessoa que se chateia muitíssimo por ver a minha liberdade reduzida, achei essa parte autoritária muito desagradável. Não entendo as pessoas que são capazes de desfrutar ao privarem os outros da sua liberdade. Entendo a seriedade da situação, mas considero que poderia ter sido realizada com mais tolerância.

Está otimista em relação ao futuro? Costuma ver o copo meio cheio, ou meio vazio?
Sou otimista por natureza, a minha avó era otimista. Considero que ser otimista é como ser baixo ou alto, e eu graças a Deus sou otimista.

Homenagem ao surrealismo, Milan, outono/inverno 2009

Esta revista deverá sair dias depois do seu 60.º aniversário. Que balanço faz destes primeiros 60 anos? 
Que pergunta desagradável! Nem quero pensar que tenho 60 anos embora, por outro lado, claro que adoro tê-los. É muito melhor do que a alternativa de não os ter, porque poderia ter morrido de qualquer coisa, inclusive de coronavírus, e percebo que é um privilégio. Os primeiros 60 anos da minha vida foram a bomba, espero que os próximos 60 também sejam.

Tem arrependimentos? Coisas que gostaria de não ter feito, outras que gostaria de ter dito... E planos para o futuro? 
Tal como herdei o otimismo, também herdei má memória. Toda a minha vida fui avisada de que na minha família tínhamos mau cabelo e má memória. É algo ótimo para os arrependimentos, porque não me lembro de nada, não me arrependo. O meu principal plano de futuro é sobreviver. Não tenho ideia do que estarei a fazer em cinco anos, nem consigo imaginar o que farei no próximo ano. A vida é tão incrível, quem sabe? Depois de tudo o que aconteceu com o coronavírus, acho que ninguém pode fazer planos.

 

Ficha técnica

Direção criativa e fotografia: Carlos Arroyo Galaxia e Santiago Gonzalez
Modelo: Michele Achieng Opiyo @ Uno Models
Cabelos e Maquilhagem: Fernando Martinez
Edição digital: Jorge Fuster

Carlos Arroyo and Santiago González X Agatha Ruiz de la Prada ARCHIVE.

 

Artigo originalmrente publicado na edição de julho/agosto da Vogue Portugal.