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De que maneira é que a saúde mental afeta a nossa pele? Fomos investigar.

Tendências 21. 10. 2020

A pele em que habito: a obsessão pela cirurgia plástica

by Ana Murcho

 

Nos últimos seis meses, só em Portugal, a cirurgia para aumento de glúteos cresceu cerca de 400%. Isto significa que, apesar da pandemia, as mulheres – porque são maioritariamente mulheres – continuam preocupadas com a sua aparência física. Mas isso é apenas a ponta do icebergue. Porque se o busílis da questão estivesse na obsessão com o rabo empinado, estávamos nós muito bem. É que a última década trouxe uma mania generalizada por intervenções que vão muito (mas mesmo muito) além da simples correção, ou aperfeiçoamento, da imagem.

© Getty Images / Artwork de João Oliveira

Jordan James Parke tinha um sonho: ser igual a Kim Kardashian. E não descansou enquanto não... Bom, não podemos escrever “enquanto não o concretizou” porque, obviamente, Jordan James Parke não conseguiu cumprir o seu grande objetivo de vida. Apesar das inúmeras cirurgias a que já se submeteu, o rapaz de Manchester, Inglaterra, também conhecido como the king of aesthetics (é assim que se define no seu perfil de Instagram, onde tem perto de 100 mil seguidores), ainda apresenta um look que nada tem a ver com a estrela de reality shows americana. Em 2016, numa aparição no programa The Morning Show, Jordan revelou ter gasto mais de 140 mil euros, do próprio bolso, nas mais de 50 intervenções a que se submeteu no espaço de seis anos. “A cirurgia plástica é 100 por cento como o sexo. Não podes fazê-la apenas uma vez. Tens de fazê-la uma e outra vez, repetidamente”, admitiu na altura.

 
 
 
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Será algo do género que passou pela cabeça de Valeria Lukyanova, a ucraniana que o mundo identifica como Human Barbie quando, ainda adolescente, se deu conta das parecenças que a ligavam à boneca da Mattel. Daí até começar um caminho sem retorno de modificações foi um pequeno passo. Vamos diretamente ao que interessa porque, no caso de Valeria, os implantes mamários gigantescos e o nariz ultrafino são coisas de meninos: para conseguir atingir, e manter, o efeito “cinturinha de vespa”, aquele que em tempos que já lá vão as mulheres exibiam com espartilhos que se confundiam com instrumentos de tortura, a rapariga (que entretanto se reinventou como médium) decidiu extrair várias costelas.

Em pleno século XIX, quando achávamos que o pasquim “sofrer para ser bela” tinha sido descontinuado de uma vez por todas, eis que nos chegam ecos das suas reedições. Para Valeria, já se vê, foi impossível parar à primeira alteração. Tal como Jordan James Parke. Tal como Justin Jedlica – que, nem de propósito, é o Human Ken Doll e que terá feito qualquer coisa como 100 cirurgias plásticas. Tal como Pixiee Fox – ou devemos dizer The Living Cartoon, na sua demanda por competir visualmente com a Fada Sininho, desejo entretanto reciclado, quando descobriu que poderia ser igual a Jessica Rabbit? Tal como tantos outros que viram na transformação extrema a única forma de encontrar uma espécie qualquer de felicidade.

 
 
 
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 “Muitas das cirurgias estéticas são realizadas para que o paciente se sinta bem consigo próprio, confiante com a sua imagem, porque o bem-estar emocional – a autoestima – tem um grande impacto no seu dia a dia, tanto nas relações amorosas e de amizade, como nas relações familiares e profissionais. Quando estamos confiantes, temos outra postura perante a vida, outra disponibilidade. Contudo, no caso das cirurgias extremas, acredito que vá além disso. Por um lado, a beleza é abstrata e altamente influenciável pela sociedade em que estamos inseridos e, individualmente, também podemos ter visões diferentes do que é belo e atraente. Por outro lado, esta busca por procedimentos mais extremos é, muitas vezes, uma forma de chamar a atenção ou de escape para quadros de desequilíbrio emocional ou perturbações de identificação.” João Martins é especialista em cirurgia plástica, estética e reconstrutiva. Está habituado a lidar com toda a espécie de casos, os bons e os menos bons, os que têm finais felizes e os que precisam de uma “segunda mãozinha.”

"Se não gostarmos do nosso corpo, será mais difícil sentirmo-nos bem connosco." Paul S. Nassif

Para João Martins, a procura pela cirurgia estética, nomeadamente por estes extreme procedures, justifica-se porque, numa primeira instância, “a imagem corporal é tanto racional como emocional e muitas vezes tem um peso importante no valor que atribuímos a nós próprios. Penso que a autoestima e o aspeto do corpo estão ligados e se influenciam mutuamente. Se não gostarmos do nosso corpo, será mais difícil sentirmo-nos bem connosco e, se não nos sentirmos bem com quem somos, dificilmente vamos valorizar a imagem que temos.” É uma opinião partilhada por Paul S. Nassif, cirurgião plástico libanês-americano e um dos protagonistas do programa de televisão Botched, onde se corrigem erros de intervenções passadas.

“A cirurgia plástica está a tornar-se algo cada vez mais aceite. As pessoas não se expõem pensando que serão ‘estragadas’ - isso simplesmente acontece. Porém, alguns pacientes, como se vê no Botched, estão em [processo de] modificação do corpo – e sabemos que são muito inteligentes e que sabem exatamente o que está a acontecer, mas eles querem, ainda assim, modificar o seu corpo, como alguém quer fazer tatuagens ou piercings, só que [no caso deles] é mais extremo. Eles pesquisam em todo o lado para encontrarem os melhores médicos para o fazer, e é por isso que se expõem. E não têm falta de autoestima – alguns desses pacientes querem apenas ter o corpo perfeito, ou são viciados em cirurgia plástica, e talvez esse seja o problema. Mas acho que, nessa situação, é óbvio que existem pacientes com distúrbios dismórficos do corpo, e procuram algo que consideram imperfeito e tentam aperfeiçoá-lo.”

 
 
 
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Pergunta para um milhão de euros: como é que alguém decide tornar-se escravo da faca? Pergunta para dois milhões de euros: porque é que alguém decide submeter-se a constantes cirurgias, que implicam quantias elevadas de dinheiro e um pós-operatório duríssimo, quando muitas vezes o resultado final é apenas a distorção dos traços com que vieram ao mundo? Nos últimos anos, aquilo a que chamamos de extreme procedures – e aqui tanto encaixa o implante mamário surreal como a tentativa, quase sobre-humana, de crescer uns centímetros – tem aumentado vertiginosamente.

Devemos apontar o dedo à chamada “cultura das celebridades” ou, por outro lado, serão as redes sociais, que celebram uma versão filtrada das pessoas, as grandes culpadas? João Martins não tem dúvidas: “O culto da beleza e a ideia de vida e corpo perfeito que prolifera nas redes sociais pode, de facto, justificar esse aumento. Estes procedimentos, ditos extremos, continuam a ser mais frequentes em sociedades como a americana, mas é verdade que, por influência ou evolução natural, começam a surgir em Portugal.  Com os filtros e outras ferramentas de manipulação de imagem, deixou de se perceber o que é real ou não e, na dúvida, todos acreditamos no que vemos, acreditamos em versões filtradas mesmo sem saber o que realmente é a vida dessas pessoas. Acaba por existir uma forma abstrata de competição pela vida que certas pessoas, que acabamos por idolatrar, têm. Por outro lado, surgiram novos ‘padrões de beleza’ com celebridades como Kim Kardashian ou Nicki Minaj que, quer gostemos ou não, vieram definir novas tendências, muitas vezes assentes no exagero. O facto de esses modelos se tornarem referências e chamarem a atenção, pode levar a que alguém possa sentir que terá mais valorização dos seus pares se conseguir ser mais parecida com esses ídolos. As pessoas acabam por acreditar que o que veem é a forma como o seu corpo ou face deveriam ser.”

"Parte do meu trabalho é ser psiquiatra, terapeuta e psicólogo, e descobrir porque é que eles realmente querem fazer aquilo. Qual é o motivo, qual é a obsessão? Tenho de aprofundar isso." Dr. Nassif

Uma vez mais, é uma posição que encontra eco no Dr. Nassif. “Acho que são mais as redes sociais – não acho que ainda seja a cultura das celebridades. Eu acho que o que acontece é que as pessoas olham para as redes sociais e começam a ‘filtrar-se’, e continuam a fazer isso um bocadinho mais, e um bocadinho mais ... e acabam basicamente por pensar que realmente se parecem com isso, uma versão muito filtrada de si próprios, uma versão que não existe. Depois vão ao médico e tentam recriar isso, e alguns médicos aceitam fazê-lo, e é aí que nos damos conta desses procedimentos extremos.”

É aqui, também, que entra em ação a ética, e a moral. Os dois médicos já se recusaram a operar. Mais do que uma vez. Quando estava em causa a saúde, física e mental, mais do que uma suposta beleza – que nunca é total, nem perfeita, por mais afinadas e experientes que sejam as mãos que orquestram a mudança. “É habitual os pacientes chegarem à consulta com uma ideia do que querem desajustada à sua realidade. Nestes casos, além de falar dos prós e contras, mostro-lhes o porquê de não achar viável e, na maioria das vezes, o paciente muda de ideias e acabamos por escolher um resultado mais em linha com a sua estrutura”, explica João Martins.

E continua: “Hoje, com tanta tecnologia disponível, é até possível simular a imagem com que ficará e aí, defrontando-se com a sua imagem alterada, o paciente percebe melhor o porquê de ser ou não adequado. Muitas vezes não se trata apenas de uma questão de proporções, mas sim de segurança. Com o avanço da medicina e da cirurgia, quase tudo passou a ser virtualmente possível, no entanto os riscos para a saúde podem não justificar o que nos é pedido. Além dos riscos a curto prazo, inerentes à cirurgia, temos de considerar as consequências físicas e psicológicas a longo prazo e ter muito respeito pelos pontos de não retorno. Ou seja, poderá não ser possível reverter determinados procedimentos. Em cirurgia, não há uma borracha que nos permita apagar o que modificámos no corpo quando determinadas características já não estiverem na moda ou quando não corresponderem às expectativas de que determinada alteração física extrema fosse resolver todos os nossos problemas e permitir aquela vida filtrada que tentámos copiar.”

 
 
 
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No caso do Dr. Nassif, podemos assistir às suas firmes tomadas de posição em qualquer episódio de uma das seis temporadas de Botched. “Converso com os pacientes a toda a hora, especialmente no meu consultório. Tento fazê-los mudar de ideia, até converso com eles sobre se têm um problema psicológico e tento levá-los a procurar o médico de saúde mental certo. Digo-lhes porque é que é perigoso o que vão fazer e o que isso lhes pode fazer. [...] Parte do meu trabalho é ser psiquiatra, terapeuta e psicólogo, e descobrir porque é que eles realmente querem fazer aquilo. Qual é o motivo, qual é a obsessão? Tenho de aprofundar isso, seja um distúrbio obsessivo-compulsivo, uma dependência de cirurgia plástica, um distúrbio dismórfico do corpo, uma baixa autoestima, uma depressão. O que é que está realmente a causar isso? E isso acontece a toda a hora, alguns pacientes escutam-me, outros às vezes não ouvem e vão a outro médico e acabam por receber o procedimento.” Lembra-se de Jordan James Parke, com que abrimos este texto? Já por duas vezes tentou a sorte no programa conduzido pelo Dr. Nassif e pelo seu colega, Terry Dubrow. Por duas vezes, as suas intenções foram negadas. Um valor mais alto se levantava – a sua saúde.

"A cirurgia plástica deve ser vista como um aperfeiçoamento da nossa imagem e não como uma alteração drástica." João Martins

Mas, afinal, o que se anda a fazer por esses consultórios fora? Ou melhor, o que se anda a corrigir? Porque se todos sabemos que o preenchimento de lábios começou a ser trendy-até-certo-ponto no final dos anos 2000, estamos um pouco a leste no que diz respeito à forma como se corrigem alguns desses lip fillers gone wrong. O mesmo é perguntar, qual é o top das intervenções que são botched?

A palavra a João Martins: “As cirurgias mais realizadas acabam por ser as que têm mais correções. A troca de implantes mamários é a correção mais frequente: retirar implantes demasiado grandes e artificiais (um look que foi mais procurado nos anos 90) e remontar a mama sem qualquer implante ou com implantes mais pequenos e com um resultado mais orgânico. Nos últimos anos, houve um crescimento muito marcado do aumento labial. Devido à banalização dos preenchimentos com ácido hialurónico e à falta de legislação sobre quem pode realizar estes procedimentos, tem sido cada vez mais frequente ter de corrigir lábios, ou porque o produto foi colocado de forma errada e deformou o lábio ou porque as proporções com os restantes elementos da face – como o nariz e o queixo – não foram respeitados. Outra área de correção é o glúteo, não só pela utilização indevida do metacrilato [uma substância permanente, tipo cimento, com elevado potencial de volumização], mas também pela tentativa de obter aumentos excessivos através da infiltração abusiva de gordura (que acaba por formar quistos, necrosar ou infetar), ou da utilização de próteses colocadas demasiado superficialmente e que, anos mais tarde, trazem complicações sobretudo de visibilidade do implante e deformação do glúteo.”

Daí que estas histórias, ou parte destas histórias, nem sempre tenham um final feliz. As pessoas que praticam extreme procedures, as que “não conseguem parar à primeira vez”, vão à procura de uma versão melhor de si mesmas, uma versão que se pareça mais com essa utopia que descobrem num mundo virtual, só que acabam, frequentemente, por conseguir pouco mais que uma versão mais falsa, quase apalhaçada, da original. É uma certa dose de loucura que implica (muitos) riscos, como esclarece o especialista português.

“Além dos riscos inerentes à complexidade dos procedimentos e às comorbilidades individuais de cada paciente, que podem pôr em risco a integridade física e a vida, o maior risco é, de facto, a pessoa perder a sua identidade, deixar de ser quem é, deixar de ter os traços que lhe são característicos e que a fazem reconhecer-se. A meu ver, a cirurgia plástica deve ser vista como um aperfeiçoamento da nossa imagem e não como uma alteração drástica – salvo algumas exceções, como reconstrução (seja mamária, da mão ou outra parte do corpo), em que a plástica serve, precisamente, para garantir uma maior naturalidade. Só temos um corpo e, por isso, é importante cuidá-lo e preservá-lo, até porque uma alteração excessiva pode trazer muitas complicações. Temos de ter presente que os gostos e as tendências também mudam e, desta forma, o que a pessoa gosta de ver hoje, pode já não gostar de ver daqui a cinco anos e, nessa altura, vai ficar insatisfeita, frustrada e isso vai começar ter impacto na sua autoestima, resultando em problemas emocionais.”

Da próxima vez que pensar em deitar-se numa marquesa para lhe colocarem um traseiro “igual” ao da JLo, lembre-se de tudo isto. Se mesmo assim decidir avançar com a cirurgia, procure um médico para quem a ética seja tão importante como o resultado final. São esses que nunca falham.