12. 11. 2021

No Comments Issue | Aaron Rose (The Future) Philip

by Ana Murcho

 

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Há mulheres que nasceram para mudar o mundo. Umas fazem-no de forma mais discreta, com pequenos gestos no seu dia a dia; outras fazem-no de forma mais visível, porque transformam esses pequenos gestos em capas de revistas, gritos de esperança, e quebram fronteiras que julgávamos impossíveis de derrubar. Aaron Rose Philip é uma dessas mulheres. A modelo americana, nascida em Antígua, é a prova de que não há limites para os nossos sonhos. Pouco mais de três anos depois de iniciar a sua carreira, Philip é uma das caras mais conhecidas da indústria. O seu currículo é tão impressionante quanto a sua força de vontade. Afinal de contas, ela é a voz de milhares de pessoas que, como ela, esperaram décadas para se sentirem representadas e ouvidas. É que, por acaso, e só por acaso, além de confiante, sexy e carismática, Aaron Rose Philip é negra, transgénero e nasceu com uma paralisia cerebral. O futuro, portanto, é dela. 

Fotografia de Arale Reartes. Styling de Jèss Monterde. Modelo Aaron Rose Philip.

O ano passado, Aaron Rose Philip (15 de março de 2001, Antígua) conseguiu a sua primeira grande campanha de moda, para a coleção outono/inverno 2020 da Moschino. Nota: se não viu, tire alguns minutos para navegar na web e perceber o quão incrível ela está nas fotos tiradas por Luigi & Iango. Há alguns meses, a modelo também tinha feito a sua estreia na passerelle da Moschino, juntando-se a Winnie Harlow, Gigi Hadid, Precious Lee e outros nomes de peso para o desfile primavera/verão 2022 de Jeremy Scott, apresentado em Nova Iorque. Seria uma conquista incrível na carreira de qualquer pessoa, mas Philip é a primeira mulher negra, trans e deficiente a alcançar tal estatuto. Em fevereiro apareceu num fashion film de Collina Strada, uma das marcas mais na berra da NYFW, e já foi capa da DSCENE Magazine, V Magazine, Metal Magazine, Número Netherlands, S Moda, INDIE, entre outras. Apareceu, além disso, numa série de editoriais para revistas como i-D, Elle, Dazed, Allure, Paper, protagonizou campanhas para a Dove, Sephora, Nike, e foi a estrela do no videoclipe de Mother’s Daughter, de Miley Cyrus, que já conta com mais de 100 milhões de visualizações. Em 2016, aos 14 anos, Aaron Rose Philip publicou um livro de memórias chamado This Kid Can Fly: It's About Ability (Not Disability), detalhando a sua experiência ao crescer com paralisia cerebral. Com mais de 200 mil seguidores, só no Instagram, Philip tornou-se a voz de uma geração. 

Em criança, o que é que sonhava fazer quando fosse adulta? Ser modelo foi uma carreira que sempre quis seguir? Quando era mais nova, o que sonhava fazer quando fosse adulta é muito diferente do que estou a fazer agora, com toda a certeza. Cresci com a vontade de me aventurar na animação e ser cartoonista, e durante um longo período da minha infância levava isso muito a sério. A certa altura queria fazer jogos de vídeo e experimentar coding. Tinha 16 anos e estudava fotografia pouco antes de entrar na indústria da moda. Estava a caminhar para possivelmente fazer fotografia a tempo inteiro, mas decidi focar-me e comprometer-me em começar minha carreira de modelo.

Como começou a sua relação com a moda, enquanto profissional? A minha relação com a moda começou profissionalmente quando eu tinha 16 anos. Comecei [a fazer trabalhos de modelo] freelance, sem representação, no início do primeiro ano do secundário. Os meus objetivos eram eventualmente encontrar e ser contratada por uma agência e, com isso, conseguir fazer desfiles, editoriais e campanhas. Já adorava moda muito antes de começar, e a minha paixão influenciou muito o meu desejo de ter trabalhado tanto no começo. Queria muito fazer parte deste mundo de que tanto gosto e percebi que, na verdade, nunca tinha visto ninguém como eu neste mundo - e foi quando realmente decidi levar isto a sério. Era indiferente o que tinha de fazer ou quanto tempo ia levar para descobrir [como fazê-lo] - eu só queria fazer alguma coisa. Ser modelo significa contar histórias e dar vida a visões e narrativas de moda - e eu sempre tive uma história para contar.

Nasceu em Antígua, tem nacionalidade americana, e é a primeira modelo negra, transgénero e deficiente a ser representada por uma agência reconhecida. Acha que o seu caráter forte pode ser um exemplo para a sua geração e para as que virão? Acho que o meu caráter forte pertence às pessoas que me veem dessa maneira, e estou extremamente grata por ser vista assim. Eu penso em mim de maneira muito diferente. As pessoas referem-se a mim com tantas palavras e sentimentos amáveis porque fiz o trabalho que fiz, e é sempre maravilhoso ser reconhecida pelo esforço que há nesse trabalho. Nunca pensei que tinha um caráter forte pelo simples fato de que fui capaz de fazer o que fiz na indústria e porque me comporto da maneira que faço. Como mulher, só quero fortalecer-me o máximo que conseguir - especialmente num mundo que nem sempre me fortalece das maneiras que me defendem e me mantêm segura. Mas também tenho sido forte, barulhenta e tempestuosa porque não tive escolha. Tive de fazer tudo o que fiz ao longo dos anos para ser vista, ser ouvida, chegar onde quero estar e provar a mim mesma - e provar que posso ocupar espaço e dar-me bem com isso, assim como as minhas colegas da indústria que talvez não sejam negros, trans e/ou deficientes.

Apesar do seu sucesso, imagino que ainda existam alguns desafios específicos com os quais você terá que lidar todos os dias em sua carreira. Poderia dar-nos alguns exemplos desses desafios? Eu me sinto muito privilegiado e abençoado por ter minha carreira / sucessos como modelo, mas é a pura verdade que todo o meu processo de pensamento ao navegar na minha carreira tem sido muito sobre enfrentar desafios diferentes e depois resolver problemas. Meu maior desafio é definitivamente acessibilidade e gerenciamento de minha experiência com uma deficiência - como uma pessoa em geral e como um modelo com deficiência física que usa cadeira de rodas na indústria. A deficiência afetou, afetou e afetou minha carreira de muitas maneiras - e muitas vezes minhas chances de até mesmo ser capaz de fazer certos trabalhos devido a vários problemas de acessibilidade e falta de acomodação para minhas necessidades.

Qual foi sua maior conquista até agora? Há algum projeto em particular do qual se orgulhe particularmente? A minha maior conquista até agora foi desfilar no show primavera/verão 2022 da Moschino, e ter a honra de ser a primeira modelo numa cadeira de rodas a aparecer num desfile desse calibre. Esse é o momento para o qual trabalhei tão duro para ver acontecer - subir a uma passerelle é algo que eu queria fazer há muito tempo e que tive muita dificuldade em alcançar e tentar conversar com os clientes. Sou infinitamente grata a Jeremy Scott, Carlyne Cerf de Dudzeele e a toda a equipa da Moschino por amar, compreender, confiar e acreditar em mim - o suficiente para garantir que tudo estivesse definido e acessível para que eu pudesse desfilar perfeitamente. A minha experiência foi tão especial, nunca a irei esquecer!

Quais são as suas ambições no que diz respeito à moda? A minha ambição quando o assunto é moda é fazer de tudo, e principalmente ao lado de pessoas que admiro e amo. Agora que me estreei na passarelle, quero muito poder continuar! Quero fazer muitos desfiles e temporadas inteiras e conhecer novas pessoas e trabalhar com os meus amigos no set. Quero continuar a fazer editoriais, campanhas e também trabalhos para revistas. Quero colaborar e fazer amizade com outros talentos com deficiência e talentos trans negros para [criar] grandes oportunidades. Só quero continuar.

Dada a sua enorme plataforma, como é que pensa educar o setor para alcançar um modelo mais equilibrado e inclusivo? Mais do que qualquer coisa, pretendo que todos na indústria se familiarizem com acessibilidade e aceitação de talentos com deficiência, e de como isso é importante. Quero que todos saibam que a conversa sobre inclusão e diversidade deve incluir a deficiência - e deve fazê-lo de forma tangível e sustentável.

Como você definiria o seu estilo? As pessoas com deficiência pedem-lhe conselhos sobre moda? Honestamente, estou num ponto em que não consigo mais definir o meu estilo! Adoro brincar e experimentar com o meu estilo pessoal, com todos os tipos de looks e estilos. Não sei porquê, no entanto. Acho que tento tratar de mim como trato da minha arte. Apenas faço e visto o que me faz feliz, e arrisco. Só quero sentir-me bem, bonita. Muitos dos meus seguidores nas redes sociais perguntam-me sobre o meu estilo, e muitos são deficientes, e o que lhes digo é para serem eles mesmos e não terem medo de correr riscos com a moda.

Os momentos de protesto físico podem ser particularmente desafiadores. Como expressa a sua voz nestas alturas? Considera as redes sociais uma boa forma de entrar em contato com seu público? Quando tenho de falar e trazer questões importantes em momentos importantes, geralmente faço-o nas redes sociais compartilhando histórias, como me sinto, e mostrando como participar em ações cruciais em relação ao problema em questão. Não me considero um ativista, mas estou ciente da minha plataforma, e do seu alcance, e tenho usado o [poder] que tenho nas redes sociais para iniciar e reviver conversas importantes. Tenho tentado ajudar o máximo de pessoas que posso - especialmente com a Exhale, a organização de ajuda mútua com a qual trabalho para garantir apoio para mulheres negras e pessoas trans da cidade de Nova Iorque.

As pessoas dizem que é uma pioneira. O que considera serem as suas maiores qualidades? De onde vem a sua força? Sinto-me extremamente honrada por as pessoas me considerarem uma pioneira. Se tiver de escolher a minha maior qualidade, acho seria [o facto de] fazer tudo com amor, e tentar fazer isso sempre. A minha força vem das experiências que já vivi e dos progressos que fiz em tudo isso.

Originalmente publicada na edição No Comments da Vogue Portugal, de novembro 2021. Todos os crétidos e imagens na versão em papel.