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Notícias 17. 7. 2018

Shame on you

by Mónica Bozinoski

 

No passado domingo, as madrinhas de casamento de Chiara Ferragni foram definidas como "redondas e felizes" por um jornal italiano, juntando-se à interminável lista de personalidades femininas envolvidas em episódios de body shaming

©Instagram/@selenagomez

Vamos começar este artigo com uma viagem ao ano de 2007. Antes do YouTube ou do IGTV, existiam os talk shows, nomeadamente o The Tyra Banks Show. No dia 1 de fevereiro do mesmo ano, antes de Kim Kardashian ser atacada pela sua celulite, ou Beyoncé ser acusada de estar mais gorda mais vezes do que aquelas que conseguimos contar, Tyra Banks foi confrontada com um conhecido episódio de body shaming nos meios de comunicação social. A resposta é mundialmente conhecida - depois de ter sido fotografada na praia e de ter sido chamada nomes como Thigh-ra Banks, em referência ao volume das suas pernas, ou America's Next Top Waddle, a modelo vestiu o mesmo fato de banho visto nas imagens durante um episódio do seu talk show, e calou os ainda nem conhecidos haters com quatro simples palavras: "kiss my fat a**". 

Onze anos depois, numa sociedade governada pelo culto da perfeição, pelos padrões irrealistas, pelos cinquenta quilos na balança, pelo thigh gap e pela constante necessidade de aprovação, particularmente na forma de comentários e double taps que alimentem o ego, encontrar o ponto de equilíbrio e a satisfação pessoal ainda é uma tarefa equiparável à Missão Impossível de Tom Cruise. Acrescente isto à noção cega de que as redes sociais são um palco onde os filtros não existem, onde o bom senso fica à porta e onde o body shaming é o prato do dia, e estão reunidos todos os ingredientes para um final pouco, ou nada, feliz.

"Quando faço um comentário sobre alguém ou decido fazer especulações sobre o seu corpo, a sua vida ou o seu rosto, é geralmente um reflexo de algo que eu própria sinto em relação a mim mesma. Isso é algo que se enraizou em mim. Estou a tentar eliminar esta ideia de gossip da minha prórpia vida", revelou Emma Stone numa entrevista de maio de 2014, à USA Today. "Somos sempre demasiado magras, ou demasiado gordas, ou demasiado altas, ou demasiado pequenas. Estamos a humilhar-nos uns aos outros, e estamos a humilhar-nos a nós mesmas, e isso não é nada bom", concluiu a atriz. 

Passaram-se quatro anos desde então. Vimos de tudo neste curto espaço de tempo, mas o body shaming não foi a lado nenhum. Depois de anos a ouvir as mais diversas críticas sobre o seu corpo, desde "a roupa fica-te mal quando desfilas", "tens um andar estranho" ou "és demasiado gorda para ser modelo", Gigi Hadid sentiu o outro lado da moeda durante a Semana de Moda deste ano: ser fortemente criticada por estar "demasiado magra". A modelo usou o Twitter para clarificar que o seu corpo tinha mudado ao longo dos anos devido à Tiroide de Hashimoto. 

"Para todos os que disseram que eu era demasiado gorda para a indústria, aquilo que estavam a ver era, na realidade, inflamação e retenção de líquidos", escreveu a modelo numa publicação sobre as constantes críticas à sua silhueta. "Não vou explicar mais o porquê de o meu corpo ser como é, da mesma forma que qualquer outra pessoa que não encaixa nos vossos padrões de beleza não o tem que fazer. Enquanto utilizadores de redes sociais e seres humanos em geral, aprendam a ter mais compaixão uns pelos outros, e percebam que nunca conhecem a história toda. Usem a vossa energia para incentivar as pessoas que admiram, ao invés de serem cruéis com as que não admiram", concluiu Hadid. 

Um mês mais tarde, os haters mudaram de alvo e apontaram a mira na direção de Selena Gomez. Flashback para o ano de 2015. A cantora norte-americana fala em entrevista à Billboard, pela primeira vez, sobre o seu diagnóstico de Lúpus e as sessões de quimioterapia que a mantiveram afastada dos palcos. Dois anos mais tarde, devido a uma complicação causada pela doença, foi submetida a um transplante de rim. Em março deste ano, Selena Gomez foi fotografada em bikini durante as suas férias na Austrália, numa série de imagens que exibiam as cicatrizes que resultaram da operação. A Internet reagiu com os mais diversos comentários sobre o seu corpo, que iam do "está mais gorda" ao "parece grávida". Chocante? Infelizmente, nem por isso.

Num vídeo com amigos, sorrisos e abacates, a cantora respondeu às críticas de forma clara e concisa. "O mito da Beleza - uma obsessão pela perfeição física que acorrenta a mulher moderna num ciclo vicioso de desespero, insegurança e ódio, à medida que tenta alcançar a definição impossível de beleza sem falhas da sociedade. Eu escolho cuidar de mim porque quero, e não porque tenho que provar o que quer que seja, a quem quer que seja", podia ler-se no post publicado por Selena Gomez no Instagram. 

"É uma loucura. Passei seis anos da minha carreira a ser chamada nomes como 'pactote de leite', 'bezzero', 'vaca envelhecida'... A verdade é que nunca me senti auto-consciente em relação a isso. Qualquer pessoa que tire tempo para dizer algo negativo sobre o meu peso não é alguém que eu queira impressionar. Mas depois passei por esta experiência de ver o meu corpo a mudar, e ouvi coisas como 'és uma hipócrita', 'pensava que eras defensora do body positive' ou 'pensava que aceitavas os diferentes tipos de corpo', e eu defendo e aceito", revelou Lena Dunham em entrevista ao The Ellen Show, no seguimento das críticas dirigidas à atriz pela sua recente perda de peso. 

Um ano depois desta entrevista, a atriz usou o Instagram para falar abertamente sobre o mito que rodeia a ideia do peso perfeito, com duas imagens que comparavam o seu corpo em momentos diferentes. "À esquerda: 62 quilos, elogiada o dia inteiro, foco de interesse para os homens e capa de uma revista sobre dietas que funcionam. Para além disso, doente no corpo e na mente, a subsistir numa pequena quantidade de açúcares, níveis de cafeína altos e uma carteira que parece uma farmácia", podia ler-se na descrição da imagem publicada por Dunham. Entre o humor e a honestidade, continuou. "À direita: 73 quilos, feliz, alegre e livre, elogiada apenas por pessoas que importam e por motivos que importam, a subsistir num fluxo estável de alimentos divertivos/saudáveis, cheia de força por levantar cães e espíritos". 

A publicação de Lena Dunham, onde a mesma se define como a "guerreira original do body positivity", era uma lembrança clara de que mais magra, entenda-se, relativamente aos padrões impostos pela sociedade, nem sempre é sinónimo de mais feliz, mais realizada ou mais saudável. Poucos dias depois, Candice Swanepoel espalhou o mesmo espírito positivo através da sua página de Instagram, em resposta aos trolls que a criticaram por estar mais gorda. "Isto sou eu, doze depois de ter tido o meu segundo filho", escreveu a modelo, acompanhando a mensagem com uma fotografia sua na praia.

"Se têm algo de negativo a dizer sobre isso... olhem para vocês mesmos primeiro. A sociedade consegue ser mesmo cruel. Os padrões de beleza impostos nos dias de hoje são quase impossíveis para as mulheres. Não tenho vergonha de mostrar a minha barriga depois do parto. Aliás, tenho muito orgulho nisso. Foi aí que carreguei o meu filho durante nove meses. Acho que tenho o direito de ter um bocadinho de barriga... criticam-me só porque sou modelo? Também somos pessoas normais, por isso deixem-me disfrutar da praia em paz", continuou a modelo, antes de terminar a sua mensagem com um apelo que nos é demasiado familiar. "Estamos nisto todas juntas, vamos ser gentis umas com as outras", concluiu. 

Depois de uma lista quase infinita de atrizes, artistas musicais e modelos, a saga interminável de body shaming voou até Ibiza, para se juntar à despedida de solteira de Chiara Ferragni. "As minhas amigas foram chamadas de gordas por um dos mais importantes jornais italianos", escreveu a blogger na sua página de Instagram, no passado domingo, acompanhando a publicação com o hashtag #BodyShamingIsForLosers.

Publicado no Corriere Della Sera, o artigo chamava as madrinhas de casamento da blogger italiana "redondas e felizes", e incluia diversos comentários sobre os tipos de corpo de cada uma das "sósias" de Chiara Ferragni, como foram definidas pelo próprio jornal. "Acho que é lamentável passar uma mensagem destas, especialmente quando tantas raparigas lutam com a sua identidade física e a sua auto-confiança", escreveu a influencer de Moda no seu Instagram, numa longa mensagem onde defendia a auto-estima em detrimento da ideia de perfeição. "Diferente é bonito. Não ser perfeita é bonito. Ser feliz é bonito. Ter confiança é bonito. Não deixem que ninguém vos faça sentir mal ou vos diga quem vocês têm que ser, nunca". 

No mundo do body shaming, entre os milhares de exemplos, nenhuma expressão se aplica melhor do que a ideia popular de ser preso por ter cão e preso por não ter. Enquanto Kendall Jenner é confrontada com comentários como "porque é que o teu peito é tão plano?" ou "ela precisa de sair e comprar um peito novo", Chrissy Teigen é criticada pelo oposto. Enquanto Ruby Rose lida com frases como "és demasiado magra" ou conselhos como "vai comer um hambúrguer", Kim Kardashian é brutalmente criticada por ter peso a mais. Enquanto Emily Ratajkowski é questionada pela sua sensualidade ou por exibir demasiado o corpo, Serena Williams é alvo de juízos de valor como "pareces um homem" ou "que horror, esses músculos são demasiado masculinos".

Como disse Lena Dunham na sua entrevista ao The Ellen Show, "enquanto mulher em Hollywood, nunca consegues ganhar". 

P.s. Em território nacional, como escreve Patrícia Domingues em Body Combat, o panorama é em tudo igual. Com testemunhos de Carolina Patrocínio, Jessica Athayde e Mafalda Beirão, sobre body shaming e body positivity, a leitura completa está na edição de julho da Vogue Portugal

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