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Curiosidades 12. 12. 2019

A união faz a força: as duplas de sucesso da indústria da Moda

by Ana Murcho

 

Há uma equação na Moda que transcende as regras matemáticas: 1+1= 3. Por outras palavras, quando duas mentes criativas se juntam, o resultado é sempre muito melhor do que a existência solitária de um só génio. A prova está nestas duplas, nestes encontros de almas, que, apesar das partidas do destino, nunca deixaram de procurar a forma mais original de fazer coisas (francamente) belas. 

© Derek Hudson /Getty Images

“A felicidade só é verdadeira quando partilhada”, escreveu no seu diário Christopher McCandless, também conhecido como Alexander Supertramp, que o cinema tornou famoso através do filme Into The Wild (2007). Mais do que um testemunho sentido, este é um grito de alerta perante a imensidão do mundo vivido a sós - em 1992, McCandless foi encontrado morto dentro de um autocarro abandonado no Denali National Park and Preserve, no Alasca (Estados Unidos), depois de dois anos a viajar sozinho pela região, com pouca comida e quase nenhum equipamento como backup. A conclusão a que chegou, demasiado tarde, quando a fúria que o impeliu a abandonar a sociedade já tinha sido substituída pela saudade do abraço de um semelhante, permanece como um sinal de alerta para a vida acelerada que levamos. Numa indústria como a Moda, em que as novidades se reciclam mais depressa que as estações do ano, seria de esperar que as grandes histórias de sucesso se tecessem assim, a uma só mão - por ego, por medo, por necessidade de silêncio e isolamento... No entanto, há parcerias (duetos?) que provam exatamente o contrário.

Conhecemo-los de nome. Uns mais do que outros, é certo, mas intuitivamente sabemos quem são. Conhecemo-los das revistas que colecionamos desde há muito, dos sites que nos habituámos a visitar, dia após dia. Somos capazes de identificá-los em fotografias de tom amarelado e em imagens com hashtags de teor millennial. Os seus nomes representam tendências, movimentos, cores, posições políticas, texturas, momentos. Yves Saint Laurent e Pierre Bergé. Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti. Rick Owens e Michèle Lamy. Viktor Horsting e Rolf Snoeren. Miuccia Prada e Manuela Pavesi. Luís Sanchez e João Branco. Marta Marques e Paulo Almeida. E tantos outros.

São os mitos de muitas gerações. O seu trabalho, no passado e no presente, é a duas vozes. É a soma de muitas dores, de muitas noites, de muitas crenças. Eles (elas) descobriram um segredo que muitos de nós ainda não alcançámos: nada se ganha da solidão ou da discórdia; é do diálogo que nascem os vestidos de Alta-Costura que ilustram os contos de fadas, os reais e os imaginados. Estas são algumas das duplas que acabam com a ideia do génio isolado que luta contra tudo e todos. Vale a pena carregar no botão de pausa e repensar o poder imenso das colaborações - ou, como os ingleses gostam de lhes chamar, dos outstanding fashion duos. Aqui, o todo é francamente maior do que a soma das suas partes.

“No fim de contas, tudo se resume à necessidade que uma pessoa tem da outra. Yves e eu nunca nos separámos." Pierre Bergé

A Moda não esconde muitas estórias de amor, ou, pelo menos, o grande público não está a par delas, mas a relação de 50 anos entre Yves Saint Laurent e o seu parceiro de vida e de negócios, Pierre Bergé, assume-se como a mais maravilhosa de todas. A união do génio atormentado e do businessman frio e calculista poderia ter saído da pena de um escritor renascentista, mas passou-se aqui, nos corredores da indústria mais glamorosa do mundo. Com o tempo, a cultura pop apoderou-se dos detalhes deste romance invulgar, e insistiu em partilhar as datas, e os pormenores, que o transformam numa história épica. E real. Que começa assim, tanto quanto sabemos: cruzaram-se pela primeira vez em Paris, em 1958. Yves tinha 22 anos e era diretor criativo na Dior; Bergé, seis anos mais velho, assistia ao desfile da maison. Foi um coup de foudre imediato.

“Ele era um rapaz estranho, tímido... Fazia-me lembrar um sacerdote, muito sério, muito nervoso”, confessou décadas depois Bergé, que ao longo do relacionamento assumiu um papel protetor que ultrapassa as barreiras de uma partnership vulgar - foi amante, companheiro, guarda-costas, conselheiro, financial advisor, e tudo quanto alguém que nos completa pode, eventualmente, ser. Esse foi o primeiro olhar. No entanto, só se conheceram dias depois, a três de fevereiro, num jantar orquestrado pela diretora da edição francesa da Harper’s Bazaar, Marie-Louise Bousquet, no famoso restaurante Cloche d’Or - onde estava igualmente Bernard Buffet, à época companheiro de Bergé. Avizinhava-se o fim de um ciclo e o princípio de outro. “Deixei-o para estar com Yves, com quem vivi por 50 anos... Como é que fui capaz de mudar num instante? Como consegui esquecer, riscar com um único golpe, os oito anos que tinha passado com Bernard? E de repente o inesperado aconteceu. Talvez esse inesperado seja amor à primeira vista.”

Num número dedicado a almas gémeas, seria irrelevante esmiuçar os humores de Yves e as birras de Bergé, relatadas até à exaustão em livros de série B que ignoram a complexidade que significa a simbiose de duas... almas. Foi esse entendimento inexplicável que trouxe espaço para que o designer criasse peças que haveriam de revolucionar a Moda, como o Le Smoking ou o safari jacket. “No fim de contas, tudo se resume à necessidade que uma pessoa tem da outra. Yves e eu nunca nos separámos [apesar dos rumores que apontavam o contrário]. Vivemos separadamente, mas nunca nos separámos.” Entre a criatividade de um e a racionalidade de outro, dava-se uma combustão que fazia o mundo girar de forma mais ou menos (im)perfeita. “Ele era maníaco-depressivo, absolutamente. Ele era maníaco, exatamente o que a palavra significa, maníaco e depressivo. Isso significa períodos em que fazia todo o tipo de coisas, louco de felicidade e, no dia seguinte, era escuridão. Foi a depressão que o levou ao alcoolismo e depois um pouco às drogas. Voilà.” Assim contou Pierre Bergé ao jornal The New York Times, em maio de 2011, aquando da estreia do documentário L’Amour Fou. Yves tinha desaparecido em 2008, fruto de doença prolongada - e de uma vida cheia de batalhas, principalmente contra si próprio.

Na despedida, o companheiro desse “amor louco” dedicou-lhe as palavras mais difíceis: “Quão jovem e bela era a manhã de Paris em que nos conhecemos! Tu travavas a tua primeira batalha. Foste glorioso nesse dia e, desde então, a glória nunca te deixou. Como podia eu imaginar que nos enfrentaríamos 50 anos depois, e eu te diria adeus pela última vez? Esta é a última vez que falo contigo, a última vez que posso. As tuas cinzas daqui a nada estarão no local de descanso que te espera nos jardins de Marraquexe... Ao deixar-te, Yves, quero dizer-te o quanto te admiro, que te respeito profundamente, e que te amo.” Até à sua morte, em 2017, Bergé foi o maior protetor da memória, e do legado, de Yves Saint Laurent.

“O Giancarlo e eu entendemo-nos um ao outro sem falar. Mas a personalidade dele é completamente diferente da minha.” Valentino Garavani.

Foi o segredo mais mal guardado do fashion world. Na verdade, talvez nunca tenha sido um segredo - antes, um pequeno tabu. Porque na altura em que Valentino Garavani ascendeu ao estrelato, no final dos anos 50, os homens não assumiam relações com outros homens como fazem agora. Simplesmente não era aceite. Por isso, a sua ligação com o empresário Giancarlo Giammetti permaneceu, durante décadas, discreta e nebulosa. Mas nada disso é relevante. Não existiria Valentino sem Giancarlo, e vice-versa. A maison que ambos fundaram, em 1960, e que hoje veste as maiores estrelas do planeta, de Nicole Kidman a Gwyneth Paltrow, é antes de mais sinónimo de coesão e lealdade; foi com base nesses valores que criaram um império de luxo e sonho, de Itália para o mundo. “O Giancarlo e eu entendemo-nos um ao outro sem falar. Mas a personalidade dele é completamente diferente da minha”, afirmou o criador italiano à revista Vanity Fair numa longa entrevista concedida no início dos anos 2000, quando ainda estava à frente da direção criativa da sua marca homónima. “Eu não presto nenhuma atenção a esta vida [referência à high life que os dois levam]. Estou sempre trancado no meu estúdio. Sou muito grato ao Giancarlo, porque ele esconde-me coisas para me manter bem-disposto. Há apenas três coisas em que sou bom - a fazer vestidos, a decorar casas e a entreter pessoas.”

Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti © Getty Images

Entreter, e promover, são aliás dois dos verbos que o designer e o gestor melhor conjugam. Foram dos primeiros a perceber que não bastava fazer vestidos maravilhosos - era preciso dar a conhecê-los, criar uma história à sua volta. Foi assim que chegaram até Jacqueline Kennedy, que em 1964 comprou seis vestidos de Alta-Costura, todos em preto e branco, para usar durante o período de luto pelo marido, John Kennedy. “O melhor presente da minha vida”, garantiu Valentino, que hoje em dia mantém com Giancarlo uma amizade difícil de decifrar. Depois de décadas reféns dos calendários da Moda, agora gastam os dias a viajar pelo globo em jatos privados, com ou sem os respetivos parceiros, sempre um bronzeado de fazer inveja aos veraneantes mais insuspeitos. Enquanto casal, estiveram juntos 12 anos. Nunca discutiram o relacionamento com ninguém fora do círculo mais restrito de amigos - nem mesmo com as mães, que chegaram a morar em sua casa. Isto porque, quando se conheceram, garante Giancarlo, o namoro com Valentino causou “um escândalo.” Eram outros tempos. Foi a 31 de julho de 1960, na Via Veneto. O Café de Paris estava à pinha e um dos amigos de Valentino perguntou a Giancarlo se se podiam sentar na sua mesa. O resto é história. Indiferentes a esse (suposto) tumulto amoroso, a indústria ia-se rendendo às criações do homem que apenas quis fazer roupas maravilhosas e tornar as mulheres (ainda) mais bonitas.

Mary-Kate e Ashley Olsen © Getty Images

E por falar em mulheres bonitas: eis Mary-Kate e Ashley Olsen, as gémeas que começaram como atrizes (ainda bebés) na série Full House e que deram uma volta de 180 graus nas suas vidas para se reinventarem como designers na über luxuosa The Row. A marca, lançada em 2006, é ao mesmo tempo o epítome do cool e sinónimo de alfaiataria moderna, tecidos excecionais e formas simples (mas não simplistas). Tudo embrulhado numa atitude discreta e chique, alheia a tendências, que culmina em apresentações ultra cuidadas, sem grande alarido - o que, ano após ano, tem conquistado a crítica especializada. Há quem lhe chame “precisão cirúrgica”, nós preferimos chamar-lhe uma paixão pela Moda que não vacila perante o estrondo mediático. Isto porque, depois de viverem desde cedo debaixo dos holofotes, Mary-Kate e Ashley tinham tudo para se tornar jovens adultas rebeldes e problemáticas (olá, Lindsey Lohan!). Em vez disso, fecharam-se em copas, viraram as costas aos paparazzi, e pegaram naquilo que tinham de único - sim, o facto de serem gémeas - para criar uma nova forma de vestir que, se tivéssemos de arriscar, em tudo se assemelha à Céline de Phoebe Philo ou às novíssimas propostas de Gabriela Hearst.

Numa rara entrevista à edição inglesa da Vogue, em abril deste ano, confessaram que a sua relação é uma espécie de casamento. “Pomos muita pressão em nós próprias”, declarou Mary-Kate. “Somos mulheres profissionais, e é assim que nos comportamos. Afinal de contas, estamos a trabalhar desde que tínhamos nove meses. [...] Julgo que temos muita sorte por termos uma grande parceria e por podermos apoiar-nos uma na outra, porque acredito que pode ser muito solitário.”

Laura e Kate Mulleavy © Getty Images

Deve ser isso que pensam Laura e Kate Mulleavy, as californianas que, em 2005, lançaram a maravilhosa, a incrível, a encantadora, Rodarte (e não, este texto não é patrocinado), marca que desde os primeiros dias conquistou a mesmíssima Anna Wintour (e isto também não é um exagero, a diretora da Vogue US ficou de tal forma impressionada com o que viu numa edição da Women’s Wear Daily que decidiu voar até Los Angeles para as conhecer pessoalmente). “Fomos criadas numa área rural [referência a Pasadena, na Califórnia]. Quando éramos pequenas, fazíamos tudo juntas”, contou Kate, a mais velha das duas, ao Vogue.com. “Tínhamos uma imaginação enorme. Íamos para a rua e brincávamos as duas e criávamos estes mundos secretos e uma linguagem só nossa.”

Longe do glamour das capitais da Moda, as irmãs aprenderam desde cedo a estimular o gosto pela música, pela poesia, pela arte. E pelos filmes. Porque o cinema é a grande inspiração das Mulleavy. Em 2010, participaram na criação do guarda-roupa para um dos blockbusters da temporada de prémios, Black Swan, e, em 2017, estrearam o primeiro filme escrito e realizado a quatro mãos, Woodshock. Em ambos os casos, as protagonistas das películas (Natalie Portman e Kirsten Dunst, respetivamente) são amigas e musas da Rodarte, que conta com um clube de fãs comparável ao de um culto. Ou não fossem Laura e Kate apreciadoras natas de thrillers e fábulas de outros tempos, como tão bem espelham nas suas coleções. Tirando isto, a única coisa que precisa de saber é que elas não partilham roupa.

Rick Owens e Michèle Lamy © Getty Images

 

Tal como Rick Owens e Michèle Lamy, apostamos. O californiano e a francesa conheceram-se em 1990, e foi ela que lhe deu a primeira chance na indústria. Em 1994, Rick abriu a sua marca própria e, em 2003, mudaram-se para Paris, onde casaram em 2006. Porque é que isto é relevante? Porque Owens e Lamy são duas faces da mesma moeda. “Completamo-nos um ao outro. Eu sou sobre chegar ao destino do ponto A ao ponto B da forma mais simples. A Michèle é sobre desfrutar da jornada.” É uma colaboração mais-que-perfeita, que transformou Rick Owens num dos designers respeitados da sua geração. “Estou orgulhosa disso. Não me chateia se o nome é Rick Owens. O que é que significa saber quem é que decidiu o quê a cada estação? Nós temos uma visão da coisa mais alargada.” Talvez isso que lhes permite, a eles e a todos os outros, brilhar a duas mãos. A união faz a força.

 

Artigo originalmente publicado na edição de novembro da Vogue Portugal.

 

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