Beleza  

A beleza é ridícula

28 Oct 2026
By Esteban G. Villanueva

Fotografia de Nick Scaife. Editorial Pantone: rainbow nonsense, da edição Nonsense da Vogue Portugal, publicada em julho de 2021.

Em defesa do batom, do eyeliner, do perfume e de tudo aquilo de que nunca precisamos verdadeiramente.

Vivo numa bolha. Tenho plena consciência disso e, por vezes, estou extremamente grato por tal. Outras vezes, a bolha rebenta por um minuto que seja e lembro-me de como o meu pequeno mundo, lindo, hidratado e com bastante colagénio, pode ser ridículo. 

Consigo identificar — e, mais importante, distinguir — três batons vermelhos quase iguais numa chamada Zoom. Deem-me pixels suficientes e provavelmente consigo dizer a marca, a cor e o acabamento. Esta não é uma competência particularmente útil para a vida, mas é uma que tenho vindo a aperfeiçoar há anos. No início da minha carreira como editor, alguém me disse que sabia que eu era um bom editor de beleza porque eu tinha conseguido escrever 600 palavras sobre o lançamento de um único batom numa cor que essa pessoa descreveu como "nem tão interessante assim". Assumi que era um elogio. Ainda assumo.

Há algo vagamente ridículo neste nível de atenção. A beleza pede-nos que nos preocupemos profundamente com as diferenças microscópicas: se um vermelho puxa ligeiramente para o azul ou para o laranja, se um sérum é absorvido três segundos mais depressa, se um almíscar é mais limpo, mais quente ou mais "natural" do que outro. Discutimos peptídeos, percentagens e renovação celular com a precisão de cientistas, e depois compramos outro batom porque este vermelho em particular parece diferente dos doze que já temos em casa. Provavelmente é mesmo. E, no entanto, não creio que este disparate torne a beleza menos significativa. Aliás, talvez seja parte da razão pela qual ela importa.

O curioso é que sempre fomos assim. É certo que não tínhamos a quantidade de marcas, fórmulas ou acesso a lançamentos que temos hoje, mas, enquanto seres humanos, sempre nos preocupámos: com a forma como somos percecionados, com o nosso cheiro, com a nossa aparência, com a forma como envelhecemos. Para terem uma ideia, em vários momentos da história, envenenamo-nos ativamente para parecermos "melhores" ou remodelamos os nossos corpos em busca de uma cintura específica. Ridículo? Sem dúvida. Novo? Nem um pouco.

Consigo identificar — e, mais importante, distinguir — três batons vermelhos quase iguais numa chamada Zoom. Deem-me pixels suficientes e provavelmente consigo dizer a marca, a cor e o acabamento.

E a beleza não é o único campo em que nos comportamos desta forma. Remodelamos cozinhas perfeitamente funcionais porque já não nos agradam esteticamente. Compramos um novo par de jeans, uma nova mala, uma nova cadeira, simplesmente porque a nova peça nos fica melhor. A funcionalidade nunca foi a única coisa que importa aos humanos. Gostamos de melhorias, novidades, beleza, estatuto, identidade e, ocasionalmente, de coisas simplesmente porque as desejamos. Então, porque é que, quando se trata de beleza, estamos tão frequentemente determinados a provar que desejar não chega?

A dada altura, a beleza tornou-se muito boa a defender-se. Um creme já não pode ser simplesmente agradável ao toque; deve fortalecer a barreira cutânea, aumentar a hidratação numa percentagem mensurável e, de preferência, ter um estudo clínico para o comprovar. Um batom já não é apenas um batom se também prometer ácido hialurónico, peptídeos ou 12 horas de duração. Até as fragrâncias, talvez a categoria mais gloriosamente subjetiva de todas, se veem cada vez mais a apropriar-se da linguagem do bem-estar, da neurociência e do humor.

Não sou contra nada disto. Muito pelo contrário. Quero os estudos, as percentagens, os antes e os depois e as listas de ingredientes. Quero saber se o peptídeo funciona realmente e se a vitamina C é estável o suficiente para sobreviver ao pequeno-almoço. Mas também acho curioso que pareça que precisamos de tudo isto antes de nos permitirmos dizer algo muito mais simples: eu gosto. Eu quero. Faz-me sentir bem.

Afinal, a beleza é um assunto sério. É uma das maiores e mais lucrativas indústrias, e já estive em quase todos os lados da mesa. Já estava stressado às três da manhã porque ainda não tinha enviado um artigo sobre as melhores máscaras de pestanas. Já corri por uma cidade durante a semana da moda convencido de que o mundo estava a acabar porque os produtos necessários para os bastidores não tinham chegado. Aí, a ilusão dissipa-se por um segundo e imagino como devo parecer para alguém de fora: um homem adulto genuinamente aflito por causa de máscara, batom ou uma caixa de laca que desapareceu. Ridículo. Completamente. E, no entanto, dentro desse mundo, a situação é real. Existem empregos, meios de subsistência e indústrias inteiras construídas em torno destes pequenos objetos supostamente fúteis.

Gostamos de melhorias, novidades, beleza, estatuto, identidade e ocasionalmente, de coisas simplesmente porque as desejamos. Então, porque é que, quando se trata de beleza, estamos tão frequentemente determinados a provar que desejar não chega?

O conhecimento, infelizmente, é também uma maldição. Sei o que acontece quando durmo maquilhado, o que significa não usar protetor solar, o que a esfoliação excessiva causa, quais os ingredientes que combinam bem e quais os que provavelmente iniciarão uma pequena guerra na minha pele. Há dias em que preferia saber me- nos. Por vezes, quero ir para a cama sem remover a maquilhagem. Por vezes, quero não usar protetor solar porque já estou atrasado para o trabalho. Por vezes, quero não fazer absolutamente nada. Mas, uma vez que se tem o conhecimento, torna-se muito difícil fingir que não se sabe.

Talvez seja por isso que a indústria da beleza se tornou tão boa a transformar o prazer em obrigação. Utilizamos produtos porque prometem resultados, e esses resultados estão alinhados com o que aprendemos a reconhecer como saudável, ideal ou simplesmente "melhor". Tomamos vitaminas porque precisamos delas. Cuidamos da pele porque sabemos que é o mais correto a fazer. Aplicamos maquilhagem onde melhor se adapta às nossas proporções, ao formato do nosso rosto, ao resultado desejado. Tornámo-nos muito bons a fazer o que é certo. Mas e quanto a fazer o que queremos?

A aplicação do blush, por exemplo, vem agora com o seu próprio pequeno set de regras. Mais acima para um efeito lifting. Nas maçãs do rosto para algo mais cheio e suave. Sobre o nariz para um acabamento bronzeado. Conselhos perfeitamente úteis, se for esse o resultado pretendido. Mas porque é que o ponto de partida precisa de ser sempre o resultado? Porque não aplicar blush onde quisermos? Ou em lado nenhum? Já assisti a apresentações a explicar, com total sinceridade, como um produto pode fazer um rosto parecer mais esculpido, preenchido, iluminado ou, de alguma forma, mais descansado. Acenei em acordo, com a cabeça. Anotei tudo. Este é o meu trabalho e adoro-o. Mas há algo de maravilhosamente perturbador em fingir que cada pincelada de pigmento precisa de um objetivo.

Tornámo-nos muito bons a fazer o que é certo. Mas e quanto a fazer o que queremos?

Talvez o problema seja que a frivolidade adquiriu má fama. Sentimo-nos muito mais confortáveis com uma compra ou ritual quando podemos associar-lhe um benefício: confiança, saúde, longevidade, produtividade, autocuidado. Desejar algo simplesmente porque é bonito, divertido ou desnecessário pode parecer quase intelectualmente preguiçoso. Um sérum pode ser defendido pelos seus ingredientes. Um tratamento pode apontar para um estudo. Uma fragrância pode falar de memória, identidade ou humor. Mas um batom escolhido porque a cor nos faz felizes? Uma sombra com glitter sem uma aplicação lógica? Um perfume comprado porque o frasco parecia tão ridículo que tinha exatamente o formato certo? Estas escolhas são mais difíceis de racionalizar. Talvez devessem ser.

Há algo de profundamente humano em recusar ser totalmente prático. Enfeitamos corpos que funcionam perfeitamente bem sem ornamentos. Perfumamos a pele que não necessita de perfume. Pintamos bocas, bochechas e pálpebras não porque o corpo nos tenha falhado, mas porque, por vezes, deixar as coisas exatamente como são parece menos atraente do que brincar com elas. Conheço todos os argumentos. Sei que ativos valem o investimento, que promessas são puro marketing, que fórmulas são elegantes e quais são simplesmente caras. Mas alguns dos produtos de beleza que mais adorei seriam impossíveis de defender numa folha de cálculo, porque, quando penso no que a beleza realmente significa na minha vida, a eficácia parece uma medida estranhamente inadequada.

Já me sentei de manhã cedo, olhando para o dia que se avizinhava e sentindo, sinceramente, que em circunstância alguma o conseguiria suportar. Nenhum sérum resolveria isso. Nenhum aumento mensurável da hidratação era particularmente relevante. Ainda assim, peguei num simples eyeliner preto, esfumei-o suavemente na linha de água e observei no espelho algo familiar a regressar. Não tudo. Apenas o suficiente de mim para me vestir e sair de casa. A dupla musical Aly & AJ expressou-o melhor: "Cavaleiros em armadura escondem-se sob o eyeliner". Houve dias em que esta frase pareceu menos uma letra de música e mais um diagnóstico. Uma fina linha preta estava a fazer muito mais trabalho do que qualquer pessoa que olhasse para mim poderia imaginar. De repente, a distinção entre o fútil e o necessário torna-se mais difícil de traçar.

A beleza pode comunicar identidade, preservar rituais e oferecer momentos genuínos de prazer. Pode ser uma armadura. Pode ser diversão. Por vezes, pode simplesmente tornar uma manhã terrível um pouco mais suportável.

Lembramo-nos das pessoas pelo perfume que usavam. Períodos das nossas vidas ficam atrelados a um batom que usamos até não restar nada para rodar. Um frasco na prateleira da casa de banho pode, de repente, pertencer a uma casa onde já não vivemos, a uma pessoa que já não vemos, a uma versão de nós próprios que mal reconhecemos. Pintamos a cara antes dos primeiros encontros, casamentos, entrevistas de emprego e terças-feiras comuns quando, por razões que não conseguimos explicar completamente, precisamos de nos sentir um pouco mais nós próprios antes de sair de casa. Nada disto é necessário. É precisamente isso que faz com que a palavra "necessário" pareça, subitamente, desadequada.

A beleza pode comunicar identidade, preservar rituais e oferecer momentos genuínos de prazer. Pode ser uma armadura. Pode ser diversão. Por vezes, pode simplesmente tornar uma manhã terrível um pouco mais suportável. Mas, algures entre as afirmações clínicas, a cultura da otimização e a busca incessante por uma versão melhor de nós próprios, talvez nos tenhamos esquecido de que nem tudo o que amamos precisa de nos melhorar. Algumas coisas têm permissão para existir simplesmente porque tornam a vida um pouco mais bela. Há algo de absurdamente terno nisso. Pegamos em pigmentos, ceras, álcool perfumado e cremes em potes pesados e pedimos-lhes que transportem memória, confiança, desejo, tristeza, reinvenção, vaidade, prazer. São objetos. Não deveriam ser capazes de conter nada disto. E, no entanto, de alguma forma, conseguem.

Talvez seja por isso que consigo olhar para três batons vermelhos quase idênticos através da resolução questionável de uma chamada Zoom e saber que não são iguais. Talvez passar anos a aprender a notar estas diferenças nunca tenha sido uma competência tão inútil como eu pensava. Nem tudo o que amamos precisa de nos melhorar. Nem tudo o que é belo necessita de defesa. Por vezes, desejar já basta. A beleza é ridícula. Felizmente.

Originalmente publicado no The Humor Issue, na edição de outubro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

Esteban G. Villanueva By Esteban G. Villanueva

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