Artigo Anterior

Jonathan Anderson fala sobre a primavera/verão 2021 da Loewe

Próximo Artigo

Os 100 anos da Tous em documentário

Notícias 5. 10. 2020

Kenzo Takada: a criatividade e alegria de um pioneiro

by Libby Banks

 

Kenzo Takada, o lendário designer internacionalmente conhecido pela sua marca homónima, morreu este domingo, 04 de outubro de 2020, aos 81 anos. Recordamos agora a sua vida e carreira.

Kenzo Takada © Virgile Guinard

Takada, juntamente com Issey Miyake e Hanae More, fez parte da primeira leva de designers japoneses, na década de 70, a entrar no mundo da Moda parisiense. Conhecido pela sua abordagem inovadora no corte e no uso exuberante de cores e padrões, os seus designs foram inspirados por uma espécie de desejo por viagens, com uma mistura eclética de diferentes estilos e culturas. Um dos primeiros a adotar o modelo de negócios de ready-to-wear, Takada foi também um dos primeiros a reimaginar o desfile de Moda como um espetáculo teatral. 

Nascido em 1939, em Himeji, na região de Kansai, no Japão, Takada era obcecado por design de Moda, passando o seu tempo livre a ler revistas de Moda e a criar vestidos para as bonecas das suas irmãs. O seu pai, um hoteleiro tradicional, não queria que o filho se tornasse num costureiro. Mas quando Takada descobriu que a Bunka Fashion School havia começado a admitir rapazes, foi para Tóquio contra a vontade dos pais. Takada tinha aulas noturnas e ganhava a vida como pintor de cartazes e vendedor de tofu. Seis meses depois, foi admitido na escola. 

Depois de se formar, viajou de barca para a Europa até Marselha e depois, em 1965, fixou-se em Paris. Takada disse mais tarde que as culturas que encontrou pela Ásia, Índia e África tiveram um impacto significativo na sua estética. 

1974 © Getty Images

Em Paris, a Alta-Costura tradicional ainda dominava a indústria. Durante cinco anos, Takada trabalhou como freelance styliste, vendendo sketches para as casas de Couture, e mais tarde inaugurou a sua primeira boutique, Jungle Jap, na Galeria Vivienne, em 1970. O espaço era decorado com murais extravagantes ao estilo Henri Rousseau. Os seus primeiros designs, com a combinação de estampados berrantes e silhuetas tradicionais japoneses, provaram ser revolucionárias. 

“Foi apenas em 1970, quando comecei a minha marca e tive que encontrar uma identidade e fazer algo novo, que percebi que tinha que voltar às minhas raízes,” afirmou o designer à revista W, em 2017. “Comecei por unir as influências japonesas à cultura europeia… E rapidamente fui influenciado por outras culturas, misturando elementos de todo o mundo. Isso era muito novo para o mercado, na época - era uma maneira totalmente nova de fazer as coisas.”

A coleção foi apresentada em Nova Iorque, em 1971. Naquele ano, os seus designs apareceram nas páginas da Vogue US, que declarou que a boutique quirky de Takada - com os seus tent dresses e os padrões estonteantes - estava entre os destinos de compras mais chic da capital francesa. 

A sua estética única de “fantasia folclore em cores pop berrantes” [The Empire Designs Back, de Barbara Vinken, Future Beauty: 30 Years of Japanese Fashion] foi um sucesso para a imprensa especializada e para os jovens dinâmicos da época. Os admiradores eram Grace Jones, Loulou de la Falaise e Jerry Hall. “Kenzo é um dos designers mais criativos do mundo e, felizmente, não se leva a sério”, escreveu a jornalista Bernadine Morris, em 1973. 

 1979 © Getty Images

Os desfiles foram eventos alegres com bailarinos, pintores e performances. Em 1977, o criador preparou um desfile no Studio 54. Grace Jones atoou e Jerry Hall desfilou. Em 1978 e 1979, os desfiles tiveram lugar numa tenda de circo, finalizando com mulheres a montarem cavalos e com o designer a aparecer em cima de um elefante para a ovação final. “A Moda não é para um nicho, é para todas as pessoas”, disse em 1972. “Não deve ser demasiado séria.”

Na década de 80, a Kenzo cresceu exponencialmente. Takada separou-se do seu parceiro de negócios, Gilles Raysse, em 1980, e contratou François Beaufumé como co-gerente. Embora a sua relação com o trabalho fosse, às vezes, difícil, juntos construíram um formidável negócio global. A imagem da marca foi impulsionada, a rede de lojas tornou-se internacional e a Kenzo diversificou-se em perfumes, em objetos de decoração, uma linha masculina, outra de jeans e outra ainda de criança. Os perfumes chegaram à Kenzo em 1988 - muito antes de ser um padrão para as casas de Moda fazê-lo. 

Depois da LVMH ter comprado a Kenzo, em 1993, Takada continuou a desenhar as coleções até se aposentar em 1999. Depois de se ter retirado da marca homónima, a Kenzo ficou a cargo de Gilles Rosier - ex-assistente de Kenzo Takada - depois sucedeu Antonio Marras, e depois dupla Humberto Leon e Carol Lim assumiu a liderança da marca em 2011, dando um upgrade jovial à marca. Takada tornou-se amigo de Lim e Leon, e muitas vezes era visto na primeira fila dos desfiles da Kenzo. 

1999 © Getty Images

“Esperamos ter injetato na marca um espírito jovem, diversão e atrevimento,” disse Leon à Vogue britânica em 2012. “Mas também queremos respeitar e preservar as tradições da maison, como a importância dos prints, o senso mundano e as viagens, que é intrínseco em todas as coleções da história da Kenzo.”

Depois de se ter aposentado, Takada não parou de criar. Os projetos incluíram Gokan Kobo, uma marca de acessórios domésticos premium, e, em 2016, a Avon anunciou uma nova parceria com Takada para criar uma linha de perfumes. A Kenzo Takada Collection, uma colaboração com a marca de design francesa Roche Bobois, foi lançada no verão de 2017. No ano de 2013, Takada tornou-se presidente da Asian Couture Foundation e foi homenageado com o prémio carreira na edição de 2017 dos Fashion Editors’ Club of Japan Awards. 

“Tenho algumas saudades dos desfiles e da energia por detrás deles”, confessou o designer a um jornalista, num das últimas entrevistas que deu em 2017. “O que mais sinto falta é das pessoas que trabalham com Moda. Têm muita fantasia, são realmente criativos e alegres.”

Criativo e alegre é exatamente como Kenzo Takada será lembrado.