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Tendências 9. 8. 2018

Fama Show

by Patrícia Domingues

 

Porque adoramos celebridades? E como é que Kim Kardashian West se tornou um fenómeno maior do que as suas próprias curvas? Será que, secretamente, vivemos todos para rebentar com a Internet? Pegámos em todas as dúvidas anónimas e fomos falar com experts (mais ou menos famosos) na matéria. Like, realizing stuff.

Tudo começa com um sonho: um dia o mundo inteiro vai saber os seus nomes. Mas para a High School of Performing Arts em Nova Iorque não basta ser talentoso – tem de se ser especial, trabalhar a dobrar, usar perneiras e transformar cada hora de almoço num hot lunch. Vou assumir que todos vimos o filme e resumi-lo a uma linha: Fame retrata a luta por reconhecimento (e não só) de sete jovens personagens principais. Durante duas horas e 15 minutos, o equivalente a quatro anos em idade de ficção, eles cantaram, dançaram, perderam o medo do palco e do amor e esfalfaram-se para apanhar a Lua com a mão e aprender a voar só para nos lembrarmos do nome deles (remember, remember, remember, remember). E há alguém que se lembre? Culpe os anos 80, a falta de memória, os outros mil e um hits que lhes sucederam.

E agora pense: será que se Doris, Ralph, Coco, Leroy, Montgomery, Bruno e Lisa tivessem nascido numa era em que a fama pode estar à distância de um telemóvel estaríamos a ver um filme completamente diferente [o remake de 2009 não conta]? Fast forward 38 anos. Leroy é um dos bailarinos principais da tour de Beyoncé depois de Queen Bee, herself, ter ficado obcecada pela sua reinterpretação de Single Ladies publicada no seu canal de YouTube. Doris é a 14.ª razão em 13 Reasons Why, Ralphy tem todas as noites o seu The late late late show e Hilary dança com a Sia com uma peruca cor-de-rosa. Bruno tem uma música há três semanas no top do Spotify em duo com Cardi B e Coco é a estrela de Cocolicious, o seu próprio reality show que rivaliza com as Kardashians. Montgomery tornou-se stylist e está atrás da página de Instagram Diet Prada (nós sabíamos!). É assim tão mais fácil ser famoso desde que inventaram o 4G ou estamos só a fazer filmes? A Internet ofereceu-nos as ferramentas de exposição mais democráticas de sempre, mas por termos todos wi-fi temos logo um quadradinho reservado no passeio da fama? Será que depois do vídeo viral de Leroy não teríamos continuado as nossas vidas na nossa lista de reprodução automática para um outro sucesso de gatinhos fofinhos? Nostradamus olhou para o futuro e viu pragas, terramotos, guerras. Em 1968, Andy Warhol foi mais preciso: “No futuro, toda a gente vai ser famosa por 15 minutos”. Algures nos anos 90, alguém substituiu a profecia: na Internet, toda a gente é famosa para 15 pessoas. É mais fácil do que nunca tornarmo-nos famosos e mais difícil definir o que fama quer realmente dizer. Ou quanto tempo dura.

Nos últimos anos, a nossa obsessão cultural com as celebridades cresceu mais rápido do que os lábios de Kylie Jenner. A proximidade ajuda. Podemos enviar-lhes instadirects, ver o que comeram ao pequeno-almoço, entrar na sala de partos e no meio disto tudo também descobrimos outra coisa muito interessante: afinal, as celebridades são humanas.

 

E se as celebridades são humanas, os humanos também podem ser celebridades? Uau, fascinante. Quase ao mesmo tempo já tinham chegado os reality shows e Paris Hilton e percebemos também que não precisávamos de ser supertalentosos (não precisamos de saber dividir o lixo sequer) para que toda a gente soubesse o nosso nome (remember my name, fame! Desculpem, é catchy). Paris, que era conhecida por ser rica mas não propriamente uma celeb, fez uma cassete de sexo que conseguiu encontrar o seu caminho na era Internet pré-YouTube. De repente tinha um reality show com a sua então melhor amiga Nicole, onde mostrava a sua (not so) Simple Life e uma música, um perfume, um resort, lojas, uma linha de roupa infantil e todo o merchandising “sou famosa”, corroendo até às entranhas as regras pré-estabelecidas do que queria dizer celebridade. O caminho para o clã Kardashian estava feito (Paris diz que foi ela que “criou” Kim). Numa entrevista ao TMZ, em 2013, Hilton explicava que nunca tinha feito um cêntimo com a sex tape. E também “nunca tive a intenção de torná-la uma aventura comercial” – o que parece ser um elo de ligação entre amigas, pois Kim repetiu a mesma cassete (de sexo e de justificação) quando, anos mais tarde, foi confrontada com a sua primeira aparição de cariz sexual. “Não sou pobre, não sou desesperada, nunca tentaria vender uma sex tape. Iria humilhar-me e à minha família”, disse em 2008.

Houve quem não comprasse as palavras da, então, socialite. João Belo, CEO da Naughty Boys, publicist da GQ e da Vogue Portugal e representante de nomes como Catarina Furtado, não é um deles. “Não acredito que tenha sido pensado”, conta.

“Os grandes sucessos não são pensados. A ingenuidade de ser diferente dos demais, a verdade. Era impossível a Kim Kardashian saber a dimensão que aquilo ia ter. Sabia que ia criar polémica, mas ela nem sabe que está a pensar diferente. Ou é natural e genuíno e está na pele ou se quero fazer igual a alguém já não resulta. Quando vêm ter comigo a dizer ‘quero ser assim’ eu digo logo ‘afasta-te disso’.”

 

É como ser cool – a partir do momento em que nos esforçamos para ser, já fomos. E um talento que tanto Paris como Kim definitivamente têm é a sua habilidade natural para trabalhar com os media e diretamente connosco e manterem a sua imagem no centro da spotlight (já diz o velho, mas sempre atual, ditado: all press is good press). Se Madonna era a versão Marketing 1.0 e Paris 2.0, Kim rebentou com a escala (todos os marketing managers lhe deviam prestar atenção). É que o difícil nunca foi receber atenção – é o que vais fazer com ela assim que a recebes (e torná-la rentável). “Numa altura em que todos queremos olhar para o buraco da fechadura, a Kim Kardashian expos a família toda”, diz João Belo. Exteriorizando a Carrie Bradshaw que há em mim, I couldn’t help but wonder: afinal, quem tornou Kim Kardashian West famosa não fomos nós? Podemos achá-la assim ‘tão ridícula’ se depois 113 milhões de nós a seguem no Instagram, se o perfume dela esgota sem sabermos a que cheira, se o seu programa de televisão está no ar há mais de 10 anos? As celebridades acabam por “servir de modelo face ao papel social que desempenham”, diz David Tavares, sociólogo. Dai entrarmos em mindfuck quando tentamos engavetar Kim nas nossas prateleiras sociais – se não tem uma voz incrível, se não descobriu a cura para a sida, então por que raio gostamos dela?

Não precisas de um skill especial, basta teres empatia e personalidade que consigas cativar os que te rodeiam. E isso pode ser na escola, no teu bairro ou numa escala global, como a da Kim Kardashian”, diz João Belo. “A família Jenner/Kardashian no geral é, a meu ver, um excelente exemplo de Personal Branding e é importante reconhecer essa capacidade”, responde Inês Mendes da Silva, brands & celebrities manager, CEO e diretora executiva da Notable, quando lhe fazemos a pergunta do século: afinal, Kim Kardashian é ou não famous for no reason? “Falamos de um conjunto de pessoas que partilham as suas vidas, que cresceram em frente ao público e cuja ‘estrela principal’, Kim Kardashian, alcançou a dita fama por causa de um escândalo sexual. Não podemos, no entanto, esquecer que foi uma pessoa que assumiu e se reinventou de forma sustentada e conquistou áreas tão diversas quanto o digital, a moda, a beleza, entre outros. Por esse motivo, por ter quebrado uma série de barreiras em várias indústrias, acaba por ser um caso de estudo no que toca a PR, Branding e Marketing e não deve ser de todo menosprezada.”

A primeira vez que Kim Kardashian West #breaktheinternet foi com a capa da Paper. A segunda foi agora, quando surgiu a notícia de que ia receber o primeiro prémio Infuencer Award de uma das instituições de Moda mais respeitadas no mundo, o Council of Fashion Designers of America (CFDA). Ken Downing, diretor de Moda da Neiman Marcus, disse que ninguém o merecia mais. “Ela certamente virou o mundo da cabeça para baixo em formas muito diferentes” (a começar por receber prémios de Moda: “Não sei como estou a receber este prémio quando estou nua a maior parte do tempo”, brincou Kim no seu discurso de aceitação). Houve quem se risse. Quem ficasse furioso. Quem aplaudisse. Quem ficasse completamente indiferente. Ninguém ficou clueless: Kim Kardashian West é como uma entidade omnipresente. Para onde quer que nos viremos, lá está ela ou, no mínimo, algum membro da sua família. A sua mãe sabe quem ela é, o seu primo mais novo também, o Presidente, a professora do seu filho. Que atire um lip kit quem nunca tiver visto meia hora do programa dela, quem nunca tenha comentado um dos seus 13.489 outfits, quem nunca lhe invejou a forma como o cabelo cai.

“Até aqueles que veem a sua trajetória na fama como um sintoma de tudo o que está mal no mundo e os que assumem que ela é estúpida, que alegam algum tipo de superioridade moral ou intelectual, continuam a falar sobre ela. E é absolutamente fascinante”, lê-se num artigo do The Guardian que faz parte de uma série de respostas às perguntas mais feitas no Google.

 

Porque é que Kim Kardashian é famosa? Nós sabemos a resposta, e parece que é mesmo isso que nos irrita tanto. Goste-se ou não, KKW é uma mulher de negócios e uma influencer. E é damn good nisso. Um exemplo: há sete anos, quando a sua publicist lhe perguntou os seus objetivos, Kim disse que só queria estar na capa de uma revista de Moda. “Agora vamos traçar objetivos realísticos porque isso nunca vai acontecer”, respondeu-lhe. Por isso, claro que Kim lhe enviou a sua capa da Vogue quando saiu, e autografada. São tempos malucos. E por um lado, ainda bem. “A Internet, especialmente as redes sociais, aproximaram as pessoas de personalidades que eram, até então, distantes e inalcançáveis. Acabou também por quebrar barreiras, tantos territoriais, como temporais, e abriu portas para que totais desconhecidos se transformassem nas chamadas ‘celebridades da Internet’. Não é por acaso que hoje vemos figuras como Chiara Ferragni em campanhas de megamarcas e multidões a encher meet&greets com YouTubers um pouco por todo o mundo e influencers com livros que quebram recordes de vendas. Este fenómeno acaba por simbolizar o realizar de uma fantasia, que é cada vez mais o objetivo”, explica Inês. Num estudo feito pelo The Washington Post a miúdos entre os 14 e os 18 anos, 31% foram além do facto de apenas quererem ser famosos – eles acham que isso é “muito provável” de acontecer. As raparigas de um grupo estudado por Jake Halpern, autor de Fame Junkies, disseram que preferiam ser assistentes de uma pessoa famosa do que o CEO de uma megaempresa. Como assim?

"Há uma sedução generalizada pela fama e pela visibilidade e isso é transversal aos diferentes grupos sociais”, afirma David Tavares, sociólogo.

 

Porque é que queremos ser famosos? Porque algures instituímos – construímos socialmente – que a fama é uma coisa boa, apetecível, cheia de milhões na conta, uma pele fantástica, zero preocupações. E depois, e além de tudo isso, existe uma explicação lógica. Todos queremos que gostem de nós. “A necessidade que alguém tem de ser famoso, na maioria dos casos, tem por base uma dependência de reconhecimento eterno”, diz Fernando Mesquita, psicólogo. “Ou seja, o pensamento típico destas pessoas é algo como ‘não é suficiente eu pensar que fiz bem, preciso da aprovação dos outros para saber que fiz bem’.” Vistas bem as coisas, já todos tivemos os nossos mini-momentos de ‘fama’. Quando uma fotografia no Instagram recebe uma quantidade exorbitante de likes, naquela peça da escola em que fomos protagonistas, quando num dia normal toda a gente no trabalho decide elogiar‑nos a roupa. O perigo acontece quando passamos a alimentarmo-nos disso. Viver para aplausos, como Lady Gaga, tem os seus riscos, um deles a perda de identidade. “Vive-se de momentos de alegria efémera, quando surge mais um like, numa das publicações, ou de tristeza, quando há ‘silêncio’, do ‘outro lado’. Algumas pessoas, na tentativa de conquistarem mais fãs, podem começar a negar o seu próprio self, para ‘criarem’ alguém mais ‘valorizado’, pelos outros. Deixam de gostar de si mesmas, e fazem depender a sua própria felicidade de terceiros. Isso pode ser o princípio de outros problemas psicológicos como a depressão”, diz o psicólogo.

Já todos vimos alguém ir um pouco “longe demais” por um bocadinho de atenção. Na era da reality TV, do YouTube e das redes sociais, as pessoas são capazes de performarem atos ultrajantes em frente à camara em troca de likes. Gilles Lipovetsky chamou-lhe a era do vazio, pois as pessoas não têm nada para mostrar e funcionam como um ícone a ser seguido. É uma alimentação do próprio ego. Carrie Bradshaw está de volta, and I couldn’t help but wonder: vivemos uma era narcisista?

“Não sei se poderemos falar de uma era narcisista”, diz Fernando. “Quem sabe até pode ser o contrário. Na minha opinião, vivemos numa época em que existe uma necessidade enorme do reconhecimento externo, porque não se aprendeu a reconhecer o próprio valor. Por isso, muitas pessoas só se sentem valorizadas quando os outros lhes dizem que são ‘fantásticas e lindas’, ou quando fazem likes, nas suas redes sociais.”

 

“Vivemos numa era de predomínio de valores individualistas”, explica David Tavares. “A todos os níveis, como por exemplo, olhando para trás, ninguém vivia sem uma organização familiar e hoje é possível. Está tudo centrado no indivíduo. Talvez o narcisismo no limite constitua uma exacerbação do individualismo.” Olhamos todos para o umbigo, ambicionando ao mesmo tempo que seja o mais lindo, espetacular e cool umbigo aos olhos dos outros.

E sabe quem mais é exatamente como nós? Kim Kardashian West.

*Artigo originalmente publicado na Vogue Portugal de julho 2018.

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