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A UNESCO reconhece o kohl como Património Cultural Imaterial

11 Feb 2026
By Amelia Dhuga

Teyana Taylor no Academy Nominees Luncheon de 2026. Fotografia: Monica Schipper/WireImage

Um essencial de beleza com séculos de história, enraizado em rituais e no sentido de identidade, está finalmente a ser reconhecido como património imaterial – eis por que razão o legado do kohl é hoje mais importante do que nunca.

No final do ano passado, a UNESCO reconheceu oficialmente o kohl como Património Cultural Imaterial, uma decisão que confirma aquilo que diferentes comunidades ao redor do mundo sabem há muito: trata-se de muito mais do que um simples delineador. Enraizado no ritual, na medicina, na espiritualidade e na expressão pessoal, o kohl é uma tradição viva que atravessou fronteiras e culturas.

“As evidências arqueológicas sugerem que o kohl é utilizado há pelo menos cinco mil anos, com origem no Antigo Egito, estendendo-se à Mesopotâmia e à região mais ampla do Crescente Fértil”, explica a jornalista e autora Zahra Hankir, com base em Brooklyn, cujo livro Eyeliner: A Cultural History traça as raízes profundas deste cosmético. “Muito para além de ser um simples produto de maquilhagem, trata-se de um artefacto cultural que funciona não só como adorno, mas também como forma de proteção contra o brilho intenso do sol, infeções oculares e danos espirituais e religiosos (incluindo o “mau-olhado”).”

Do Norte de África e da Península Arábica até à Pérsia e ao Sul da Ásia, o kohl difundiu-se através das rotas comerciais e dos movimentos migratórios, assumindo novas formas sem perder o seu poder simbólico. “O que é particularmente impressionante no kohl é a sua continuidade ao longo de comunidades, séculos e culturas: muito poucas práticas de beleza têm uma história transregional tão profunda”, observa Hankir.

Tradicionalmente, o kohl era produzido a partir de materiais naturais. “O mais comum era a galena, mas também se utilizavam antimónio, fuligem, plantas queimadas ou até ossos ou pedras triturados, dependendo da região”, explica Hankir. Estes ingredientes eram moídos e lavados à mão, guardados em recipientes ornamentados e aplicados com pauzinhos finos – muitas vezes como parte de um processo íntimo, quase cerimonial, transmitido de geração em geração entre mulheres.

Em lugares marcados pelo deslocamento forçado e pelo conflito, o gesto tradicional de preparar e usar kohl ganhou um significado acrescido. “Isto é particularmente evidente em zonas rurais, entre comunidades nómadas e em locais como Gaza, onde a produção e o uso contínuos do kohl também têm funcionado como uma forma discreta de preservação cultural face ao deslocamento, ao cerco e às repetidas tentativas de apagamento”, explica Hankir.

Hoje, o kohl ocupa, no entanto, um lugar complexo no panorama global da beleza. Embora o termo seja amplamente utilizado, muito do que é comercializado como kohl pouco se assemelha à sua versão tradicional. “Muitos são, na verdade, delineadores modernos…”, diz Hankir. “Usam o termo kohl como um recurso estilístico ou uma estratégia de marketing.” Nesse processo, as suas dimensões ritual e cultural acabam muitas vezes por se perder.

É precisamente por isso que o reconhecimento da UNESCO é importante. “O reconhecimento da UNESCO reconhece formalmente o kohl como património cultural vivo, ao mesmo tempo que apoia a sua documentação, a educação e a preservação liderada pelas próprias comunidades”, afirma Hankir. “Dar visibilidade a este contexto é importante, porque impede que o kohl seja reduzido a um simples cosmético “étnico” e volta a colocar no centro as comunidades que o têm preservado.”

Hoje em dia, também são os maquilhadores contemporâneos a manter viva esta tradição. Para Hamda Makeup, o kohl está profundamente ligado às suas primeiras memórias. “Lembro-me de ver a minha mãe a aplicar o kohl todos os dias”, recorda. “Ela usa-o da mesma forma que o clássico kohl árabe preto – apenas no contorno interno dos olhos.” Essa memória influencia agora a sua prática profissional. “Como maquilhadora, o kohl é indispensável no meu kit”, afirma.

“Começo com uma paleta de sombras nude em tons terrosos”, diz a maquilhadora. “Inicio com as cores mais claras e vou gradualmente criando profundidade. Depois, aplico kohl preto ou castanho na linha de água para aquele toque clássico árabe. Termino com máscara de pestanas e pestanas postiças, e gosto sempre de realçar os olhos com um traço em asa, estilo cat‑eye, para os tornar grandes, sedutores e com uma beleza tipicamente árabe.”

Traduzido do original, disponível aqui.

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