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Palavra da Vogue 14. 8. 2018

Política de privacidade

by Inês Castel-Branco

 

Passámos o último mês a atualizar exaustivamente todas as definições do regulamento de proteção de dados; a autorizar que usassem o nosso nome, morada e estado civil para estudos de mercado; a dizer que sim, queremos continuar a receber a newsletter que nunca abrimos. A Internet mudou a sua política de privacidade numa era obcecada pela vida pessoal alheia, da mesma forma que a sociedade devia ter feito há décadas com as celebridades. Paparazzi, notícias falsas, invasão da intimidade mancham de rosa a história do século XXI e Inês Castel-Branco conta-nos, na primeira pessoa, como é viver com todos os olhos de um País dentro de casa. Fotografia de Branislav Simoncik.

Na primeira novela que fiz, a Filha do Mar para a TVI, o jornal 24 Horas, que felizmente morreu entretanto, fez uma chamada de capa com uma fotografia minha. O título era: “Inês Castel-Branco envolve-se com todos os atores da novela.” Esqueceram-se de explicar que era a personagem que era fresca, e não eu. Foi a primeira vez que apareci numa notícia e fiquei um bocadinho perturbada. Mas qualquer paparazzo nos faz sentir que temos a privacidade totalmente invadida. A sensação de que estivemos a ser seguidos e fotografados sem saber é terrível.

"Só que ninguém está imune, e vejo isso acontecer recorrentemente a colegas e a pessoas de quem gosto muito."

Lembro-me da primeira vez que me aconteceu. Estava numa bomba a meter gasolina e passei os olhos pelas capas. Lá estava eu de biquíni. O meu coração disparou. Durante segundos pensas em tudo o que fizeste naquele dia e sentes-te completamente invadida. Ainda assim, a verdade é que em comparação com o resto da Europa somos uns sortudos. Claro que há perseguições, às vezes até com crianças ao barulho, mas no geral, e com o aparecimento dos reality shows, aqui até é tudo bastante calmo. Por exemplo, em termos de notícias absolutamente falsas sobre a minha vida pessoal, tirando um ou outro namorado que nunca teve esse estatuto, acho que nunca publicaram uma mentira grave sobre mim.

Só que ninguém está imune, e vejo isso acontecer recorrentemente a colegas e a pessoas de quem gosto muito. Primeiro vem o nojo. Depois tentas explicar ao maior número de pessoas que nem tudo o que está nas revistas é verdade e ficas parva com a quantidade de pessoas inteligentes que não acredita em ti. Depois ligas à pessoa em questão a mostrar o teu apoio ou simplesmente decides nem dar essa importância. Conheço pessoas que sempre foram perseguidas, mas curiosamente são as que lidam melhor com isso. Como se tivessem um escudo.

Confesso que ao princípio foi difícil habituar-me ao facto de, ao escolher esta profissão, parte da minha vida se tornasse inevitavelmente pública. E não estamos só a falar da atenção dos media. Estás num restaurante e estão constantemente a olhar para ti. “É ela, é!”, “é mais baixa!”, “é mais gordinha ao vivo!”. Quando comecei a ser reconhecida na rua tinha 18 anos, e não estava preparada. Depois os anos vão passando e habituas-te. Hoje em dia não me incomodam mais os olhares, as abordagens, as selfies. Normalmente levamos com o melhor das pessoas e, com alguma sorte, podemos até marcar a infância de uma criança. Pode ser difícil ter sempre um sorriso na cara. Todos temos dias maus, mas se as pessoas não gostarem de nós, do nosso trabalho, então não faz sentido continuar.

"As vidas são todas aparentemente espetaculares."

E depois vieram as redes sociais, que mudaram tudo, para o bem e para o mal. O lado bom é que os media já não têm exclusivos de nada, e isso faz com que desistam de inventar,de contratar paparazzi, de publicar as nossas piores fotos, porque se o público quer saber alguma coisa vai às nossas páginas. Dá-nos também oportunidade de responder, de repor a verdade em algumas situações, de ter opiniões e de defender causas – e esta última para mim é a mais importante. De repente chegamos a milhares de pessoas à distância de um post e isso pode ser maravilhoso. Outro lado interessante é surgirem com as redes sociais uma data de novas profissões. Gestores de redes, publicistas, influencers, maior procura de fotógrafos profissionais, etc. Só que, como em tudo, há o lado mau. Há a fantasia à volta da imagem, em que tudo deixa de ser natural. Tudo é filtrado e floreado. A doença das selfies como se não houvesse nada mais bonito à nossa volta. As vidas são todas aparentemente espetaculares, o amor passam a ser likes e seguidores, as relações fazem-se por SMS ou comentários com emojis. A necessidade de mostrar tudo. O tempo que gastamos a olhar para o telefone. Claro que estou a generalizar, mas pode ser perigoso.

Tanto que, quando se fala de redes sociais, para uma figura pública há toda uma gestão que tem de ser feita. Eu tenho duas páginas de Instagram, uma aberta e uma privada. Sempre tive. A grande diferença entre as duas é mostrar ou não o meu filho, a minha casa, a minha família. As coisas que quero manter privadas porque não têm de ser influenciadas pela escolha da minha profissão. Acho que a decisão de o meu filho ser “famoso” tem de ser dele, um dia, quando crescer. Até lá não me faz sentido mostrá-lo ao mundo, por mais orgulho que tenha nele. Já é difícil nascer com uma mãe famosa e ele não gosta muito. Quando alguém pede uma foto, ele revira os olhos. Já me perguntou com alguma frustração: “Porque é que toda a gente gosta de ti!?” No fundo, e se pensar bem em todas as atrizes que admiro, sei muito pouco da vida delas e não me interessa saber mais. Não tenho esta fixação pelo privado. Pelo contrário, admiro quem o protege.

* Artigo originalmente publicado na edição de julho de 2018

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