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A primeira pessoa de Lily Allen

© Bella Howard

Entrevistas 18. 6. 2018

by Rui Matos

 

No universo da música pop britânica, Lily é uma espécie de realeza graças às fronteiras que tem cruzado ao longo do seu percurso: por exemplo, abriu o precedente para artistas como Dua Lipa poderem cantar sem represálias “well, boy, I don’t give a fuck”, depois de Allen já ter quebrado barreiras com letras como “when we go up to bed, you're just no good, it's such a shame”. A mais recente coletânea de originais não é excepção e o ano de 2018 fica marcado como o regresso da cantora ao palco e à estrada. A Vogue conversou com a artista dias depois do lançamento do novo trabalho discográfico, No Shame. 

“I feel like I’m under attack all of the time” (sinto que estou a ser atacada o tempo todo), canta Lily Allen em Come On Then, a música que abre este novo trabalho e que vem com uma sonoridade diferente, mais madura e mais contemporânea. Uma coletâneo de músicas sinceras, sóbrias e coerentes. "Yeah, I'm a bad mother / I'm a bad wife / You saw it on the socials, you read it online.” (sim, sou uma má mãe / uma má esposa / viste-o nas redes sociais, leste-o online), prossegue ainda na mesma faixa. É com a provocação que lhe é tão característica que nos abre a porta para este capítulo. 

© Bella Howard

Mais do que um álbum repleto de sucessos, Allen aventurou-se a escrever a sua narrativa sem qualquer tipo de filtro ou vergonha. Afinal de contas, não é à toa que o disco se intitula No Shame. “É um título ambíguo que pode significar muita coisa, tudo depende do contexto em que é dito. É um álbum muito pessoal, sobre as minhas experiências que as pessoas assumem que deveriam envergonhar-me, mas na realidade essas situações não me fazem sentir inibida.”, afirma Lily Allen, do outro lado de uma linha telefónica que liga Lisboa a Londres. 

Conquistou-nos em 2006, quando apresentou Alright, Still, o álbum de estreia. A voz era doce, a ironia uma constante, a personalidade vincada e a liberdade de expressão desmedida. Pouco mais de uma década depois e ainda entoamos temas como Smile.

Em 2009, com It’s Not Me, It’s You, foi ainda mais longe, sagrando-se um dos nomes da pop sem papas na língua da altura: Not Fair, Fuck You, 22 ou Everyone’s At It são bons exemplos da honestidade sem filtros a que já nos habituou. Ainda que a meio de uma crise de identidade a nível musical, em 2014, com Sheezus, continuou esta jornada, num trabalho que era obviamente pensado para o público e não um reflexo da sua personalidade. Agora, em 2018, parece ter-se encontrado, voltando às suas origens, mas numa versão 2.0.

 

Para trás, deixou o conceito de pop star e, ao invés de se focar em músicas que rendessem prémios e receitas elevadas, optou por escrever e cantar do coração, da alma, do seu interior. Talvez tenha sido essa a razão por ter passado os últimos quatro anos em estúdio, para se poder focar e perceber aquilo por que estava a passar e que queria transmitir. “Não contei os dias, mas sei que foram muitos”. Sobre o processo criativo, conta-nos que “enquanto estava a fazer este álbum, estava triste. Nos meus dois primeiros trabalhos, tinha 19 e 22 anos e fartava-me de sair à noite e, consequentemente, a minha música refletia isso mesmo. Agora, sabes, estou numa fase diferente.”

No Shame é o equivalente a dizer que Lily construiu a sua história em 14 músicas que permitem ao público acompanhar essa trajetória. Desde os momentos mais confusos (Trigger Bang), aos mais tristes, como o divórcio (Apples), até ao reencontro com a felicidade (Cake). “A primeira parte é muito caótica, segue-se uma fase mais melancólica e a última parte é mais feliz”. 

Como qualquer millennial, a britânica está consciente do poder das redes sociais: “se não fosse a Internet eu não seria tão bem sucedida como sou”. A carreira de Allen arrancou com o crescimento destes espaços virtuais - foi através do MySpace que publicou as primeiras músicas e, consequentemente, atingiu um recorde de downloads. Hoje em dia, é no Twitter que se manifesta, mostra os seus pontos de vista e defende as suas convicções, mesmo que as suas palavras incomodem os outros (e, por outros, na maioria das vezes, entendam-se os tabloids que não conseguem viver sem manchetes protagonizadas pela cantora). 

© Bella Howard 

Tanto na música, como na Moda, Lily Allen é uma referência, mesmo não seguindo as tendências ditadas pela passerelle. “Não faço isso, nunca fiz.”. Apesar de já ter vestido criações de veteranos da indústria, como é o caso de Lagerfeld para a Chanel, as preferências recaem sobre “fatos de treino e ténis”, que é como quem diz conforto. “Quando estou em concertos maiores, com uma hora e meia, por exemplo, essa é a palavra-chave. Mas, acima de tudo, desde que consiga respirar estou bem. Não me importo se as pessoas vão achar que estou bem vestida ou bonita.”. 

Lily Allen pode não ter feito um disco com sucessos iminentes, mas depois de ouvir No Shame em loop vai perceber que é de artistas assim que a indústria também se faz: sem medo de dizerem o que pensam, sem receios das suas ações e com personalidade para encarar as consequências dos seus atos. Numa era onde alguns artistas têm medo de se expressar, é justo dizer que precisamos de mais Allens. 

 

No Shame já se encontra disponível nas plataformas digitais e à venda em espaços físicos. 

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