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Entrevistas 19. 6. 2020

Angelina Jolie fala sobre a crise global de refugiados e maternidade

by Liam Freeman

 

Em entrevista exclusiva à Vogue, a cineasta e atriz vencedora do Óscar reflete sobre as duas décadas de trabalho em cooperação com a agência de refugiados das Nações Unidas e discute aquela que foi a jornada de adoção de três dos seus filhos, Maddox, Pax e Zahara.

Paquistão, Angelina Jolie visita refugiados afegãos 

No que diz respeito à representação e ao cinema, Angelina Jolie teve uma tutela bastante invejável nos seus 45 anos de vida. Nascida no seio da realeza de Hollywood, filha de Jon Voight e Marcheline Bertrand, estudou no prestigiado Lee Strasberg Theatre and Film Institute antes de estrelar em Girl, Interrupted de 1999 - ganhando um Óscar para Melhor Atriz Secundária, em 2000 - e Changeling, de Clint Eastwood (2008). Depois, para a sua estreia enquanto realizadora em 2011, Na Terra do Sangue e do Mel, sobre a Guerra da Bósnia, procurou apenas os colaboradores mais experientes - lançando atores dos Balcãs que incentivou a dialogar e consultar sobre a produção. Mas talvez tenha sido o seu trabalho humanitário com os refugiados a ensinar-lhe as maiores lições de todas. 

"Eu senti-me uma estudante ao pé deles", Jolie diz à Vogue. "Aprendi mais com os [refugiados] sobre família, resiliência, dignidade e sobrevivência do que posso expressar por palavras." Mãe de seis filhos, passou quase duas décadas a trabalhar com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), primeiro como embaixadora da boa vontade e, a partir de 2012, enviada especial, à luz da sua dedicação pela causa.

A primeira missão de Jolie foi a Serra Leoa nos últimos anos da guerra civil que se estendeu de 1991 a 2002. Desde então, viajou para países como o Líbano para conhecer crianças refugiadas sírias, o Curdistão iraquiano para destacar as necessidades críticas de 3,3 milhões de deslocados internos Iraquianos, a Tailândia, onde famílias de Myanmar estão abrigadas em campos de refugiados no norte do país e, mais recentemente, na Colômbia, onde mais de 4 milhões de venezuelanos vivem em exílio.

Afinal, o que é que implica o papel do enviado especial do UNHCR? Além de chamar a atenção necessária para grandes crises que resultam em deslocamentos populacionais em massa, Jolie representa a agência e o comissário a nível diplomático. “O meu trabalho agora envolve lutar ao lado dos meus colegas para que os refugiados tenham direitos e proteção, resistam a repatriamentos forçados e lutem por melhores oportunidades de aprendizagem”, explica ela. “O UNHCR é uma agência de proteção. Ajudamos aqueles que fugiram da guerra e da perseguição, a quem violaram os seus direitos". 

A propósito do Dia Mundial dos Refugiados - dia 20 de junho, um dia internacional designado pelas Nações Unidas (ONU) para homenagear refugiados em todo o mundo - conversámos com Jolie acerca do seu trabalho com o UNHCR e como isso transformou a sua perceção da maternidade.

Paquistão, Angelina Jolie visita refugiados afegãos

O objetivo do UNHCR é salvar vidas, proteger direitos e construir um futuro melhor para os refugiados. O que há nessas causas que faz com que se identifique pessoalmente com elas?

Eu vejo todas as pessoas como iguais. Eu vejo o abuso e o sofrimento e não posso não fazer nada. Em todo o mundo, pessoas fogem de ataques de gás, violação, mutilação genital feminina, espancamentos, perseguição, assassinato. Eles não fogem para melhorar as suas condições de vida. Fogem porque não conseguem sobreviver de outra maneira. O que realmente quero é acabar com o que força as pessoas a sair dos seus países. Quero ver prevenção quando esta é possível, proteção quando é necessária e responsabilidade quando os crimes são cometidos.

Segundo o UNHCR, o mundo tem agora uma população de quase 80 milhões de pessoas deslocadas à força - a mais alta já registada. Nos seus anos de trabalho com o UNHCR, testemunhou este aumento dramático em primeira mão. Quais foram as principais causas?

Vejo uma falta de vontade de proteger e defender direitos humanos básicos, e falta de diplomacia e responsabilidade. Muitas pessoas lucram com o caos de países dependentes e destruídos e isso põe-me doente. Também vemos líderes espalharem o medo em troca de ganhos políticos e o nacionalismo aumentar - raiva do 'outro'. Mas, por outro lado, também vejo uma incrível generosidade em relação aos refugiados por parte de muitos países e extraordinária força e resiliência dos próprios refugiados. E não é uma imagem sem esperança. São só cinco os conflitos que representam dois terços de todo o deslocamento transfronteiriço - Síria, Venezuela, Afeganistão, Sudão do Sul e Myanmar. Mude-se a dinâmica lá e haverá mudanças no todo.

Serra Leoa, Angelina Jolie visita o FAWE Girls Center

Antes da pandemia, trabalhava muito na Venezuela e no Bangladesh. Será que nos pode contar algumas das vivências que testemunhou lá e qual é a situação neste momento? 

Vi pessoas no seu estado mais humano, que sofreram violência ou dificuldades inimagináveis ​​e que tentam apenas cuidar das suas famílias. Qualquer um de nós faria o mesmo na sua situação. Como todos nós, eles querem estar seguros, querem ter uma casa e querem ser livres. As realidades dos refugiados ou pessoas deslocadas são extremamente difíceis. São frequentemente vítimas de violação e abuso sexual. E combatem os mesmos tipos de doenças que se pode encontrar em qualquer comunidade durante um tempo de paz, mas sem acesso à assistência médica em que tu ou eu poderíamos confiar.E depois os refugiados geralmente vivem em tendas em campos extremamente expostos aos elementos externos. No mês passado, refugiados do Bangladesh foram atingidos por um ciclone.

Há regiões ou grupos de pessoas com as quais se preocupa especialmente, neste momento? 

Estou muito preocupado com as pessoas no Iêmen. Eles tiveram cinco anos de conflito brutal. Sofreram ataques aéreos, bombardeamentos indiscriminados, violência sexual e tortura. Metade dos hospitais foram destruídos. As pessoas passam fome. E agora foram atingidos pelo Covid-19. No entanto, a comunidade internacional forneceu menos da metade dos fundos necessários para manter as operações de ajuda até o final deste ano. Isso significa que em agosto o dinheiro vai acabar e os programas que mantêm as pessoas vivas terão que ser encerrados no meio de uma guerra e de uma pandemia. É horrível e é sintomático do padrão global: não somos capazes de ajudar a pôr fim às guerras ou fazer o suficiente para permitir que as pessoas sobrevivam. O UNHCR permanecerá e entregará o que puder, mas será muito difícil esticar os fundos de assistência para atender às necessidades sem apoio.

Angelina Jolie fala com uma criança síria num campo militar na Jordânia

De que forma é que a pandemia afetou os refugiados, direta ou indiretamente? 

Infelizmente, estamos apenas no início do impacto económico e social da crise, e no início do que isso significa para as pessoas deslocadas quando os níveis de financiamento humanitário já eram tão baixos. É realmente assustador pensar. É o momento de sermos solidários e de entendermos que os refugiados estão na linha de frente da luta pela sobrevivência e pelos direitos humanos.

Sente que existe uma certa dicotomia entre a vida em Hollywood e o trabalho em campo com o UNHCR ou a Fundação Maddox Jolie-Pitt (MJP) no Camboja?

Muitos colegas do UNHCR, mas sobretudo os próprios refugiados foram os meus mentores. Lembro-me de uma das minhas primeiras missões em campo, na Serra Leoa, quando, a certa altura, depois de ouvir as histórias das pessoas, comecei a chorar. Havia uma avó incrível, que cuidava dos seus netos órfãos, que me pediu para não chorar, mas para ajudar. Isso ficou comigo. A minha vida como artista é sobre comunicação e arte. Às vezes, o foco é mais no entretenimento, mas, mais recentemente, como realizadora, tem sido muito sobre as questões globais sobre as quais eu me debruço. First they killed my father é o filme que casa esses dois mundos. Mas, no fundo, é a história de anos difíceis no país do meu filho. O que significa que a maternidade também influencia o meu trabalho. E não, não vejo uma divisão.

Construiu uma casa no Camboja. Porque sente uma afinidade tão grande com o país? 

O Camboja foi o país que me consciencializou acerca dos refugiados. Isso fez-me participar em questões externas de uma maneira que nunca antes tinha feito e levou a que me juntasse ao UNHCR. Acima de tudo, isso fez-me mãe. Em 2001, eu estava num programa escolar em Samlout a jogar com blocos no chão com uma criança e foi claro como a água quando pensei: 'O meu filho está aqui'. Alguns meses depois, conheci o meu bebé Mad num orfanato. Não consigo explicar e não acredito em mensagens ou superstições. Mas era apenas real e claro. Samlout foi a primeira e a última fortaleza do Khmer Vermelho. Foi para onde fui pela primeira vez com o UNHCR, porque fica perto da fronteira com a Tailândia, onde as pessoas lutavam para voltar. Estava cheio de minas terrestres. Eu escolhi investir e morar lá para tentar ajudar a melhorar uma das áreas mais desafiantes do país. Encontrámos 48 minas terrestres no meu terreno. A minha casa fica num complexo que partilho com a sede da minha fundação. É dirigido 100% localmente, como deveria ser, e trabalho com uma excelente equipa.

Angelina Jolie visita refugiados sírios na Jordânia 

Tem três filhos adotivos, Maddox, Pax e Zahara, e três filhos por nascimento, Shiloh, Vivienne e Knox. Quais são as coisas mais importantes a considerar quando se criam irmãos adotivos e biológicos?

Cada um é uma maneira bonita de se tornar família. O importante é falar com abertura sobre tudo e partilhar. "Adoção" e "orfanato" são palavras positivas na nossa casa. Com os meus filhos adotivos, não posso falar de gravidez, mas falo com muitos detalhes e amor sobre a jornada para os encontrar e como foi olhar para eles pela primeira vez.Todas as crianças adotadas vêm com um mundo misterioso que está a conhecer o seu. Quando são de outra raça e terra, esse mistério, esse presente, é tão grande. Para eles, nunca devem perder o contato com a sua terra natal. Eles têm raízes que você não tem. Honre-as. Aprenda com eles. É a jornada mais incrível que podemos partilhar. Eles não estão a entrar no seu mundo, vocês estão a entrar no mundo um do outro.

Adotou Maddox, como diz, no Camboja e o seu filho Pax, no Vietnam - dois países em guerra um com o outro. Foi uma decisão consciente? 

É verdade, pensei sobre isso. Inicialmente, pensei em não adotar no Vietnam porque Mad era cambojano e os dois países têm uma história complexa. E depois li um livro sobre direitos humanos e dei por mim a olhar para a imagem de um combatente vietnamita mantido em cativeiro por americanos. Pensei no meu próprio país e no nosso envolvimento no sudeste asiático. Pensei que era melhor focarmo-nos num futuro em que somos todos família. Pax é a força e o centro de tanta coisa nas nossas vidas. Sou muito abençoada por ter sido autorizada a ser mãe deles. Sou grata todos os dias.

Depois de se separar do seu marido e pai dos seus filhos, o ator Brad Pitt, como criou um ambiente saudável para os seus filhos?

Separei-me pelo bem-estar da minha família. Foi a decisão certa. Continuo focada em que eles ultrapassem. Houve quem se aproveitasse do meu silêncio, e as crianças veem mentiras sobre si mesmas nos media, mas eu lembro-as que elas conhecem a sua própria verdade e as suas próprias mentes. Na verdade, são seis jovens muito corajosos e muito fortes.

Pode contar-nos acerca de alguns dos projetos nos quais trabalhará nos próximos meses? 

Trabalharei com o UNHCR na crise global, mantendo-me conectada e consciencializando o mundo acerca das realidades no terreno. E vou continuar a trabalhar com o Serviço Mundial da BBC, numa iniciativa de alfabetização mediática para jovens. Também estou a colaborar com a Amnistia Internacional num projeto em formato de livro sobre os direitos das crianças. Entrei em confinamento a pensar que seria um bom momento para aprender a cozinhar. Nunca aconteceu. Conheço os meus limites.

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