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Inspiring Women 14. 6. 2018

Sylvia Earle: "Acho que devia estar na moda importarmo-nos"

by Irina Chitas

 

Conhecer Sylvia Earle devia ser obrigatório a todos os seres humanos. A Embaixadora Rolex, ativista, fundadora da Mission Blue, não é só uma força da natureza: é a maior fonte de inspiração.

  

Aos 82 anos, Earle continua a querer fazer-nos mudar o mundo. Foi a primeira mulher a ser nomeada chief scientist na National Oceanic and Atmospheric Administration, a primeira pessoa a receber o título Hero for the Planet da Time, e continua, na sua voz profunda, a ensinar-nos que podíamos ser mais. Encontrámo-la durante a conferência da National Geographic em Lisboa, de Rolex no pulso. Sylvia é a embaixadora mais carismática da marca, que usa como se já fizesse parte dela – e, na verdade, faz. No início dos anos 80, estava com a sua melhor amiga nas Florida Keys e quando a viu mergulhar de relógio em riste pensou que se tinha esquecido de o tirar. Quando soube que se tratava de um Rolex, percebeu que não só era capaz de a levar ao fundo do mar como a uma gala de black tie, comprou-o e nunca mais o tirou. Chama-lhe o seu companheiro do Ártico à Antártida e, de repente, vemo-nos com inveja do mundo que aquele relógio já viu. Queríamos ser nós a ir de mão dada com Sylvia, para todo o lado e para todo o sempre. Como não somos, contentamo-nos com o privilégio que é poder lê-la. E, mais que isso, poder tentar ser como ela.

Dedicou-se nos últimos anos, com a sua Mission Blue, a mostrar ao mundo porque é que o oceano importa. Nesta faceta de consciencialização do seu trabalho, o que é que é mais difícil? São batalhas políticas ou simplesmente levar as pessoas a refletir sobre a forma como tratam o planeta, como sentem o planeta, como vivem o planeta?

Este é um momento no tempo em que há mais potencial do que nunca para levar as pessoas, os seres humanos, a humanidade, a refletir sobre quem somos e a perceber que temos uma escolha. Não temos de continuar no caminho que nos está a levar claramente a um lugar que não é bom para nós. Basta olhar para as evidências, e não é preciso ser cientista para as ver, qualquer pessoa o pode fazer e qualquer pessoa o deveria fazer, porque o conhecimento está à nossa volta, e tudo o que temos de fazer é abrir os olhos e abrir as mentes para ver como o planeta está a aquecer, como o oceano se está a tornar mais ácido, como a química do planeta está a mudar por causa das nossas ações. Já sabemos há algum tempo que alguns animais estão em riscos sérios, temos visto o declínio dos elefantes, o declínio dos tigres; temos visto as árvores a dar lugar a coisas que temos posto onde elas deveriam estar; temos visto a qualidade da água, a qualidade do ar, a qualidade das nossas vidas diminuir enquanto nós consumimos imprudentemente o mundo natural de uma forma baseada na assunção de que vai correr tudo bem. O oceano é demasiado grande para falhar, não importa o que façamos ao planeta vamos conseguir continuar a respirar, os humanos não poderão de todo afetar o oxigénio na atmosfera – exceto que agora conseguimos ver que o oceano se está a desoxigenar. O oceano gera mais de metade do oxigénio na atmosfera e se o oceano está em risco, se gostas de respirar, também estás. Nós somos os agentes de coisas boas que aconteceram à civilização, a qualidade de vida, em algumas formas, é muito melhor hoje, com todos os avanços médicos, com novos conhecimentos, com novos entendimentos; mas quando falamos na qualidade de vida do planeta, essa está numa trajetória diferente. Saber que estamos dependentes do estado do mundo natural é uma nova ideia para muita gente que cresce em cidades e está desligada da natureza. As boas notícias, na minha opinião, é que as crianças estão mais recetivas a esta consciencialização e estão a ensinar isso a alguns dos adultos à sua volta. Acho que há uma onda de preocupação a que eu não tinha assistido antes. Acho que começou a despertar nos anos 70, no meu país, quando um rio pegou fogo por causa dos químicos tóxicos que lá se despejavam. Essa foi uma wake up call. Na China, agora, o ar é tão tóxico que as pessoas usam máscaras porque percebem que lhes danifica a saúde. Isto são sinais. Nós estamos a causar estes problemas. E temos de ser nós a resolver esses problemas. Apesar destas novas e incríveis formas de explorar o oceano que foram surgindo desde que eu era uma criança e das quais nós somos os verdadeiros beneficiários, como ver o oceano a partir do céu, ou o James Cameron ir à parte mais profunda do oceano, ou o Don Walsh, ou o Jacques Piccard nos anos 60, mas apenas 10% do oceano foi alguma vez visto, ou realmente mapeado. Ainda temos tanto para fazer. Mas sabemos que o oceano está em apuros. Conseguimos medir e mostrar provas do declínio de metade dos recifes corais desde 1980. E 90% dos grandes peixes, como os atuns, os tubarões, os peixes-espada vão desaparecer se não lhes dermos descanso.

Quer gostemos de os comer ou de os ver nadar no oceano, temos de parar de os matar e dar-lhes uma oportunidade séria de recuperação. A mesma coisa com as baleias: chegámos perigosamente perto de perder as grandes baleias. Se quiséssemos, podíamos matá-las todas. Podíamos encontrá-las e exterminá‑las. Se escolhêssemos fazê-lo, tínhamos esse poder. Mas temos o poder da contenção. Nasce, talvez, em parte do próprio interesse: gostamos das baleias, gostamos de as ter por perto, mas também há algo profundamente dentro dos seres humanos que é admirável, que é a ética do respeito pela vida das criaturas, quer sejam pássaros ou árvores que têm milhares de anos, questionamos se termos o direito de as matar. Se não temos de o fazer para a nossa sobrevivência, porque haveríamos de o fazer? Porquê quando não sabemos como as substituir? É o poder de respeitar e cuidar que se pode sobrepor à nossa capacidade de matar e destruir.

A maior parte dos danos que causámos nas últimas décadas são reversíveis? Pensa que conseguiremos atingir um ponto em que o planeta comece a sentir-se saudável outra vez?

Não podemos voltar ao que era, mas podemos fazer com que as coisas sejam melhores do que seriam se continuássemos a fazer o que estamos a fazer. Mas a natureza é quem realmente faz a cura, nós só temos de dar à natureza descanso. Dar uma oportunidade às árvores de fazerem a sua magia. Deixar que os recifes de corais prosperem. Deixar os peixes serem peixes. Como os pássaros: valorizamo-los como algo mais do que um jantar, mas não foi há muito tempo que todos os pássaros eram considerados caça justa. Mas hoje valorizamo-los porque são bonitos e porque percebemos que, ecologicamente, o nosso mundo é dependente desta rede de vida. Precisamos de todos os pequenos micróbios, os pequenos crustáceos, dos insetos, das abelhas, das borboletas, das aranhas. Algumas pessoas pensam “Ah! Aranhas!” [risos], mas se eliminássemos as aranhas do planeta haveria uma grande lacuna em termos das ligações que tecem a rede de segurança que sempre tomámos como garantida. Contra um universo de lugares hostis. Olhamos para as estrelas à noite, e eu faço-o muitas vezes, só para me relembrar de que são realmente elegantes, bonitas, mágicas, mas eu não posso viver lá. Mesmo que consiga lá chegar. Mesmo o sol: quem é que quer viver no sol? As estrelas são só sóis grandes, e não são muito amigáveis. A Lua? Não é muito amigável. Não podes respirar lá. Alguma vez tornaremos Marte habitável para seres humanos? Talvez um dia, mas não num futuro próximo. Foram precisos 4 biliões e meio de anos para a Terra se tornar habitável para os humanos, de rochas e um pouco de água temos um planeta que realmente é o melhor lugar que podemos imaginar para o nosso futuro. Por isso temos de respeitar o nosso passado. Acho que devia estar na moda importarmo-nos.

Talvez não seja uma tendência. É um paradoxo, porque à medida que nos tornamos cada vez mais egoístas, à medida que nos preocupamos cada vez mais com o nosso umbigo, também nos preocupamos cada vez mais, por exemplo, com a comida que pomos dentro do nosso corpo, de onde vem…

Exato, e não só de onde vem mas também quem. Quem é que estamos a comer? Queremos saber o que são os bens que compramos, como é que foram feitos. Estarmos preocupados com a nossa sobrevivência e bem-estar, é só senso comum. Mas quando percebemos que a nossa sobrevivência e bem-estar depende de tomar conta do mundo natural, isso torna-se uma prioridade. O teu sucesso depende do sucesso dos peixes, e dos pássaros, e das árvores, e eles fazem o ar que respiras, e eles limpam as toxinas da atmosfera e da água, eles são os nossos aliados. Durante muitos anos pensámos na natureza como algo a ser conquistado. A natureza era o inimigo. O mundo selvagem era assustador. Agora o que é assustador é que podemos perder o mundo selvagem. Podemos perder elementos-chave de algo que acabámos por estimar.

Quem foram as pessoas na sua vida que a fizeram pensar que poderia ser exatamente quem e o que quisesse?

Disseram-me muito seriamente quando eu era adolescente que era bom que eu quisesse ser cientista, mas na verdade não era prático porque as mulheres logicamente podiam ser secretárias, mas nunca seria imaginável que pudessem ser o CEO. Podias ser enfermeira, mas a ideia de seres médica… podia ser feito, mas era difícil. Podias ser uma professora, era uma profissão muito honrosa, mas nunca serias a superintendente das escolas. Ah! E podíamos ser algo muito excitante: uma assistente de bordo, mas nunca o piloto.
A ideia de poder ser uma exploradora, como William Beebe, que era um dos meus heróis de infância, ele que podia ir para um submarino e ver todas aquelas criaturas brilhantes, eu não percebia porque é que eu não podia fazer aquilo. E o Cousteau! Eram todos homens. Muito macho macho [risos]. Os meus pais nunca disseram que eu não podia, disseram que poderia ser difícil, nunca ditaram o que eu podia e não podia fazer, encorajaram-me a fazer o que eu queria, a seguir o meu desejo de ser cientista.

E pensa que estes são tempos excitantes para as mulheres porque finalmente conseguem ser mais e mais exatamente aquilo que querem ser?

Acho que ainda é muito difícil. Mas acho que evoluímos muito, isso de certeza. Quando fui para o mar a primeira vez numa expedição, era raro serem permitidas mulheres a bordo. Na verdade, quando me convidaram para ir ainda não tinha o meu doutoramento, mas tinha formação em Botânica Marinha, e nessa expedição precisavam de um botânico, e eu fui recomendada como a pessoa a ir e fazer esta magnífica exploração. A nossa função era explorar, era ir a um lugar onde as pessoas ainda não tivessem ido usando equipamento de mergulho e avaliar quem vive lá, que nomes têm, se não tiverem nomes, dar-lhes nomes e era tão empolgante. Ainda podemos fazer isso, porque a maior parte do oceano ainda está por descobrir. E eu ainda faço isso. Mas esta foi a minha primeira oportunidade de fazer parte de uma equipa científica e ir e usar os meus talentos enquanto cientista e foi só depois de estar tudo decidido, fizemos as malas e estávamos prontos para ir, que reparámos que eu era a única mulher no meio de 70 homens. Quando chegámos a Mombaça, no Quénia, um jornalista perguntou o que é que estávamos ali a fazer e nós explicámos apaixonadamente a nossa exploração, mas a manchete no dia a seguir era “Sylvia navega com 70 homens” [risos]. Essa era a manchete! E a seguir dizia “mas ela não espera problemas”. Mas eu mal posso esperar pela manchete, agora que muitas mulheres são oceanógrafas e cientistas e capitãs e marinheiras, “Robert navega com 70 mulheres, mas ele não espera problemas.” [Risos] As coisas estão a mudar e é entusiasmante ser testemunha dessa mudança positiva, porque as mulheres sempre contribuíram para o trabalho pesado, sempre foram as parceiras silenciosas, sempre estiveram lá, não só para as crianças mas para os seus parceiros homens. Mas são os homens que vão às reuniões. Podem não escrever todos os documentos mas são as suas assinaturas que estão nos documentos. É a forma como a cultura tratou o papel da mulher ao longo dos tempos. Mas, seja porque razões for, há uma mudança. É quase uma pergunta infantil: porque é que é assim? Porque é que as mulheres não podem pilotar aviões? Porque é que as mulheres não podem mergulhar? Quando eu me candidatei a viver debaixo de água como parte de uma equipa científica, o chefe de equipa – que eu acredito que tinha um bom casamento e uma boa relação –, quando as mulheres se começaram a candidatar para fazer parte do programa (porque ninguém nos disse que não podíamos, por isso fizemo-lo) teve de decidir, e disse: “Bem, metade dos peixes são fêmeas” [risos], “talvez possamos levar algumas mulheres”. Quando vês um bando de aves, não sabes quais são os machos e quais são as fêmeas, eles estão naquilo juntos. Vês um cardume de peixes, a dançar pelo oceano, lado a lado, e não é uma questão de capacidade, é uma questão de cultura.

E em adição a ser uma mulher, a sociedade ainda vê com maus olhos que mães possam ser engenheiras e pilotos e cientistas e CEOs.

Exato, são seis da tarde, onde é que está o teu jantar? Bem, querido, é a tua vez. Três anos depois da conclusão daquele primeiro programa de viver debaixo de água – já o fiz 10 vezes entretanto – havia um capitão da marinha muito duro, que representava a Marinha dos Estados Unidos e um dos pioneiros do mergulho saturado, chamou-me à parte e disse‑me “Sabes, tenho de te dizer que fui contra que fizesses parte daquele programa. Não me opunha à ideia de ter mulheres, mas estava muito preocupado por tua causa”, e eu disse “Mas o que é que eu fiz?”, “Não, tu portaste-te bem, foste ótima, mas és mãe. Mas devo dizer-te que nós não tínhamos todas as respostas, e se acontecesse alguma coisa a uma mãe, nós estaríamos em grandes sarilhos”. Não era sobre mim, era sobre eles, a preocupação sobre a reputação deles! “Mas e os pais? Também seria um problema, não?” “Não, há uma diferença porque és mãe.” 

Leia a entrevista completa na Vogue Portugal de junho, já nas bancas, e veja, abaixo, o vídeo que torna absolutamente impossível não ficar tão fascinado com Sylvia Earle como nós ficámos.

As Embaixadoras Rolex são mulheres notáveis. Mulheres fortes, mulheres poderosas, mulheres que ultrapassaram todas as montanhas e todos os mares e todos os desertos por pura força de vontade. São mulheres que inspiram por existir, inspiram porque não se inibem de partilhar as suas histórias para que todos os outros - mulheres ou homens - saibam que sim, tudo é possível. E são essas histórias que a Vogue vai partilhar, ao longo de 2018, em Inspiring Women. Porque as palavras contam. Porque as mulheres contam. Porque o poder nasce todos os dias.

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