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Tendências 1. 7. 2019

Será a Semana de Moda de Alta-Costura a mais sustentável?

by Emily Chan

 

Desprendidos da necessidade de produzirem em massa, os designers de Alta-Costura têm vindo a repensar um futuro mais sustentável para a Moda. À Vogue, e no âmbito de mais uma Semana de Moda de Alta-Costura, Ronald van der Kemp, Iris van Herpen e Xuan-Thu Nguyen falam sobre as suas visões eco-conscientes.

Ronald van der Kemp, primavera/verão 2019 © Imaxtree.

A Alta-Costura é a antítese do Pronto-a-Vestir: peças únicas versus peças produzidas em massa; peças intemporais versus peças condicionadas pelas tendências. Indiscutivelmente, isto torna a Alta-Costura mais sustentável. “Fazemos apenas duas coleções por ano [ao invés de seis]”, conta Ronald van der Kemp. “As peças de Alta-Costura são peças de coleção, são obras de arte e são intemporais.” A designer holandesa Iris van Herpen acrescenta: “Não estás a criar [uma peça] na esperança que alguém a vá usa; estás a criar a pedido.”

Van der Kemp e van Herpen estão entre os costureiros que procuram desenvolver essas ideias e agitar a restante indústria da Moda através das práticas sustentáveis que levam a cabo. “Há tanto desperdício na Moda, há tantos danos para o meio ambiente”, diz van der Kemp. Ao invés de se abastecer de novos tecidos, o designer natural da Holanda concebe as suas criações a partir de materiais que já existem. “Trabalho com as sobras [de outras marcas] ou peças vintage”, explica.

Ronald van der Kemp diz que é importante não estar dentro da bolha da Moda parisiense. Tanto ele como Iris van Herpen trabalham em Amesterdão, juntamente com os compatriotas Viktor & Rolf — que também têm na sustentabilidade um grande foco das criações que desenvolvem. “Foi uma decisão consciente, a de vir trabalhar para Amesterdão, porque eu queria fazer as coisas à minha maneira”, diz van der Kemp. “Em Paris, sentia-me pressionado pelo sistema; estar aqui sediado dá-me outra perspectiva.”

Mesmo de fora, van der Kemp ainda espera ter um impacto na indústria. “Quero trabalhar com empresas maiores e com as sobras dessas empresas para produzir roupas; quero encontrar soluções para o problema dos resíduos — que não passem pela incineração.” Para van der Kemp, as marcas de Moda poderiam inspirar-se no ritmo da Alta-Costura. “Ao invés de produzirmos tanta roupa, acho que devemos desacelerar.”

Xuan, primavera/verão 2019 © Imaxtree.

Xuan-Thu Nguyen, fundadora da marca sediada em Paris Xuan, está também a fazer uso da sua experiência em costura para explorar novas formas de criação de Moda. Está a lançar uma nova linha de peças reciclas chamada 1/Off. “Estamos a trabalhar com itens vintage, dando-lhes uma nova vida”, conta. Assim como van der Kemp, a reutilização de materiais existentes já é intrínseca ao trabalho desta designer holandesa-vietnamita; 90% da coleção outono-inverno 2019 da Xuan é fábricada a partir de sobras de tecidos. “Não devemos simplesmente deitar materiais fora”, solta Nguyen. “Ainda são lindos, então porque não usá-los?”

Van Herpen tem uma abordagem diferente, trabalhando com arquitetos e cientistas para desenvolver tecidos mais ecológicos. “Dentro da Alta-Costura, há tempo e espaço para criar materiais”, diz, admitindo que a criação de têxteis completamente sustentáveis não está livre de desafios. “Alguns desses materiais não contêm produtos químicos, por exemplo, mas tal significa que têm uma durabilidade menor.”

Para a sua coleção outono/inverno 2019, van Herpen analisou como é que uma única peça pode assumir múltiplas formas. Juntamente com o escultor norte-americano Anthony Howe, van Herpen criou um vestido cinético que muda de forma consoante os movimentos de uma modelo em cima da passerelle. “O vento ativa-o”, explica a designer. “[Este vestido] é uma construção realmente delicada, feita de tecido que se une em torno de um centro de aço, criando uma peça quadridimensional.” Para a coleção primavera/verão 2019, ela também desenvolveu o seu tecido com efeito glitch com o arquiteto e colaborador de logna data Philip Beesley. “Combinámo-lo com uma técnica tradicional de estampagem japonesa; então, quando olhas, não sabes se estás a olhar para um material existente ou para algo quase digital.”

Iris van Herpen, primavera/verão 2019 © Imaxtree.

A possibilidade de criar têxteis semelhantes à pele de um polvo (que têm a capacidade de mudar de cor e forma) é algo que entusiasma van Herpen. "Ainda é mais no futuro, mas cria muitas possibilidades para a Moda", diz a designer. “[Poderias] mudar o design e as cores; personalizá-lo. Isso cria uma menor necessidade de possuir roupas; transforma-se numa filosofia completamente diferente de posse.”

Van Herpen também espera que o seu trabalho acabe por ter um impacto na restante indústria. “Isto é Alta-Costura; não [o] verás numa loja na próxima semana, mas é o princípio por detrás disto. Tenho grandes esperanças de que seremos capazes de mudar a forma como pensamos relativamente aos materiais e à maneira como produzimos.” 

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