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"És demasiado velha para usar um biquíni," disse ninguém em 2019

by Patrícia Domingues

 

Diz-me quantos anos tens, dir-te-ei quem és, mandam dizer as normas sociais. Só que não. Olhamos para uma premissa datada, à luz do presente. 

© Fotografia de Léa Wormsbach. Realização de Viviane Hausstein.

Era sexta-feira à noite quando eu e um amigo decidimos transformar a nossa letargia social num desafio ao estilo Quem é Quem. Nunca chegámos a dar um nome específico ao jogo, mas posso resumi-lo a uma competição interna cujo vencedor seria o que mais se aparentasse com um dos nossos avós. "Eu nunca saio ao fim de semana" — cinco pontos. "Eu vou para a cama antes das 22h" — nove pontos. "Não percebo nada das novas atualizações do Insta" — sete pontos. Estavamos na reta final dos 20 e o nosso plano perfeito de um serão que antecede o fim de semana transformou-se num passado no sossego do sofá. Sem questões sobre se estamos demasiado overdressed se formos de lantejoulas para o Lux, sem chatices sobre onde deixar o carro e como o vamos trazer para casa, sem pressões para nos multiplicar-mos em três e conseguirmos estar com a Joana, a Ana e o Tiago em três pontos opostos da cidade de Lisboa ainda a tempo de apanhar o Jamaica aberto (espero que esta referência esteja certa e o Jamaica ainda esteja aberto e que seja cool ou então acabei de ganhar o desafio do Clube dos Velhotes neste preciso momento e vou beber um copinho de Baileys).

“Ai, desculpa, mas estou velha para isto.”

Bom, a brincadeira durou tanto quanto conseguimos ficar acordados num sofá colados ao aquecedor e com uma mantinha a cobrir-nos os pés, mas agora que penso melhor sobre o assunto há aqui uma série de lições a retirar. 1. Somos ridículos. 2. Porque é que cada vez mais conheço mais pessoas de 20 e poucos anos que não param de dizer que “estão cansadas” e que preferem trocar o programa jantar + saída por uma noite a jogar Bingo ou a não fazer absolutamente nada? 3. Porque é que nos sentimos pressionados a fazer o que quer que seja que nos dizem que temos de fazer quando temos determinada idade, mesmo que não nos apeteça? 4. Porque é que automaticamente nos intitulamos “velhos” se cada vez mais conheço pessoas bastante mais velhas do que eu com vidas muuuuito mais agitadas (isto é, dentro dos parâmetros de “novo”) e, por último, 5. Porque é que quando assumimos que determinado comportamento está fora do parâmetro do que é “fixe” (ainda se usa esta palavra?) nos intitulamos velhos, como se isso fosse uma coisa má? Já todos o dissemos, já todos o pensámos, já todos o berrámos enquanto éramos esmagadas por miúdos de 15 anos durante o concerto dos Arctic Monkeys no último Nos Alive: “Ai, desculpa, mas estou velha para isto.” Ao mesmo tempo, também nos apropriamos da palavra como se nos desse alguma superioridade moral, como se já tivéssemos passado por muito na vida para compreendermos comportamentos que tivemos exatamente há 15 anos, quando tudo o que queríamos era ser levados a sério e toda a gente nos dizia “és demasiado nova para”.

A idade é só um número, mas eu nunca fui boa com contas e talvez por isso ande com dificuldade nos cálculos mentais. Cheguei aos 30, o que significa que “sou velha” para determinadas coisas e “nova” para outras. Para a maioria das pessoas que me conhece, por exemplo, já “tenho idade” para ser mãe, só que o meu relógio biológico está noutro fuso horário. Já Britney nos cantava, I’m not a girl not yet a woman, sobre os dilemas da não idade. A somar às ideias preconcebidas sobre tudo o que devíamos fazer com a nossa idade (“a sério, olha que o tempo não dura para sempre”), os velhos estão a ficar cada vez mais velhos, os novos inventam coisas como o Facebook aos 19 anos, e nenhuma das duas idades parece querer assentar ou entregar as rédeas da sua superioridade. Andamos há que tempos a apregoar o regresso às origens, só vestimos roupa vintage e classificamos comida boa como a que lembra a da nossa avó, de tal forma que, à primeira oportunidade, atiramos com um “estou velha para isso” e caso arrumado. A esperança de vida é cada vez mais longa, e nós caminhamos para velhos, mas ainda não estamos lá. E se estivermos, devemos enfiar a carapuça feita em tricô das normas impostas e seguir aquilo que a sociedade definiu para a nossa idade? Se somos nós os que envelhecemos, não somos nós também a fazer a lista de regras do que se “adequa” a cada idade? Os millennials acham que somos velhos a partir dos 59, a geração X aos 65 e os boomers e os silenciosos concordam nos 73. Já quando questionados sobre o “auge” da vida responderam 36, 47, 50 e 52, respetivamente. Os 70 são os novos 30, os 30 são os novos 70, ou cada qual é como é? É confuso este novo mundo em que vivemos, onde o preconceito parece ser das poucas coisas que não muda com os tempos, só com as vontades. 

Enquanto estou no sofá a pensar sobre o assunto, Lila Sousa Costa responde-me à mensagem sobre se “podemos falar hoje para o artigo?” com um: “Estou a arranjar-me para ir jantar, tento ligar-te amanhã.” Há alguns dias que tento falar com ela, mas dizer que a sua agenda social é preenchida é um eufemismo. Conheci a Lila há cerca de nove anos atrás, quando comecei a estagiar na Vogue, era ela então editora de Beleza na revista Máxima. Loira, de estatura pequena mas nem por isso menos visível, é daquelas pessoas que facilmente causa boa impressão. Divertida, agitada, enérgica, “a Lila é uma mente aberta, sem nenhum tipo de preconceito”, diz Sofia Lucas, diretora da Vogue, que a conhece há cerca de 20 anos e que foi uma das convidadas da sua festa de 50 anos, uma animada celebração com direito a stripper. Maria Silva conheceu a Lila através do trabalho, há quase 12 anos. “Foi uma das pessoas mais acolhedoras, partilhou alguns sábios conselhos, e em viagens fomos estreitando esta amizade, que não seria muito comum entre uma pessoa de 22 anos e uma nos seus sessentas.” Maria apressa-se a dizer que achar que a idade é um estado de espírito é um lugar-comum, que neste caso faz todo o sentido. “A Lila tinha – e continua a ter – uma mente mais aberta, uma gargalhada mais genuína e mais palavras amigas do que muitas pessoas da minha idade. E tem a vantagem de ter mais experiência, razão pela qual talvez consiga falar com ela sobre tudo. Sem tabus.” Quis o destino que dois anos mais tarde se sentassem lado a lado e, apesar de eventualmente deixarem de trabalhar juntas, a amizade solidificou-se e hoje até são vizinhas. “Continua a ter uma vida social mais ativa do que muitos adolescentes, adora conhecer pessoas novas, é uma anfitriã maravilhosa, e adepta de um bom pé de dança. No verão passado “arrastou-me” para a fila da frente do concerto dos The National no Nos Alive. Quando o Matt Berninger saltou do palco para ir buscar uma cerveja ao bar e a confusão se instalou, ela agarrou-me na mão para irmos atrás dele. E já comprou o passe dos três dias para 2019. Este é apenas um exemplo da energia que ela tem. É uma pessoa extraordinária.” Parece divertida, não parece? Há só mais uma coisa que ainda não disse sobre a Lila. Ela tem mais de 70 anos.  

"Um dos estereótipos mais comuns em todo o mundo e que surge  de forma muito subtil é a ideia de que as pessoas idosas são muito simpáticas, mas pouco competentes."

Teria mudado alguma coisa se soubesse a idade da Lila antes de a “conhecer”? Provavelmente, se começasse esta descrição por um número teríamos imaginado alguém ligeiramente mais... calmo? Caseiro? Diferente? “As crianças andam na escola, as pessoas de meia-idade trabalham e as pessoas idosas estão reformadas”, diz Sibila Marques, psicóloga social, investigadora e especialista em questões de envelhecimento, explicando como a idade é uma das principais organizadoras da nossa sociedade. Sabermos a idade de alguém é inerente ao modo como funcionamos, torna a nossa navegação no mundo mais fácil e permite-nos ajustar o modo como agimos perante ela, mas também pode ser limitador e ativar estereótipos, “colocando todos no mesmo saco, o que se torna injusto porque, sobretudo no grupo das pessoas mais velhas, a variabilidade é muito grande”. Para a psicóloga, neste momento tendemos a associar a juventude a aspetos muito mais positivos e a velhice ao oposto. O que não quer dizer que isto de ser preconceituoso com a idade não seja um processo democrático. “Um dos estereótipos mais comuns em todo o mundo e que surge  de forma muito subtil é a ideia de que as pessoas idosas são muito simpáticas, mas pouco competentes”, conta Sibila. “Por sua vez, os mais novos tendem a ser associados muitas vezes com traços como irresponsáveis e também de incompetência na realização de algumas tarefas. Estes traços minam, muitas vezes, as suas possibilidades de serem recrutados para algumas posições ou ascenderem a lugares de chefia no meio profissional.” Uma pequena investigação entre o grupo de amigas da minha irmã de 18 anos confirma que (não) olhamos a idades: falam-me de como são postas de parte nas discussões familiares, dos comentários sobre o uso de maquilhagem, de não serem consideradas para trabalhos por acharem que são irresponsáveis e “da maneira como pessoas ou funcionários mais velhos nos falam porque nunca têm o mesmo respeito e consideração por sermos mais novas, que na minha opinião deveriam ter porque somos todos iguais e idade não define educação”. [O grupo aplaude em emojis.] 

Helena Vasconcelos, escritora a caminho dos 70, nasceu em Lisboa e cresceu na Índia, em Goa, e Moçambique, “onde os velhos (africanos) são infinitamente respeitados”, diz. “Em Portugal houve durante muitos anos um olhar horrendo e desprezível sobre as pessoas de idade. Os velhos eram sujos, porcos e maus, desdentados e abandonados.” Para Helena, atenta às questões sociais, há ignorância sobre as várias fases da vida, “os mais novos não têm a perceção de que vão envelhecer e os mais velhos parece que se esque- cem de que foram novos. O resto da população – meia idade – não nos compreende! Existe pouca empatia em relação às pessoas velhas. Como se tivessem desaparecido como seres autónomos, atuantes.” Vivemos sedentos de novidade, valorizamos um estado de mudança constante e não descansamos enquanto não encontrarmos a fonte da juventude, tudo resquícios do nosso eterno pavor da ideia de sermos todos comuns mortais (não Helena, que a cada frase, nos empresta novos lemas de vida: “a idade é apenas uma bela viagem” e “estou-me nas tintas para a morte, ando demasiado ocupada a viver” são alguns deles). Mas enquanto fazemos os anos durarem mais (e com melhor aspeto) continuamos a ser preconceituosos em relação à maior idade – só estranho porque, se tudo correr bem, caminhamos para lá. “A Organização Mundial da Saúde está prestes a lançar uma campanha global contra o Idadismo”, revela Sibila. “Precisamos de começar a pensar a sério neste tema, quer em termos internacionais, quer em Portugal, se queremos construir uma sociedade verdadeiramente justa para todas as idades.” Esta motivação para não se ser preconceituoso pode ser treinada, garante a especialista (é que há outra coisa boa em relação à idade: nunca é tarde demais para mudarmos), ou então berrada aos quatro cantos do mundo, como fez Alexandra Shulman. “Desafio alguém a dizer que devia haver limite de idade para usar um biquíni”, disse a antiga diretora da Vogue inglesa de biquíni vestido até à cova (palavras da própria). E então alguém se acusa? Ninguém? Ah, claro, a verdade hoje em dia só sai das bocas da Internet. 

“Acredito mesmo que somos nós que vestimos a roupa e não o contrário, é a atitude de cada um que valoriza ou desvaloriza a peça. A roupa não tem idade." Cláudia Barros

O que não usar se for uma mulher com mais de 50 anos.” “Como se vestir aos 30 – 15 ideias de styling.” “Como fazer com que pareça mais nova através da roupa.” São estes alguns dos highlights do Google se decidir escrever “idade” e “estilo” na mesma frase. Bolas, adoro o que faço, mas tenho de reconhecer que o meu métier consegue ser muito antiquado para algo que em parte se move pela mudança, pela tendência, pelo novo, pelo so last season. Recuso-me a assumir que o mundo da Moda olha para o estilo do ponto de vista age appropriate (2001 ligou e quer essa expressão de volta) e faço a pergunta à minha lista de contactos mais próxima. Ana Caracol, Cláudia Barros, Nelly Gonçalves e Ruben de Sá Osório. Job description: stylists. Ser velho/novo demais para vestir determinada peça de roupa é uma afirmação real ou não? Quero saber o que acham e porquê, envio um email conjunto. “Não”, responde prontamente Cláudia. “Acredito mesmo que somos nós que vestimos a roupa e não o contrário, é a atitude de cada um que valoriza ou desvaloriza a peça. A roupa não tem idade.” Ruben diz que é uma afirmação baseada em “estigmas, tabus e preconceitos” e que “é errado achar ou determinar o que certa pessoa deve vestir, visto que somos todos seres singulares com maneiras de ser diferentes, ideias distintas e com diferentes maneiras de comunicar”. Acrescenta ainda que quando utilizamos a Moda como argumento para dizer o que alguém deve vestir ou não, estamos a matar toda a Arte e a parte criativa que ela contém, “diria que sem isso a Moda seria desinteressante e aborrecida, uma área sem sentimentos e provavelmente sem futuro. Não se é velho nem novo demais para criar, experimentar e expressar através da Moda.”

Nelly questiona primeiro para depois dar o seu veredicto. Qual é a idade certa para usar minissaia? Ou para deixar de ter cabelos compridos? “A sociedade sempre viu a mulher com mais idade como alguém mais maternal ou uma mulher que se tornou avó. Com roupa 'mais prática'. Nunca imaginou essa mulher mais sedutora e segura da sua feminidade. Quando se veste uma roupa com confiança, evita-se observações negativas. Se ela for coerente por dentro e por fora, se gosta desse estilo, tudo é permitido.”Tem a ver com conforto e com verdade. Ana Caracol escreve que “o mundo seria muito mais divertido e desprovido de preconceitos se a idade fosse interpretada como um número que está no BI, que vai aumentando de ano para ano mas acrescentando ao mesmo tempo know‐how para nos despirmos desses preconceitos de ser velho ou novo para... tudo depende do que nos faz sentir bem, de autoconfiança e atitude, estamos enquadrados sim, no que nos apetece e nos faz sentir a roupa como uma segunda pele”.

“O mundo seria muito mais divertido e desprovido de preconceitos se a idade fosse interpretada como um número que está no BI." Ana Caracol

Gosta de se ver com essa silhueta? Essa cor anima-a? Sente-se fabulosa nesse padrão-leopardo? A Moda, como tudo o resto, deveria ser sobre nós próprios, não sobre o que os outros pensam. A boa notícia é que esse pensamento parece ser uma das vantagens da idade. Quando as académicas Julia Twigg e Shinobu Majima conduziram uma pesquisa sobre Clothing and Age para a Universidade de Kent descobriram uma “inesperada tendência para as mulheres dos 55 aos 74 serem as que gastam a maior proporção do seu ordenado em roupa, seguidas da faixa de mulheres mais jovens do estudo”. Por outras palavras, a Moda segue o mesmo padrão de qualquer outra obsessão, perdão, paixão: começamos jovens, entusiasmados, com os pés fora do chão, voltamos a assentá-los quando começamos a ter contas para pagar e os filhos roubam a nossa atenção, e regressamos, anos mais tarde, mais fortes do que nunca, mesmo que o mundo ache que estamos mais fracos por fora. E foi assim que também descobri que, segundo este mesmo estudo, a minha idade mental deve andar a rondar os 78 anos (muito embora um quiz online me tenha respondido que me visto como se tivesse 40) e, portanto, amigo, ganhei o jogo do clube dos velhinhos – e, graças à geração maravilhosa que criou o MB Way, nem sequer tive de sair do sofá. 

Artigo originalmente publicado na edição de janeiro de 2019 da Vogue Portugal.
Editorial de Moda publicado originalmente a edição de janeiro 209 da Vogue Portugal, fotografado por Léa Wormsbach, com realização de Vivienne Hausstein.

 

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