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Entrevistas 15. 3. 2018

A insustentável beleza do silêncio

by Tiago Neto

 

Toda a urgência tem uma mensagem e Colo é um poderoso recado produzido na fragilidade do olhar, lidado pelos silêncios, que desconstrói a mais verdadeira de todas as conceções: morremos sozinhos, mas vivemos entre outros.

©Realização de Cláudia Barros. Fotografia de Branislav Simoncik.

Cabiam quatro de cada vez nas mesas. Os pratos estilhaçavam-se contra a bancada do lado de lá do balcão. São 15 horas, certamente mais de 15 os posters na parede até ao lugar. O crime maior será sempre não se poder fumar no café. A Cinemateca é um altar diferente, um oásis reservado aos elitistas no limbo da partilha democrática.

Alice chega primeiro. Traz uma saia e um trench, verde‑alface, numa espécie de vinil como material, que rapidamente supõe a maquinaria do tão conhecido statement. Sentou-se, iniciou um frenético e delicado jogo de gestos e fez aparecer um pequeno pedaço lilás de malha, atravessado por duas enormes agulhas. O telefone é pequeno, antigo, incapaz para selfies. Alice vive em Londres, tem 20 anos. Estudou música clássica mas mora no design têxtil. No filme, o seu primeiro, é Marta.

Teresa e Clara juntam-se. Uma tribo de três no eco das conversas de fundo e do cinzento do dia. Pedem café, sopa. Falam pouco. Não há espaço para trivialidades, mas há um pacto excessivamente eficaz que ficou desde os dias entre câmaras e takes.

Teresa Villaverde é a maquinista do simulacro. Colo foi escrito e realizado pela mesma mão, mas, como todas as máscaras, é impercetível ao corpo e aos sentidos de onde brotou. “No meu caso, as coisas começam por vir na forma de sensações (…) um filme, livro, o que for que o autor consiga resumir numa frase, quando é possível, não temos o desejo de o fazer.”

À mercê do ID (sistema básico da personalidade, que possui um conteúdo inconsciente, por um lado hereditário e inato e, por outro, recalcado e adquirido, de acordo com a segunda teoria freudiana do aparelho psíquico), Teresa começa por reviver a pele da origem do trabalho, “todos nós vivemos, nos últimos anos, um período um pouco estranho. Ainda que tenhamos sempre andado de período estranho em período estranho, mas houve aquela questão da minha geração, e outras que cresceram depois do 25 de Abril, viram sempre a vida com algumas dificuldades. Mas havia uma confiança de que o mundo ia sempre para melhor. E, de repente, as pessoas tiveram de reformular a sua forma de encarar a vida e de ver o futuro. Não era preciso procurar muito, sentíamos no olhar das pessoas, nas ruas, nos cafés. Se pensarmos bem, muita gente está na mesma situação em que estava, mas o olhar mudou e isso suscita-me interesse. Isto tem que ver com esperança.” Alice interrompe, “nós não crescemos com essa esperança de que estás a falar. A minha geração tem muito essa conversa de que o mundo é horrível e que cada um está fechado em si próprio precisamente por isso, porque não há esperança”.

“Uma pessoa pode perder o seu trabalho e isso gerar uma série infinita de problemas, mas não devia abater a pessoa ao ponto de deixar de se sentir digna de viver, como aconteceu."

O filme atua como uma lâmina de duas horas que se desembainha ininterruptamente na saliva dos dias. O esqueleto pode ser frágil aos olhos de alguma da crítica, mas há nele uma respeitosa homenagem à alienação, à solidão, ao quebrar do espírito como consequência do decorrer da contemporaneidade. “Uma pessoa pode perder o seu trabalho e isso gerar uma série infinita de problemas, mas não devia abater a pessoa ao ponto de deixar de se sentir digna de viver, como aconteceu. Devia ser uma coisa encarada como um período terrível, mas não como momento de destruição absoluta. Se vivêssemos numa sociedade mais solidária, podíamos ter-nos ajudado mais. E vemos no filme, a personagem do pai praticamente desiste, torna-se uma pessoa sem propósito, e isso tem a ver com a forma como estamos distantes dos outros. Se esta crise tivesse aparecido numa sociedade mais humana, é provável que as pessoas pudessem ter reagido de outra maneira. Gostava que este filme servisse não para fazer um statement mas para gerar uma discussão, para falar sobre a nossa sociedade.”

A mensagem é crua. Como a coroação da miséria o deve ser. E a transversalidade das premissas ensopa o elenco no decorrer do projeto. Alice começa por construir a tridimensionalidade da personagem em retalhos arrancados à realidade. As gavetas do quarto da Marta enchem-se, as paredes ganham recordações, os lençóis cor, o espaço dono. “Encarei aquilo como algo muito sério. E foi uma coisa sobre que falávamos durante o filme. Lembro-me de falar com a Beatriz [Batarda] sobre as nossas personagens e de tentarmos compreender as coisas. A Teresa deixou isso em aberto, deu-nos espaço, e cada um teve a sua maneira de sentir. Não foi só representar e sair de cena.”

Necessidade. Apego. Liberdade. Alice aponta Teresa como a responsável, “foi uma coisa superincentivada pela Teresa. Foi difícil para mim, balançar realidade e ficção, foi muito pessoal”. Para Clara Jost, a mensagem acontece de maneira diferente: “A personagem tem backstory, mas senti que aparecia no filme e que havia muito deixado de fora (…) Era uma crise mais pessoal.”

Colo é o 13.º trabalho de Teresa Villaverde. A estética definiu-se e a forma como cada rendilhar produz efeito é agora um território familiar. Mas a narrativa de Colo teria sempre outros caminhos, especialmente aqueles em falta. “Este é dos filmes em que tudo o que se filmou, entrou. Os meus guiões acabam por ser compridos e há muita coisa que vai fora não pela duração mas porque já não cabe, porque o filme rejeitou uma ou outra cena. E aqui isso não aconteceu”, explica. Alice discorda. “Aconteceu. Senti que faltava muita coisa.”

Teresa riposta: “Talvez faltasse alguma coisa (…) se pensarmos, como é um filme de silêncios e o mais importante é o que acontece dentro das pessoas – e isso não corresponde necessariamente a ações – para termos essas sensações é necessário tempo.”

A estreia comercial em território português tem sido adiada sistematicamente. O tempo, aqui, é o âmago de todas as questões, mas estará sempre longe de uma outra matéria, a da compreensão artística. E o apetite visual ecoante nas salas portuguesas passará sempre por uma preferência: a maior. O ator maior, a atriz maior, a história maior, a divulgação. As condicionantes são ruidosas.

E, em tempo, ditam regras profundamente bordadas nas escolhas de quem ainda se senta na sala escura. “Para quebrar esse preconceito é precisa uma dose gigante de promoção. Se num cinema tivermos um filme português e uma grande produção estrangeira com o George Clooney – um ator que ‘vive’ na casa das pessoas – com os mesmos preços, como é que vamos disputar isso? Ainda assim tenho alguma esperança de que, hoje em dia, as pessoas se começaram a interessar mais por coisas portuguesas (…). Muito sinceramente creio que uma percentagem gigante de pessoas que não vai ver o Colo, se fosse, ia gostar. Se pensarmos bem, as pessoas que vão ver filmes portugueses, europeus, filmes não hollywoodescos, não se queixam. É preciso é ir. Mas o problema não é só do cinema, é, por exemplo, com os livros. Com o espectador de cinema existe o grande problema da escolha. É muito limitada. A publicidade está em todo o lado para os filmes americanos e para nós é impossível. Isso só pode ser combatido se nos promovermos mais. É um reflexo da sociedade, a própria televisão que já foi melhor, as livrarias, os teatros. Estamos cercados mas é uma obrigação resistir e tenho muito orgulho no cinema português por isso. As pessoas em Portugal acham normalíssimo um filme português estar em Cannes ou noutros festivais, mas não é.”

"Muito sinceramente creio que uma percentagem gigante de pessoas que não vai ver o Colo, se fosse, ia gostar. Se pensarmos bem, as pessoas que vão ver filmes portugueses, europeus, filmes não hollywoodescos, não se queixam. É preciso é ir."

Se o preconceito partir do público português, como a repulsa histórica pelas películas lusas tem testemunhado, a questão ultrapassa o racional. Contudo, a problemática é maior, mais abrangente, e é tremendamente voraz. Não que as obras cinematográficas portuguesas sejam criadas para a condenação inevitável ao anonimato ou ao esquecimento, mas a estratégia, segundo Teresa, deve ser repensada. “Tem de ser um trabalho em conjunto e tem de se chegar às pessoas. Estou mesmo convicta de que as pessoas quando chegarem à fila do cinema e virem a palavra Colo e virem que é português vão dizer ‘nem pensar, para aí não vou’ e pelo menos 80% dessas pessoas entravam e saíam a dizer ‘ainda bem que vim ver este filme’. Tenho a certeza absoluta disso.”

Clara questiona, “mas isso tem a ver com o próprio filme, não é? Porque segundo o filme, as pessoas estão com demasiados problemas para que possam prestar atenção às coisas”. Alice, aproxima-se, num outro ponto de vista: “Mas também se criou esta ideia de que o entretenimento tem que ser uma coisa que não dá trabalho à cabeça, o que é uma estupidez. Porque é que não é bom – dependendo do teu mindset – cultivares-te? Podes entreter-te e ter trabalho. Eu, por exemplo, tenho imensa dificuldade em encontrar espaço e tempo para ver um filme. Há muita gente hoje a ver filmes em casa, aos bocados, e isso não é a mesma coisa. Quando vejo filmes quero vê-los com a qualidade de tempo.”

Organismos como o Ministério da Cultura são a terra de que a estabilidade deve brotar, “existe um apoio à produção, à divulgação, mas tudo dentro dos meios do nosso país, e aí é que está o problema. Estamos a competir com máquinas muito grandes e nós, sendo um país pequeno, não conseguimos combater. Podia levar-se mais a sério a ideia do Plano Nacional de Cinema porque isso é muito útil. Percebo que seja complicado pôr em prática, mas uma escola pode perfeitamente projetar um DVD. Tem de haver mais energia de todas as partes: das escolas, do Ministério da Educação, dos cineastas, dos autores, produtores. Tem de ser uma coisa que funcione a longo prazo. É um esforço que temos todos de fazer”, explica Teresa.

Colo tem data de estreia a 15 de março. Depois da estreia na 67.ª edição do Berlinale e de passagens por vários países, a longa volta a casa. Teresa, Clara e Alice são três das razões para que o retrato encerrado em Colo não possa nunca silenciar-se. E não deve. No cinema como na sociedade a esperança é uma mensagem poderosíssima. E a mensagem de Colo é essa, um despertar de silêncio como fórmula necessária de ruído.

 
Artigo adaptado da edição de fevereirdo 2018 da Vogue Portugal. 

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