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Entrevistas 19. 7. 2018

Tomara que Kaia

by Patrícia Domingues

 

As supermodelos já não exist... 

© Getty Images © Getty Images

 

Eis que surge Kaia Gerber. Que todos sabemos que é filha de quem é, mãe essa que a levou para o mundo da Moda aos dez anos, mundo da Moda esse que a transformou numa celebridade, celebridade essa que soma likes no Instagram como quem muda de camisa, camisa essa Chanel depois de receber um telefonema de Lagerfeld, o próprio, para protagonizar a campanha de verão, campanha essa que surgiu pelo meio de se tornar o novo rosto da coleção Trésor da Omega, coleção essa que é o motivo pelo qual nos sentamos à conversa com ela em Berlim. Falamos de Kaia em catadupa porque sabemos tudo sobre ela. 

Praticamente vimo-la nascer, mudámos-lhe as fraldas e pegámos-lhe ao colo (como não?!), assistimos ao desabrochar de criança para adolescente, sempre que aparece numa passadeira vermelha, passerelle ou revista sentimos aquele carinho como se da filha de uma das nossas amigas se tratasse. E é por isso que ficamos tão chateados quando minutos antes da entrevista somos informados que não poderemos tirar uma fotografia com ela. “Nem uma?” “Nem uma.” “Nem assim ao longe?” “Nada”. Ok, concordamos amuados, só que depois ela entra pela sala de entrevistas e todos sorriem, embevecidos, um pouco até envergonhados, os telemóveis apenas em modo de gravação de som, porque como assim alguém iria desrespeitar o pedido deste ser amoroso que ainda por cima é filha de uma das nossas amigas? Guardemos o momento à moda antiga, na memória. Aquele dia em que estivemos à conversa com aquela sobre quem se aposta que daqui a 20 anos deixará um legado único, um daqueles que podem ser impressos e vendidos numa edição especial da Taschen. Não teremos fotografias no Instagram para o comprovar, mas saberemos dizer que tem os maiores olhos do mundo, que a sua voz é suave como algodão doce, que as suas mãos não tremeram nem por um minuto e que ela nos disse que o seu único talento extraordinário era tocar flauta. “Se precisarem de um flautista, já sabem.”  

 

“Ter pessoas a olhar para ti como um exemplo é muita pressão.”

 

É que Kaia é isto tudo e uma miúda de 16 anos ao mesmo tempo. Uma miúda com todas as respostas na ponta da língua e com um discurso tão bem articulado que nos faz duvidar se terá um auricular ao ouvido (não tem). Uma miúda com pernas até ao infinito, o mais belo conjunto saia/camisola azul‑escuro que já vimos (fun fact: é uma re-edição Proenza Schouler de 2010, de quando Kaia tinha apenas 8 anos), uma educação exímia, alguém que nos olha nos olhos e se esforça por responder a todas as dúvidas possíveis. Hmm, onde é que já vi isto? Em setembro do ano passado, quando entrevistei a mãe dela. Kaia diz que, com a mãe, aprendeu mais por observação do que por imposição. Que nunca ouviu uma palavra negativa sobre ela. Que sempre a aconselhou a guiar-se pelos seus instintos, ensinou-a a dizer ‘não’, a chegar sempre a horas e não, nunca lhe deu uma aula sobre desfiles. “Não, não ando a desfilar pelos corredores de casa. Desculpem se vos desiludi”, brinca Kaia. E depois num tom mais sério: “As pessoas dizem que sou parecida com a minha mãe, e eu encaro-o como um elogio, mas não o vejo como uma vantagem, tem a ver com teres um bom exemplo a seguir. Não quero saber se ela é modelo ou não. Os valores que ela me ensinou ficaram. E aprecio muito isso nela.” Nela, no pai, no irmão, a família desconcertantemente bonita (e desconcertantemente rica) que habita numa casa com morada em Malibu, e não fossem eles tão discretos talvez nunca tivesse havido espaço para outras começadas por K. É impressionante a forma como Kaia fala sobre a família, como os introduz de forma natural em cada resposta, e assim sabemos que é sincero.

© Getty Images
 

Sobre o pai, Rande, diz que lhe mostrou como viver a vida no momento e a não tomar nada como garantido. “Nem leva nada demasiado a sério”, conta. Sobre o irmão, gaba-se da tatuagem que ele fez com o nome dela – “uma de que ele não se vai arrepender” – e diz que é a pessoa que mais gosta de seguir no Instagram, “porque de outra forma não saberia o que ele anda a fazer. Quando estou a viajar e não estou com ele e ele não me responde às mensagens ficou tipo ‘sabes que vou ao teu Instagram e verei onde andas, não sabes?’” (Sabia que até há uma página no Instagram onde Presley publica fotografias tiradas por ele à irmã? Eu também não.) Kaia tem um brilho nos olhos quando diz que os dias em família são a sua forma preferida de passar o tempo. E que outra miúda de 16 anos assume isto? Bom, sendo justa, também quase nenhuma outra miúda de 16 anos passa as tardes de quarta-feira a dar entrevistas à Vogue

 

“Ter pessoas a olhar para ti como um exemplo é muita pressão”, diz às tantas, regressando de seguida a um discurso mais limado. “Nunca me assumi como role model, mas se conseguir inspirar nem que seja uma rapariga isso significa imenso para mim.” Uma adolescente por si só não tem uma vida fácil. Agora imagine uma adolescente que tem o mundo inteiro de olho nela. As fãs eternas dos 90, os especialistas em Moda, as miúdas da idade dela, as miúdas que adoram os rapazes com quem ela supostamente namora, as marcas, os designers. Muito embora ela insista que é muito mais ‘normal’ do que aquilo que pensam.

 

“A palavra supermodelo não deve ser usada de forma ligeira e eu penso definitivamente que tem de ser merecida." 

 

“Ao crescer costumava ficar superaborrecida por não ter nada para fazer, mas assim que comecei a viajar e a trabalhar, aprendi a apreciar o meu tempo livre. Sempre tive uma alma velha, mas não faço nada de extraordinário, quando estou em casa apenas passo tempo com a minha família. Cozinhamos juntos e eu ando na escola. Volto de Paris e faço o exame de cálculo no dia a seguir.” Está no 11.º ano, faz a escola maioritariamente online, é boa aluna. Não é costume perguntar a uma das maiores modelos do momento o que quer ser quando for grande, mas também não há muitas super com que fale que não possam entrar em discotecas. “Sabes, acho que a maioria das pessoas de 16 anos não sabe o que quer fazer da vida”, responde. “Não quero fechar-me numa caixa e comprometer-me com a Moda para o resto da vida, é por isso que deixo todas as oportunidades em aberto. Nem sequer sei o que vou fazer amanhã...” Concordamos que a agenda terá (sempre) alguma coisa para amanhã, mas passando à frente, começo a concordar com Donatella Versace quando disse que Kaia tinha muito uma atitude não-acredito-que-isto-me-está-a-acontecer.

  

E não acredita mesmo. “Por exemplo, quando a Omega falou comigo para ser o rosto da coleção Trésor, esse foi um momento em que pensei, porque estou a fazer isto sozinha? Se alguém sabe o meu nome e eu fico tipo, espera, estão a falar comigo? Porque não estou à espera – nunca – e surpreende-me. Acho que não houve um momento específico em que percebi que era conhecida. Acho que foi quando tinha 13 anos quando uma pessoa me começou a seguir no Instagram e eu pensei: como é que me encontraram? Daí tornou-se como é agora.” Kaia era uma criança particularmente tímida. Vemos fotografias dela escondida por trás das  pernas da mãe. Correção, por trás das looongas pernas da mãe. Agora parece uma rapariga confiante, daquelas que podem não ser as mais populares da turma, mas que sabe combinar uns mom jeans como ninguém e não tem medo de o mostrar. “Como uma jovem mulher leva algum tempo até perceberes como és”, justifica.“Para mim, sempre teve a ver com encontrar a beleza interior e nunca me importou a minha aparência, era só sobre fazer alguém feliz, fazer alguém sorrir e isso é a coisa mais importante para ganhar confiança. É sobre seres feliz com quem és por dentro.” Diz que só devemos usar peças de roupa que nos façam sentir bem. “És a única pessoa que deves tentar impressionar”, em modo miniguru. E pode continuar a tirar notas: “Tirares tempo para ti de vez em quando é mesmo importante, especialmente quando fazes algo em que estás constantemente rodeado de pessoas, a arranjar o cabelo e a ser maquilhada, coisas como estas. Tirar nem que seja uma hora do teu dia para refletires sobre ti própria e tomares conta de ti é muito importante.” Reforço no muito.  

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E esta é aquela altura em que o céticos que estiveram a ler este texto até agora de sobrolho levantado não aguentam mais e dizem o que estiveram o tempo todo a pensar: que o sucesso de Kaia só se deve a ser filha de quem é. Que assim é fácil (como se andar a correr o mundo em viagens e trabalho e ainda tirar um Muito Bom na escola fosse fácil). Que o rosto dela até é banal (mentira). Que o dinheiro ajuda, que o hype vai passar, que assim que nascer a próxima filha querida de uma outra celebridade o histerismo passa (como se o carisma desse para comprar, como se o mundo da Moda andasse todo cego, como se já não existissem outras mil filhas de celebridades no mundo).E também reparou como não tive de usar o nome da mãe de Kaia até agora? Os elogios que se seguem também não. “A Kaia tem um visual indiscritível e ela nasceu para desempenhar esse papel”, afirma Alexander Wang. “Aquela energia, aquele entusiasmo, aqueles olhos enormes que olham para o mundo com surpresa – isto é o que torna a Kaia especial”, descreve Donatella Versace. Tomas Maier diz que ela é “uma rapariga gira com carisma”, Karl Lagerfeld chamou-lhe “o rosto do momento” e Pierpaolo Piccioli diz que Kaia representa uma nova geração de glamour e frescura. “Ela brilha”, garantiu o designer à Interview. Miuccia Prada: “Atrai-me a paixão e a força da Kaia.Tenho a certeza de que ela se inspira no sucesso e da carreira da mãe, mas tê-lo transformado em algo próprio é definitivamente impressionante.”.

 

 

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Kaia fica nitidamente incomodada com os elogios. Encolhe-se numa pose que não é falsa modéstia (eu estive lá para ver, mesmo que não tenha uma foto) e balbucia. “A palavra supermodelo não deve ser usada de forma ligeira e eu penso definitivamente que tem de ser merecida, por isso quando as pessoas se referem a mim como uma eu penso, bem, talvez precisem de me dar mais um bocadinho de tempo pelo menos... Mas é uma honra ser associada àquilo que havia nos anos 90.” Big shoes to fill? Fique descansado, Kaia Gerber e Cindy Crawford não partilham nem o sinal, nem um par de sapatos. “Bem, nós não calçamos o mesmo número, o que me chateia imenso porque achava que ia conseguir roubar-lhe alguns sapatos. Mas definitivamente tiro‑lhe muitas peças vintage. Para mim são as mais icónicas.” Talvez daqui a 20 anos já ninguém se atreva a duvidar do talento de Kaia. A todos os que não são velhos do Restelo, apresentamos, com orgulho, a supermodelo Kaia. 

 

*Artigo originalmente publicado na edição de junho de 2018 da Vogue Portugal

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