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Tendências 3. 10. 2019

Uma t-shirt branca nunca é só mais uma t-shirt branca

by Patrícia Torres

 

A mais democrática peça de roupa do mundo é simultaneamente um dos mais incríveis básicos, e ícone da cultura da Moda mundial. A ultra sexy e imaculada t-shirt branca é um essencial no guarda roupa de qualquer homem ou mulher no planeta. Mas no momento em que a Terra corre perigo de vida, será que a vamos salvar com uma t-shirt que custa ao ambiente 2.700 litros de água?

© Getty Images.

Não tem género, raça nem extrato social. É intemporal, excelsa, mas sem cerimónias. A t-shirt branca é como um ponto de luz que nos guia em direção a um certo tipo de sofisticação e independência. Apenas reservado aos que, por sorte, possuem esse poder de domínio e sedução naturais, e a quem, à falta de uma palavra melhor, chamamos de carismáticos: James Dean, Marlon Brando, Marilyn Monroe, Paul Newman, Steve Mcqueen. Ou, para os mais contemporâneos, Matthew McConaughey, Johnny Depp, Kate Moss, Robert Pattinson, Madonna ou Emilia Clarke.

Estendida a passadeira vermelha é vê-los passar de t-shirt branca, confiantes, cheios de estilo e sedutoramente próximos. Basicamente iguais a nós quando saímos de manhã para a praia, ao fim da tarde para a inauguração de uma exposição no Moma, em Nova Iorque, ou à noite, no meio de uma festa privada onde não conhecemos ninguém. But who cares! De t-shirt branca podemos ser quem quisermos, sabendo à partida que seremos sempre alguém com “uma pinta descomunal”, como nos diz Pedro Palha, co-criador da ISTO (Independent.Superb.Transparent.Organic), uma marca nacional dedicada aos básicos que usam materiais orgânicos e sustentáveis. “Nós gostamos de roupa, de coisas simples, clássicas, que fiquem bem. A t-shirt branca foi a forma mais interessante de chegarmos a esse combinado. Haverá algo mais icónico e mais simples ao mesmo tempo?”

Os jornalistas da redação da Vogue Portugal respondem. Numa brevíssima sondagem sobre o impacto da t-shirt branca nos seus armários e nas suas vidas, as opiniões só colidem no grau de qualificação. “É um bem de primeira necessidade”, assume Ana Murcho. Para Joana Moreira, editora de beleza, a t-shirt branca é uma das suas peças preferidas: “fica bem com literalmente tudo”. Rui Matos confirma que este básico “é só o maior – e digamos – melhor staple de qualquer guarda-roupa, masculino ou feminino”. Mónica Bozinoski confessa: “temos uma relação de amor”. E Ana Saldanha diz-nos que a t-shirt branca “é a peça mais confiável de todas. Continuo sem perceber quando me perguntam se preciso mesmo de mais uma”. E se em vez de perguntarmos se precisamos mesmo de mais uma t-shirt branca para a coleção, perguntarmos se o planeta aguenta mais uma t-shirt branca às costas?

"A t-shirt branca nasceu há mais ou menos 100 anos, quando rebentou o conflito hispano-americano (1898-1913), tendo sido mais tarde adotada como parte do uniforme da marinha americana"

A t-shirt branca nasceu há mais ou menos 100 anos, quando rebentou o conflito hispano-americano (1898-1913), tendo sido mais tarde adotada como parte do uniforme da marinha americana. Nessa altura, o efeito sedutor da t-shirt assentava no facto de ser fácil de vestir e despir, fácil de lavar e muito barata. Tudo ao contrário da peça da qual derivou, o chamado “union suit”, um fato de flanela, de corpo inteiro, usado como roupa interior e muito popular entre a classe trabalhadora nos EUA, no início do século XIX. Talvez seja por isso natural que a invenção do nome “t-shirt” esteja atribuída ao escritor norte-americano. F. Scott Fitzgerald que, na obra “Este Lado do Paraíso” (1920), foi o primeiro a dar nome à peça que reconhecemos hoje como o básico mais ultra polido e pronto a usar ad-eternumde sempre. Ad eternum? Pedro Palha, da ISTO, diz-nos que “o fast fashion, ao longo dos anos, foi retirando peso ao algodão e com menos algodão as peças ficam mais frágeis mais depressa. Desgastam-se mais rapidamente e isso obriga as pessoas a comprarem mais t-shirts, mais rapidamente também.”

É sob a lei do consumismo fast and furious que descobrimos que à volta do mundo são compradas e vendidas anualmente cerca de dois milhões de t-shirts. O impacto de uma singela t-shirt branca no ambiente equivale a 10% das emissões mundiais de carbono. E isto tudo começa nas gigantes plantações de algodão que existem espalhadas pela América, China, Índia, Peru ou Turquia. São precisos cerca de 2.700 litros de água para produzir apenas uma t-shirt. Água suficiente para encher 30 banheiras iguais à que temos lá em casa. Mas se lhe juntarmos os químicos e pesticidas necessários à produção de uma única t-shirt, o melhor é deixar o banho para outro dia.

Pedro Palha e os sócios (Vasco Mendonça e Pedro Gaspar) precisaram de sete meses para desenvolver a sua primeira t-shirt branca 100% orgânica. “Tentámos encontrar fornecedores que usassem materiais sustentados e orgânicos. Para essa peça procurámos também a melhor gramagem de algodão possível. A nossa t-shirt branca tem 180 gramas. Porque é o peso, é a quantidade de algodão que cada peça tem que determina a sua qualidade. É preciso encontrar um equilíbrio até chegar a um ponto perfeito entre resistência e agilidade para que a t-shirt seja o mais confortável e resistente possível. É assim que combatemos os princípios do fast fashion que ao longo dos anos foi retirando qualidade ao produto para ficar mais barato.”

Barato para o bolso, criminoso para o ambiente, fatal para a humanidade. Reinaldo Moreira, fundador da SpringKode, marca cuja missão é dar novo uso aos tecidos excedentes das fábricas têxteis nacionais, reconhece que não há grande diferença sobre a quantidade de água necessária à produção de uma t-shirt, seja ela feita com algodão orgânico ou normal. “As quantidades de água são exorbitantes em ambos os casos e, portanto, o que nós temos de assegurar é que poupamos na utilização de químicos. A não utilização de químicos ao longo de toda a cadeia é excelente, não vou tirar o mérito a essas iniciativas. Mas realisticamente o que é preciso é abrandar o consumo e seria interessante ver as grandes marcas produzirem menos com mais qualidade e com coleções mais intemporais.”

"(...) À volta do mundo são compradas e vendidas anualmente cerca de dois milhões de t-shirts. O impacto de uma singela t-shirt branca no ambiente equivale a 10% das emissões mundiais de carbono."

Apesar do algodão orgânico representar menos de 1% dos 22.700.000 milhões de toneladas de algodão não orgânico produzido em todo o mundo, Pedro Palha garante querer fazer parte da solução e não do problema. “Sendo o mais honesto possível ainda não somos sustentáveis na parte do tingimento, nós temos consciência disso. Porque a indústria ainda não o permite. Por isso, a única forma que temos de nos defender é garantir que o algodão que usamos é o mais sustentável e provém de práticas sustentáveis. Trabalhamos com fornecedores que já têm os certificados orgânicos internacionais e continuamos à procura de materiais que vão ao encontro das nossas preocupações ambientais e de produção.”

Para produzir t-shirts não chega ter vontade, uma marca sonante e dinheiro para investir. Nenhuma t-shirt será suficientemente branca, ou incólume, sempre que se verificar uma total falta consciência social e moral durante este processo. Segundo dados do Eurostat (gabinete de estatística da União Europeia), apresentados em abril deste ano, um terço das roupas importadas pela UE o ano passado vieram da China. Estamos a falar do maior exportador de roupa do mundo e que, em 2018, só em t-shirts exportou 460 mil toneladas. A China é também o país cuja interpretação do que são direitos humanos está longe dos princípios humanistas por que se rege o espaço da União Europeia, mas que, face aos números que o mercado movimenta — 27 milhões de euros — prefere faturar a doutrinar ou embargar. Apesar da reforma laboral que o Governo chinês iniciou em 2015, em resposta às pressões de ONG’s, sindicatos e compradores internacionais, e que se traduziram numa maior proteção aos trabalhadores fabris e em aumento de salários — agora situado nos 3.40 euros à hora — a China, não tem qualquer constrangimento em procurar no mercado asiático mão de obra mais barata e, assim, seguir no topo da lista dos países exportadores. É nessa rota de países pobres, onde tudo pode acontecer, que encontramos o Bangladesh.

Este país, que emprega 4 milhões e meio de pessoas na área do têxtil em condições degradantes, é mesmo o segundo país com maior número de exportações para a UE, segundo os dados do Eurostat — 19% das exportações, num total de 16 milhões de euros. Ainda nos lembramos da derrocada do Rana Plaza, em 2013, na capital do país, Daca? Um edifício de oito andares onde trabalhavam cinco mil pessoas e onde funcionavam sem condições de segurança cinco fábricas de vestuário, subcontratadas de marcas de roupa europeias. Morreram 1134 pessoas e 2.500 ficaram feridas. Na altura, Primark, H&M ou Benetton confirmaram que produziam roupas em algumas dessas fábricas. Irresponsabilidade, impunidade, infortúnio. Quem é que na Europa quer saber em que condições trabalham as pessoas do “terceiro mundo” que fazem a roupa que vestimos? Alguém?

Quatro anos após a tragédia do Rana Plaza, nove ONG’s, entre elas a Human Rights Watche a Clean Clothes Compaign, chamaram 72 marcas, algumas delas líderes mundiais no mercado de roupa, a assumir o compromisso de fornecer informações e identificar as fábricas que na indústria têxtil ainda funcionam sob práticas de trabalho abusivas. O objetivo é, não só erradicar tais práticas, como estabelecer padrões de proteção laboral, quer a nível da segurança, quer dos salários. Follow the Thread: The Need for Supply Chain Transparency in the Garment and Footwear Industryé o nome do relatório (disponível online), onde ficamos a saber que das 72 empresas convocadas, apenas 17 — entre elas a Adidas, a Levis ou a Nike já cumpriam na altura a totalidade dos padrões de transparência obrigatórios. Mas marcas como a PrimarkMangoForever 21 ou Rip Curl estavam entre as 25 que se recusaram a cooperar com a ação que pretende responsabilizar e mudar o paradigma. A Mango, contactada pela Vogue Portugal sobre se mantinha esta posição, não respondeu.

"A t-shirt branca é como uma tela em branco onde projetamos a nossa identidade enquanto indivíduos únicos e singulares. Mas é também o pano de fundo que reflete a nossa própria escala de valores."

Portanto, no mundo ocidental continuamos à espera para decidir se queremos ou não evitar tragédias com prejuízos graves para as populações locais e impactos graves no ambiente. Ainda estamos a falar de t-shirts brancas? Sim. E de sustentabilidade social. Pedro Palha explica como na ISTO é possível aplicar “um preço justo ao cliente e da forma mais transparente e honesta que conseguimos. Por isso é que mostramos no nosso site o preço de produção das nossas t-shirts.” Uma t-shirt branca da ISTO, que garante respeitar o ambiente e as condições de trabalho das pessoas envolvidas na sua produção, custa €28. Numa ronda pelos preços aplicados pelas principais marcas de roupa presentes no mercado português, o valor de uma t-shirt branca oscila entre os €5 e os €15,99. Na loja online da Michael Kors, uma t-shirt branca, cem por cento algodão (não orgânico), atinge aos €125.

Mais do que procurar o preço justo ou que justifique a produção de uma t-shirt branca, trata-se aqui de encontrar e assumir um comportamento que seja conforme à nossa própria consciência. Mas primeiro é preciso ganhar consciência. Queremos ser parte do problema ou contribuir para a solução? Reinaldo Moreira esclarece como neste momento precisamos mesmo fazer essa escolha. “Este incentivo constante ao consumo tem de passar de moda. Tem de deixar de ser engraçado ir a uma feirinha ou ao shopping e trazer uma ou duas peças ou t-shirts brancas, só porque estavam baratas e eram giras. Eu tenho é que precisar daquela roupa, e aquela roupa tem que ser de qualidade, de forma a poder dar-lhe uso. Ela tem que ter um propósito. Porque se é apenas por capricho e satisfação da minha tendência altamente consumista e materialista, então eu sou o problema e estou só a ser conivente com o sistema.”

Foi a pensar no mecanismo do sistema do qual fazemos parte, e para o qual todos contribuímos, que o realizador dinamarquês Martin de Thurah filmou, em 2017, uma short story onde vemos uma jovem rapariga despir sucessivas t-shirts brancas enquanto caminha pelas ruas da cidade de Berlim, na Alemanha. O documento, filmado a preto e branco, fez parte da exposição “Items: Is Fashion Modern?”, que o museu de arte moderna de Nova Iorque apresentou ao público (outubro de 2017 a janeiro de 2018). A exposição pretendia explorar o presente e o futuro de 111 peças de roupa cujo forte impacto no mundo, durante os séculos XX e XXI, elevou ao estatuto de ícones incontornáveis da Moda. A curadora assistente do Moma, Michelle Millar Fisher disse na altura que o filme de Thurah, pretendia provocar uma “reflexão sobre a relação que temos com a roupa que vestimos e descartamos. Através de uma sonhadora e enigmática coreografia, o filme chama a nossa atenção para os muitos significados que a t-shirt branca assumiu na nossa cultura ao longo da história da humanidade.”

A t-shirt branca é como uma tela em branco onde projetamos a nossa identidade enquanto indivíduos únicos e singulares. Mas é também o pano de fundo que reflete a nossa própria escala de valores, e o nosso grau de evolução dentro de uma sociedade que está pronta a usar connosco o mesmo tipo de tratamento que dermos à nossa incrível, (ou descartável?), t-shirt branca. Beatriz Pinto, que faz parte da equipa Lighthouse Publishing (que publica a Vogue Portugal) foi a única de nós a assumir o impensável: “não tenho uma única t-shirt branca no meu guarda roupa.” Não acreditamos que para salvar o planeta seja preciso chegar a tanto. Mas queremos acreditar que ainda é possível.

 

 Artigo originalmente publicado na edição de setembro 2019 da Vogue Portugal.

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