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Tendências 27. 2. 2019

És a bainha da noite: o regresso das plumas

by Irina Chitas

 

As plumas sempre foram consideradas o arquétipo da sedução, a artimanha fatal que fazia rodar os pescoços e cair os queixos. Movem-se lânguidas e lentas quando cosidas a seda, batem ao mesmo ritmo das pestanas longas e infalíveis, abraçadas num négligé de tons claros que esconde muito pouco. Mas se as plumas eram usadas para impressionar o outro, então porque é que nas estações em que o feminismo é o grito de guerra dos designers elas não saem das passerelles? 

Drew Barrymore em Never Been Kissed ©D.R.

Será porque vivemos na era do ego? Vá lá, falamos em narcisismo e pintamos imediatamente o texto com a imagem de um pavão a abrir o seu leque faustoso, a revelar aquela arma secreta que costuma estar caída por terra, sempre atenta, sempre à espera da hora em que explode e, inevitavelmente, provoca uma ou duas taquicardias  em qualquer ser vivo que esteja a passar. As penas lustrosas tornaram-se, de facto, o logótipo de um ególatra, mas também não é como se os pavões se andassem aí a – perdoem-nos o pleonasmo – pavonear-se, cheios de si, só porque acham que sabem dançar ou porque se consideram a última batata frita da fauna cósmica.

Símbolos de vaidade, de egocentrismo, acusados de olhar apenas para o seu umbigo metafórico, os pavões ultrapassaram séculos de seleção natural e chegaram até nós nesta forma magnífica porque aquela cauda com aquelas plumas que têm aquela cor e aqueles desenhos que quase nos fazem acreditar no criacionismo foram a sua única forma de subsistir. Talvez, há muitos, muitos anos, a maior parte dos pavões-macho tivesse penas mesmo aborrecidas, castanhas, curtas e murchinhas, e os pavões-fêmea estivessem todos embicados com o único cuja plumagem azul roçasse o chão virgem de homens. E foi esse pavão que conseguiu passar o seu ADN. E são os descendentes desse pavão – que não fosse pela opulência da penugem teria tido um triste fim no estômago de um T-Rex – que acusamos hoje de serem os filhos de Narciso, o próprio.

“Quem se vestia de ave do paraíso, fazia-o para provocar uma reação.”

Os pavões não são convencidos, não abrem o seu leque pomposo porque são tipo-lindos-de-morrer. Os pavões só querem amor. É com aquelas plumas que convencem alguém a ir para casa com eles, é com aquele vibrato da cauda que terão uma noite menos fria e, quem sabe, encontrem “a tal”, aquela que conseguiu ver para além do hipnotizante azul-ou-será-verde, até porque podem estar 100 pessoas numa sala, e 99 não acreditam em ti, mas uma acredita.

Tudo isto para dizer que o pavão é um bocado como aqueles robes em cetim de seda de Mae West ou Jean Harlow, que pareciam não ter fim, que cobriam todo o quarto com as suas plumas de marabu e cobriam também, pelo caminho, todo o sistema nervoso de quem as observava, impedindo o raciocínio de alguma coisa mais eloquente que um “uau”. Também é um bocado como qualquer peça de roupa debruada a penas: desde a década de 20 do século passado que adornar o que nos cobre o corpo com plumas é, ao mesmo tempo, show stopper, jaw dropper e brain popper. Tem muito de glamour de old Hollywood, tem muito de boudoir, muito de fruto proibido, e, por isso, tem muito de ego.

Quem se vestia de ave do paraíso, fazia-o para provocar uma reação. Para acelerar a pulsação, para inebriar, para chocar. Então as penas chegaram aos espetáculos, às boas, às coroas, chegaram às rainhas da noite e a Las Vegas, chegaram aos meandros mais recônditos das caves clandestinas e, por isso, saíram do discurso de Moda. Dissemos que era demasiado espalhafatoso para nós, que tínhamos alergias e tal não dava, talvez para a próxima, tenho de ir andando que amanhã trabalho. As penas continuaram a ligar e nós “new phone, who dis” e elas lá iam outra vez para os seus baús, cheias de pena de si próprias.

Do baú para as passerelles

©Imaxtree e D.R. 

Até que alguma coisa mudou, e quem a mudou foi Miuccia Prada. Claro. Óbvio. Estávamos na semana de Moda para o verão de 2017 e a passerelle da Prada não tinha só penas: tinha um pensamento sobre as implicações sociológicas de debruar algo com penas. Miuccia queria-as para o dia, não para a noite. E tanto as queria que as coseu nas bainhas de saias plissadas, quase colegiais. Nesse outono foi mais longe. Em uniformes claramente feministas, as modelos não agraciavam a passerelle: marchavam, seguras, estoicas, em vestidos cheios de cristais, em sapatos cheios de penas. Não tivemos pena nenhuma, porque percebemos. Nós e todos os outros: J. W. Anderson, Balenciaga, Calvin Klein (Raf Simons cobriu as penas de plástico, como se estivéssemos a observá-las numa placa de petri, ao microscópio) seguiram-na de perto.

“As armas de sedução são sempre as mesmas”, disse Miuccia aos jornalistas, depois do desfile. “Plumas. Lingerie. Quando és uma feminista educada, às vezes rejeitas isto, mas é verdade que estas coisas se mantiveram iguais desde há muitos, muitos anos. Porque é que o desejo está necessariamente ligado a estas coisas?” Porque a sociedade achava que sim, porque nós achávamos que sim. Mas Miuccia mostrou-nos que até as penas podem ser o que queremos, que qualquer que seja o objeto, os símbolos a que está associado podem ser vistos de forma diferente se ajustarmos a luz. Faz isso em todas as coleções, tal como fazia quando era jovem, uma feminista que estudava política, e ia a manifestações marxistas vestida em Saint Laurent da cabeça aos pés.

Desde então, não há uma estação que tenha dado descanso às plumas (e não vai dar, pelo que já podemos ver de Pre-Fall). Casacos cheios delas e cheios de si, carteiras, chapéus, vestidos. Todas as formas e cores e feitios. Para a primavera 2019, o tom desceu. Tornou-se mais subtil, mais caviloso mas, ao mesmo tempo, mais penetrante. Hoje, as penas debruam as bainhas: acessorizam, não roubam o protagonismo.

Em passerelles como a de Marc Jacobs, Valentino, Nº 21, Loewe, Dries Van Noten ou Saint Laurent, surgem no fim das mangas, no fim das golas, no fim das calças. É isso mesmo: surgem no fim. É menos 70s showgirl, mais 90s it-girl – pensemos em Clueless e Never Been Kissed, por exemplo. Porquê? Porque as mulheres já não saem à rua de plumas para roubar olhares. As mulheres saem à rua de plumas porque gostam de plumas e ponto final. Foi a mesma revolução pela qual passaram as lantejoulas e as purpurinas: uma espécie de apropriação, que não foi cultural mas foi de género.

Hoje, as plumas estão nas bainhas da noite e nas bainhas do dia de todas as mulheres que as quiserem, de todas as mulheres que se vestem para si, que se sentem poderosas a descer a avenida com aquele indelével esvoaçar que cria um halo à sua volta, que deixa pelo chão fiapos de um glamour, um rasto que não é de migalhas, é de poder.

Claro que, para algumas mulheres incríveis e iluminadas, sempre foi assim. Lembra-se do momento mítico de Top Hat (1935) em que Ginger Rogers dança Cheek to Cheek com Fred Astaire, naquele vestido que é um autêntico monumento a tudo o que pensamos sobre a sustentável leveza das penas? Esteve para não acontecer. Astaire não queria que Ginger o usasse – as plumas caíam e estavam a sujar-lhe o fato todo. O que é que Ginger fez? Bom, é um bocado spoiler porque sabemos que o vestiu, mas talvez o leitor não saiba que Ginger ameaçou deixar o filme se não usasse aquele vestido (que, nas suas palavras, era lindo, de um azul “como o que encontras nas pinturas de Monet… com miríades de penas de avestruz”). Astaire comeu e calou. Temos pena. 


Artigo originalmente publicado na edição de fevereiro 2019 da Vogue Portugal.

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