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Céu estrelado

Opinião 7. 11. 2018

1+1=1

 

Mas este 1, senhores, este 1 vale por todos os zeros à direita. Estas são as cartas de amor da equipa da Vogue aos seus irmãos. 

De: Irina Chitas.
Para: Catarina Morais.

Querida Caty - desculpa, estou a expor o teu nome familiar para toda a Internet ver, mas podes agradecer-me porque não sou cabra o suficiente para partilhar o nosso segundo nome em comum. Olá. Estava aqui a pensar se já te tinha, nestes 18 anos de vida partilhada, escrito alguma carta e acho que sim, porque sou pirosa e lamechas e o meu fantasma dos Natais passados diz-me que é óbvio que escrevi, porque para além de pirosa e lamechas sou pobre e uma carta é sempre uma prenda bonita e low cost. Uma vez falei-te de uma música da Mallu Magalhães, escrita para uma irmã. A irmã chama-se Ana, e não te peço para trocares "Ana" por "Catarina" na letra, porque metricamente ficaria uma bosta, mas pensa que hoje te chamas Ana e que eu escrevo poemas, porque se te chamasses Ana e eu escrevesse poemas e ainda por cima poemas em sotaque de Chico Buarque, também seria qualquer coisa como: "Se desse eu dava Ana/ Aquele brinco pra você./ Se eu pudesse comprava Ana/ Todas as roupas pra você provar./ Eu dava tudo ah,/ O meu violão eu largava,/ Eu dava tudo/ Pra visitar teu coração". A música começa assim numa bossa nova, e é mesmo engraçado porque tu para mim és uma bossa nova, és a mana nova que dá assim no peito o mesmo efeito quente que o chá de maçã-canela, aquele abraço de dentro que não afaga a pele mas os órgãos todos ao mesmo tempo e ainda por cima cheira bem. Sabes, se tivesse de escolher entre ti e o Natal, escolhia-te ti - tu sabes o quanto eu gosto do Natal. Se tivesse de escolher entre ti e o Harry Potter, escolhia-te a ti - tu sabes o quanto eu gosto do Harry Potter. Se tivesse de escolher entre ti e The XX, escolhia-te a ti - tu sabes o quanto eu gosto de The XX. Se tivesse de escolher entre ti e qualquer outra pessoa do mundo inteiro, escolhia-te a ti - tu sabes que, lá muito no fundo, bem no fundo, escondido escondidinho, eu gosto de pessoas. Não digo isto por estares quase a tirar a carta, embora o teu carro me vá dar jeito quando eu matar alguém e precisar de esconder o corpo. Digo isto porque és a pessoa que me vai ajudar a esconder o corpo. Sei que és Slytherin e eu sou Gryffindor, mas também sabes que, se a vida tivesse dado outras voltas, o Sirius e o Regulus teriam sido melhores amigos. Que sorte que temos, Ana, ai, Caty, das voltas que a vida deu por nós, porque não precisámos que o mundo estivesse a acabar para nos entendermos. Entendo tudo em ti, desde a cor de cabelo a cada traço do teu lápis. Ai, e que orgulho Ana, perdão, Caty, que orgulho que tenho de cada fio do teu cabelo e de cada traço do teu lápis. Sabes que tenho o teu desenho atrás de mim na redação? Assim, quando as pessoas olham para mim, veem-te a ti primeiro e acham que eu sou mesmo fixe. E sou, porque te tenho. Tenho a minha eternidade aqui tão perto. Nunca tenho medo de ir para o inferno porque sei que vais lá ter comigo, e se estiver contigo, vai estar tudo bem. Ao teu lado está sempre tudo bem, mesmo quando está tudo na merda, não é maravilhoso? Gosto tanto de estar calada contigo quanto gosto de estar a falar contigo, sabes o quanto isto é raro? Queria levar-te comigo para todo o lado porque preciso de alguém que seja mais forte e mais bondoso e mais maravilhoso que eu, mas eu sei que te ias fartar de mim então deixemos isto assim, tu sabendo o quanto eu gosto de ti, eu sabendo que estás aí a ler isto. É giro que não tenho aquela cena de achar que vais ser sempre pequenina, porque eu sempre soube que tu ias ser a mais sã de nós todos, a que cuidaria de nós todos, a que nos abraçaria a todos como o chá de maçã-canela, com tudo o que isso tem de bom e de mau para ti. Dá-me o mau que isto tem para ti, dá-me o mau que o mundo tem para ti, eu não me importo. A sério, é na boa. Eu consigo com o mau. Desde que me dês a mão. Olha, manda-me uma mensagem um dia destes. Vamos jantar. A um sítio barato ou assim.

De: Patrícia Domingues.
Para: Manas Cabritas Cabeçudas (Andreia e Matilde).

Já tive desgostos de amor, dias que correram ao contrário, urgências médicas e dores de dentes, multas da EMEL e penhoras na Segurança Social. Já tive manhãs em que me deixei arrastar pela cama, já tive roupa nova e bolos com cobertura de açúcar, já li livros que me deixaram cheia, já dei passeios que me deixaram vazia, já tive orgasmos, já tive aplausos e já tive amigos e amores que me duraram a vida inteira. Já tive tudo, já tive nada, mas nisto do “ter”, do possuir, do agarrar, do receber, não há nada a ganhar ou a perder se não vos tiver a vocês. Porque quando nasci não nasci sozinha, quando vivi não vivi sozinha, quando inventei coreografias, mundos à parte, nomes próprios e bolas de Berlim feitas de areia, não o fiz sozinha, conceber a ideia de não vos ter é responder aquela pergunta estúpida de “qual seria a pior maneira de morrer”. Vocês são a minha maior fortuna, a minha mais recheada herança, a certeza de que mesmo nos dias maus há sempre algo de bom. De inteiro. De verdadeiro. De amor. Porque enquanto eu souber que respiram, venham os desgostos de amor, os dias ao contrário, as quatro horas de fila nas urgências, a segurança social, a EMEL, venha o troll debaixo da ponte que, enquanto eu souber que respiram, terei tudo - respirarei.

De: Larissa Marinho.
Para: Bianca e Natália.

Queridas amigas vocês são aquelas que entendem quem eu sou, quando às vezes nem eu sei, que me fazem rir sempre, não importa o tamanho do apocalipse, e o mais importante não interessa a distância nem o tempo nada muda nossa relação, pois você são mais que minhas amigas são minhas irmãs, minha família. (Foto: Bianca, eu e Natália).

De: Catarina Parkinson.
Para: Paulo

O meu irmão não é o meu melhor amigo mas é como se fosse. É estranho, eu sei, mas eu vou explicar. Quando eramos crianças discutíamos muito. Não sei bem porquê, mas discutíamos. Também brincávamos muito – filmávamos muitos vídeos com a câmara de filmar do meu pai, a fingir que estávamos no Chuva de Estrelas ou num concurso de televisão com os cartões de pergunta/resposta do Trivial Pursuit. Sempre fomos irmãos, mas foi quando cheguei à adolescência que nos tornamos amigos a sério. Quando tive uma das minhas primeiras crises existenciais (não será a última) e fiquei verdadeiramente aflita, dei por mim a procurar o meu irmão. Foi a primeira pessoa a quem consegui contar que não queria seguir Direito. Foi o meu irmão que em 2008 me mostrou Bon Iver, quando ele tinha acabado de lançar o seu primeiro álbum; que me falou da série Friday Night Lights; que me fez apaixonar por bossa nova; que apoiou o meu vício pelas Gilmore Girls oferecendo-me os DVDs; que me obrigou a ver o Orgulho e Preconceito, agora um dos meus filmes preferidos. O ano passado, quando completei 30 anos, um dos presentes que me ofereceu foi um vídeo com todas (quase todas) as minhas cenas preferidas dos meus filmes favoritos. Amei. Parecem gestos simples e pequenas coisas do quotidiano, mas é esta partilha que alimenta o nosso amor. Tudo isto faz hoje parte de quem eu sou e ele é um reflexo disso – de mim. É um porto seguro que me ampara como ninguém. Quando olho para ele, principalmente quando penso nele, sei que nada pode ser tão mau, trágico ou avassalador como estou a sentir naquele momento desde que ele esteja ao meu lado. Que aconteça o que acontecer, nada é mais importante que ele (e o meu núcleo familiar). Porque tudo passa menos este amor constante. É o único amor definitivo que conheço.

De: Sara Marques.
Para: Lia Marques.

Acho que como todas as crianças filhas únicas, sempre pedi um irmão ou irmã aos meus pais, mas à medida que os anos foram passando também o meu pedido foi desaparecendo. Até que, às dez para a meia noite num dia de verão do ano de 2009, passo a ter mais um nome. O de “mana”, ou melhor de “mãmana”.

Com 16 anos de diferença da minha primeira e única irmã posso dizer que tenho o melhor dos dois mundos. Tenho o lado maternal de querer saber onde anda, o que faz e querer comprar tudo o que ela quer (era bom que assim fosse). E tenho lado de confidente - sim, porque crianças de 9 anos já fizeram muitos disparates que só se pode contar à irmã se não é castigo na certa -, o das brincadeiras e o de ser muito, muito chata porque mesmo que nos chateemos no final do dia continuamos a ser irmãs.

A Lia é o contrário de mim, muito faladora, aluna de “Muito Bom” a tudo e super carinhosa, com ela já aprendi muita coisa, principalmente a sentir um carinho que nunca na minha vida senti por alguém. Acho que é isso que é o amor que se sente pelos irmãos, sejam de sangue ou não, é aquele amor incondicional que literalmente te levaria a dar a vida por eles.
Mimicas, muito obrigada por seres a minha pequena irmãzinha de quem eu me posso orgulhar muito e por seres a pessoa que me “obriga” cantar o Let it go como se não houvesse amanhã.

 

De: Sara Andrade Para: Paulo F. Andrade

O meu irmão não é de grandes conversas. É das informáticas e da tecnologia. É nerd - daqueles do mais cool que há. Nunca fomos de falar de namoradas e namorados, paixões assolapadas ou sequer de amigos paralelos, mas nunca duvidámos que estaríamos lá um para o outro se a situação assim o exigisse. Brigávamos porque eu usava o computador no quarto dele, mas nunca deixei de fazer lanche para os dois quando chegava a casa das aulas e saía atrasada para o inglês. Andávamos à bulha porque eu gostava de azucriná-lo, mas nunca se recusou a ajudar-me no que quer que fosse. Não éramos confidentes, mas sempre tivemos uma ligação subliminar - de que outra forma poderíamos ter feito as encenações musicais de Hakuna Matata e A Whole New World, quando éramos pequeninos, para os meus pais, se não houvesse essa cumplicidade? E nunca nos tratámos por irmã e irmão. Sempre foi "onde está o mano?" ou "a mana não vem?". Talvez porque "irmãos" pressupõe ADN comum. E "manos" pressupõe indivíduos inseparáveis.

De: Catarina Rodrigues.
Para: Margarida.

Dividir o quarto e as atenções, com uma irmã que é claramente mais arrumada, mais bonita, mais organizada, mais mau-feitio e elegante que eu, foi sempre um desafio. E nunca agradeci aos meus pais por me terem dado caracóis mais bonitos de pentear.

Também nunca lhe disse que me orgulho dela... Ela é sempre mais, é o lado que vai mais longe em tudo, ela arrisca mais e sabe disso. E é nisso que ela me enche de orgulho (e medo).

Tratamo-nos com frieza e nunca com muitas manifestações de afecto, porque sabemos que não nos magoamos uma à outra. Agora que penso nisso, será que é porque sabemos que somos o escudo uma da outra? Talvez...
Amo-a sem lhe dizer. Para sempre. 

 

De: João Oliveira.
Para: Raquel.

História de uma princesa*

Num reino distante, às portas de Sintra, uma linda princesinha vinda de uma terra muito distante, Lamego, é a nova moradora de um pequeno castelo no alto do Cacém. Essa princesinha, a que chamaram Raquel, passou a ser a nova cúmplice de um principezinho, de seu nome João, que já fazia as delicias do rei Joaquim e da rainha Teresa. Os dois rapidamente formaram uma equipa imbatível em peripécias e traquinices que deixavam a rainha Teresa de cabelos em pé, ao passo que o rei Joaquim se deliciava com as situações, sendo ele o próprio instigador das brincadeiras em muitas ocasiões! Brincavam aos castelos feitos de cobertores presos por molas às mesas e cadeiras do salão de jantar e andavam de bicicleta e triciclo através dos enormes e lindos jardins do castelo. Esgotados de tanto brincar e ao som da melodia Vitinho tocado pela banda real, eles adormeciam nas suas camas. 

A princesa Raquel foi crescendo e com ela o sentimento de adoração ao seu irmão, ao ponto que tudo o que ele gostava e queria, ela também! Quando o seu espaço começou a ser preenchido por gente pequena de fora do castelo, passou a aproveitar o sono profundo do seu irmão para o beijar e contemplar. Os tempos outrora de cumplicidade foram diminuindo e os desafios de se tornarem adultos levaram-nos a procurar experiências em separado. Subitamente e numa batalha, o rei Joaquim partiu e os irmãos voltaram a recorrer aos braços um do outro, para encontrarem as forças para juntamente com rainha Teresa continuarem o reinado que lhes foi destinado.


Adoro-te, maninha, e muito obrigado por estares sempre ao meu lado.


*Baseada em factos reais.

De: Pedro Barbosa.
Para: Carla.

Carla…

Tu és a alma da serenidade;

A metáfora do real,

Tu és o desejo da bondade;

 A ideologia do ideológico ideal.

De: Sara Andrade.
Para: Tânia Santos.

Só falhamos como irmãs no apelido. De resto, sempre fomos - e somos - inseparáveis. Mesmo quando estamos separadas pela distância ou pelo tempo. É por ela que se inventaram termos como best friends forever, o espaço de contacto de emergência naquelas folhas de hospital ou o speed dial #1. Já lá vão 30 anos de melhores amigas (era assim que se dizia antes do hashtag #bff) e, pelo meio, partilhámos carteiras de escola e o caminho para as aulas, chorámos juntas (mas rimos ainda mais), apadrinhei o trio de crianças que vi nascer e que não me vou cansar de ver crescer, e ainda somos a primeira pessoa a quem ligamos nos momentos cruciais - como, por exemplo, aprender a andar de bicicleta (ela ligou-me a mim, eu ainda preciso de lhe ligar a ela). Aquela expressão sister from another mister? Foi inventada para a nossa dupla. 

De: Ana Caracol.
Para: Nélson.

Antoine de Saint- Exupéry diz n’ O Principezinho que “… Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez a tua rosa tão importante”. É verdade mano Caracol, somos loucos, cúmplices, amigos, eternos e mais importante que tudo isto, cuidamos sempre um do outro. Dá cá mais cinco. 

De: Paula Bento.
Para: Pedro.

Trata-me por mana!
Há uma diferença de 9 anos entre nós.
Mudei-lhe, muitas vezes as fraldas e adormeci-o, outras quantas vezes.
É o "puto" da minha vida.
Adoro-te, Pe! <3

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