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Editorial 29. 1. 2018

Fevereiro 2018

by Sofia Lucas

 

“Tudo é criação, tudo é mudança, tudo é fluxo, tudo é metamorfose.” - Henry Miller.

Lembro-me da minha primeira consciência de mortalidade, e de linha de vida, enquanto espaço temporal. Tinha 8 anos e ouvia o meu pai contar uma história com graça, que lhe tinha acontecido uma década antes. Mais do que a história em si, marcou-me o facto de as pessoas poderem segmentar a sua vida em blocos. Uma década?! Uma década antes eu nem sequer ainda existia, a minha própria vida não tinha durado uma década. Da minha noção simplista do tempo, vivido tão a cada dia, como é normal durante a infância, passei a ter consciência de que com a sequência de vários blocos de 10 anos, o meu pai e, eventualmente, eu deixaríamos de existir. A esta “fatalidade matemática” reagi prometendo a mim mesma que nunca cresceria, a acreditar piamente que o iria conseguir, como uma rebeldia que ludibriasse a passagem do tempo. Hoje, passadas quase quatro décadas sobre esta promessa, sei que de alguma forma a consegui manter. Apesar dos desvios que a vida se encarrega de nos pôr no caminho, ou daqueles que nós próprios acrescentamos, há uma essência viva que é a magia de acreditar, mesmo no que pode parecer impossível.

Nesta edição quisemos homenagear uma história de vida, feita com a experiência de muitas vidas, todas numa, seja qual for a magia de cada mulher. Uma história feminina que fala de idade, mas que não tem idade, e que em si deve ser o fio condutor de uma linha cronológica que desenha um ciclo de vida. Só mesmo uma equipa mágica como a que vive a Vogue conseguiria dar num todo o storytelling cronológico da vida de uma mulher, desde a primeira à última página, contado e ilustrado através da história da própria Moda e de tendências comportamentais na atitude, nas relações e no estilo.

A imagem da capa, que elegemos como especial de colecionador, significa para mim as mais de mil palavras que descrevem o momento épico de mudança na vida de uma mulher. Independentemente da idade, esta mulher é a da transição, o símbolo da mudança. Pode ser a mulher só, numa estação, que segura a mala de viagem pronta para partir, ou a mulher que segura o bidon de gasolina, pronta para partir depois de incendiar um passado que se afasta, numa mudança que é preciso abraçar e que faz parte da impermanência que temos como certa na vida.

A cada novo dia acordamos mais velhos e mudados. De alguma forma, a pessoa que éramos ontem já não existe. No fundo convivemos com algum tipo de morte e renascimento todos os dias. Mas como Montaigne questionava, já há quase 500 anos, lamentar que não possamos estar vivos daqui a 100 anos é tão inútil e despropositado como lamentar não termos estado vivos 100 anos antes, correndo o risco de não viver o presente. A bela filosofia japonesa wabi-sabi convida-nos a encontrar sentido e conforto na impermanência e, no entanto, tanto do nosso sofrimento decorre da nossa profunda resistência à lei dominante do universo – a mortalidade e a constante mudança. A única forma de aceitar a órbita que temos, cada um ao lon- go do ciclo da vida, é habitá-la com todo o coração e energia e celebrar a experiência, feita das experiências, vividas a cada dia, a cada década e em cada idade. Sem nunca deixar de acreditar na magia. 

Cniluxury - MRec