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Tendências 10. 8. 2018

You drive me crazy

by Patrícia Domingues

 

E quando dizemos "you" estamos na maioria das vezes a referirmo-nos a nós próprias. Falámos com dois especialistas para trocar o meme por assuntos sérios.

 O grande meltdown de Britney foi em 2007, ao rapar a cabeça e agredir os paparazzi, mas se olharmos para trás os sinais estavam todos lá (conduzir com o filho ao colo, o casamento de 55 horas em Las Vegas...). A que sinais devemos estar atentos, tanto em nós próprios como naqueles que nos são próximos?

Luís Gonçalves, psicólogo clínico e psicoterapeuta, Psinove: “Faz parte do funcionamento psicológico saudável termos momentos mais difíceis e instáveis. E, muitas vezes, precisamos de passar por eles para chegarmos a momentos mais tranquilos e satisfatórios. Mais do que tentarmos evitar e resolver os sinais a todo o custo, devemos procurar a sua causa e investigar o que nos estão eles a dizer sobre o nosso dia-a-dia. Quando preenchemos as nossas necessidades psicológicas, as nossas emoções demonstram-nos isso mesmo e o “sinal” termina a sua função.” 

Vítor Bertocchini, psicólogo, Sociedade Portuguesa de Meditação e Bem-Estar: “Todos nós reagimos ao stress de forma diferente e cada corpo envia o seu conjunto de alertas vermelhos. Algumas pessoas podem até não sentir os sinais físicos ou emocionais de alerta até meses após os episódios geradores de stress. Mas se sintonizar com o seu corpo poderá sentir alguns dos sinais que a American Psychological Association menciona como mais relevantes: dores de cabeça, tensão muscular, pescoço ou dor nas costas; perturbações da digestão; dores no peito, taquicardia; dificuldade em adormecer e/ou permanecer a dormir; fadiga; aumento da frequência das constipações e gripes; falta de concentração ou de foco; problemas de memória ou de esquecimento; ansiedade, nervosismo e irritabilidade. Aprender a ouvir este fluxo subtil de sussurros internos dá-nos acesso a ambos os sinais de alerta e aos insights intuitivos que, devidamente monitorados e levados ao coração, podem conduzir-nos a obter uma vida mais plena, bem como avisar-nos dos sinais de alerta precoce de acumulação de stress ou de doença.”

No meio do seu meltdown, Britney fez uma atuação na MTV que foi altamente criticada. Isto pode ser um exemplo de que quando estamos a passar por uma fase ‘pior’ devemos dar-nos tempo para recuperar e não tentarmos apressar as coisas?

Luís Gonçalves: “Britney Spears terá acelerado o seu regresso após uma etapa de grande dificuldade. E, quando o fazemos cedo demais, podemos voltar a sentir dificuldades emocionais. Se pensarmos bem, não gostamos de sofrer e procuramos estar bem o quanto antes. Em muitos momentos, negando ou evitando o contacto com a origem dos nossos problemas. Achamos que “já estamos bem” e convencemo-nos disso. Não nos podemos esquecer que muita do nosso sofrimento psicológico levou bastante tempo a ganhar forma e corpo. Tantas vezes, dezenas de anos. Logo, devemos dar a nós mesmos o tempo que merecemos e nutrir-nos do que precisamos e nos faltou durante demasiado tempo.”

Vítor Bertocchini: “Quando a vida se torna desconfortável a aceitação é uma virtude que facilitará o lidar com a insatisfação de uma forma adaptativa (positiva). Deixar as coisas desenrolarem-se ao seu próprio ritmo. Se tem um problema, aceitar que tem esse problema. Muitas vezes perdemos tempo e energia a negar o que é um facto. Procuramos forçar as situações de modo a que elas sejam como nós gostaríamos. Isso cria mais tensão e impede a mudança positiva.
A aceitação não é passiva; isso significa que não tem que gostar de tudo e abandonar os seus princípios e valores. Não tem de ser resignada e tolerar tudo. A aceitação é a abertura para ver as coisas como elas são. Somos muito mais propensos a saber o que fazer e a ter uma convicção interior de agir quando temos uma visão clara do que está realmente a acontecer.”

 

 “Acho que tenho de me dar mais intervalos durante a minha carreira e assumir a responsabilidade pela minha saúde mental”, disse Britney, após estar recuperada. Quais as formas de garantirmos que mantemos um bem estar mental?

Luís Gonçalves: “Esta afirmação de Britney Spears toca num ponto chave: a responsabilidade. E não me refiro a culpa, que tantas vezes sentimos quando não nos sentimos bem.  A culpa em excesso pode até impedir o processo de melhoria porque nos paralisa e nos centra no problema, não na solução. Podemos culparmo-nos demasiado a nós mesmos ou aos outros e à vida. E quando isso acontece, não estamos a assumir a tal responsabilidade. Para nosso bem e das pessoas próximas, podemos e devemos cuidar de nós. Termos momentos em que paramos para sentir, para nos focarmos no que precisamos e no que faremos para dar resposta a essas necessidades. Refiro-me a um certo “egoísmo saudável” que todos precisamos e, dessa forma, sermos melhores para nós mesmos e, como consequência, para amigos, colegas, familiares, conhecidos e desconhecidos.” 

“Tentava agradar a toda a gente à minha volta porque é assim que sou por dentro. Houve momentos em que olhei para trás e pensei: “O que raio estava a fazer?”” – dizer que ‘sim’ quando queremos dizer ‘não’ pode levar-nos a um ponto de ruptura? Como aprendemos a dizer não?

Vítor Bertocchini: “Muitas pessoas simplesmente não gostam da ideia de ter que dizer não. Por vezes sentem-se obrigadas quando um(a) amigo(a) lhes pede um favor; ou sentem-se pressionadas quando um colega do trabalho solicita de algo. Existem até alguns locais de trabalho em que dizer não é definitivamente desaprovado. Dito ‘corretamente’, o Não pode ajudá-la a construir melhores relacionamentos e a libertá-la para fazer as coisas que são realmente importantes para si. Aqui ficam algumas sugestões para começar a construir a sua capacidade de dizer essa palavra difícil:

Reconhecer que não pode fazer tudo. Tentar dizer sim a tudo provavelmente vai deixá-la sem tempo ou energia para si mesma - e incapaz de dar o seu melhor para qualquer um dos seus compromissos.

Identifique suas prioridades. Para tomar boas decisões sobre o que dizer não, você precisa ter uma ideia clara das suas próprias prioridades. Se não as tem definidas, sente-se e passe algum tempo reflectindo no que é mais importante para si. Aprender a priorizar efetivamente pode ajudá-la a tornar-se mais eficiente, economizar tempo e a reduzir o stress. Depois de saber o que é mais importante, é mais fácil decidir onde deve concentrar a sua energia.

Seja directa, não vacile, nem recue. Dê uma breve explicação se quiser, enquanto continua sendo amigável e respeitando o(s) interlocutor(es). Por exemplo, "Sinto muito, mas isso não é algo que eu possa assumir agora".

Não comprometer a sua integridade. A sua integridade define os seus padrões e fornece um código de moralidade e ética. Use-o para guiá-la a dizer Não."

No documentário realizado pela MTV, Britney refere a dança e a arte como a sua forma de terapia. De que forma estas atividades (ou outras) podem contribuir para uma mente saudável?

Luís Gonçalves: “Devemos ter em atenção que a nossa vida deve equilibrar bem o prazer e lazer com a responsabilidade. Temos direito a fazê-lo. Trabalhar é importante por várias razões mas não deverá dominar, por completo, a nossa vida. Viajar, passear, conhecer sítios novos, aprender e explorar, meditar, alimentar o humor, usufruirmos das pessoas de que gostamos e sem pressas, ter uma alimentação saudável, ter boas rotinas de sono e descanso, evitar o contacto permanente com o telemóvel e outras tecnologias ou fazer psicoterapia, são formas fantásticas de criar e manter uma mente saudável.” 

Vítor Bertocchini: “A conexão entre a arte e seus efeitos sobre o bem-estar tem sido sustentada nos mundos médico e artístico há muito tempo. São certamente formas de reduzir o stress e a ansiedade.  Formas de ‘medicina preventiva’ que possibilitam que as nossas mentes se refresquem e relaxem. Participar em atividades artísticas pode produzir experiências de ‘flow’ meditativo, sendo estas benéficas para a saúde mental e física. Nós experimentamos ‘flow’ quando estamos envolvidos em atividades que são desafiadoras, mas para o qual temos as habilidades para enfrentar o desafio. As experiências de ‘flow’ envolvem a totalidade do nosso ‘Eu’. É como uma suspensão na perceção da passagem do tempo, uma cessação do pensamento ruminativo (uma quietude da mente), uma concentração da mente e do corpo. A investigação científica indica que o ‘flow’ leva ao aumento da sensação de sermos mais úteis, mais válidos e a uma superior auto-estima. Tudo isso é bom para a nossa sensação de bem-estar.”

“Seguir os instintos” revelou-se ser a ‘solução’ para Britney Spears. Os nossos instintos dizem-nos o que é melhor para nós?

Luís Gonçalves: “Se olharmos para a palavra instinto, vemos que resulta do latim instinctus e que significa “instigação, impulso”. Olhando para os nossos instintos desse prisma, parece-me que devemos dar-lhes a importância devida. Saber ouvi-los e senti-los. Não me refiro aquela impulsividade que temos quando, por exemplo, andamos demasiado ansiosos e que nos faz “ter o pavio curto”. Ou quando nos andamos a controlar demasiado tempo, “implodindo” tanto que acabámos por “explodir”. Falo sim de darmos tempo e espaço a nós mesmos para nos encontrarmos a nós próprios. Será que a vida que temos é a que precisamos e gostamos de ter? Será que nos sentimos realizados com ela? Se não nos sentíssemos inseguros em relação a algo ou alguém, o que faríamos de diferente? Se não levássemos tanto em consideração as opiniões dos outros sobre a nossa vida, o que mudaríamos? Será que estamos a adiar algo que nos daria uma felicidade enorme? Estas e outras perguntas podem ajudar a que sintamos os nossos instintos. Aquilo que de mais profundo podemos sentir. Ouvirmos a razão é muito importante mas a emoção, sem dúvida, que também.”

Vítor Bertocchini: “Prosperamos numa cultura que acredita que a racionalidade e as regras lógicas cientificamente comprovadas devem prevalecer sobre a reação instintiva, sobre o processamento emocional. No entanto, embora a intuição seja vista como imprecisa, o pensamento analítico também pode ser incorreto. Estudos demonstraram que o excesso de pensamento pode prejudicar seriamente o processo de tomada de decisão. Noutros casos, o pensamento analítico pode consistir simplesmente em justificativas, a posteriori, ou racionalizações de decisões baseadas no pensamento intuitivo. Isso ocorre, por exemplo, quando temos que explicar as nossas decisões em dilemas morais. Devemos confiar apenas na nossa intuição, uma vez que pode ajudar a nossa tomada de decisão? Não é assim tão simples. Como a intuição se baseia num processamento evolucionário mais antigo, automático e rápido, ela também é vítima de desvios, como vieses cognitivos. Estes são erros sistemáticos no pensamento, que podem ocorrer automaticamente. Considere, por exemplo, uma mesa cheia de doces que adora. Embora possa sentir-se atraída em comê-los todos, é pouco provável que precise dessa enorme quantidade de açúcar e de gorduras. No entanto, no tempo dos caçadores-coletores, o armazenamento de energia teria sido um instinto sábio. Então, aprenda a reconhecer a sua ‘voz interior’ e a interpretar a sua intuição, pois confiar nos ‘seus instintos’ poderá ser útil.”

 

 

 

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