Anatomia de um Clássico: Fato Feminino


A Moda é cíclica, mas os clássicos são eternos.

Anatomia de um Clássico: Fato Feminino


A Moda é cíclica, mas os clássicos são eternos.
30 Nov 2016 • 17 35 H



Pelo menos, agora. No início do século XX, Paul Poiret era considerado o Rei da Moda. São-lhe atribuídos contributos para a Moda como as técnicas de drapeados e as harem pants, numa era em que nenhuma mulher se atrevia a usar calças – a não ser, claro, Amelia Bloomer que, em 1851, resolveu chocar a sociedade com um par de calças largas usadas por debaixo de um vestido curto. Mas, apesar de a peça inovadora de Poiret ter chegado à capa da Vogue em 1913, só em 1930, com Marlene Dietrich, é que o "pantsuit" começou a introduzir-se no imaginário feminino.

 

Nomes como Dietrich e Katharine Hepburn elevaram os estandartes da androginia, trouxeram as calças para fora do dia-a-dia das trabalhadoras fabris, e acrescentaram-lhes a alfaiataria digna de um cavalheiro. Usados com coletes, chapéus e não raras vezes monóculo, os fatos eram assumidamente masculinos. Era esse o seu allure: a quebra dos preconceitos, as possibilidades infinitas, a oportunidade de trazer para a rua o elemento do armário que usavam apenas para discorrer nas tarefas diárias. Chanel reforçou-o, mas a Segunda Grande Guerra deitou por terra o novo guarda-roupa e, à sensualidade contida dos anos 40, Christian Dior trazia a feminilidade exacerbada do New Look.

 

Em 1964, e embalado pelo fervilhar do feminismo, André Courrèges fazia desfilar "Space Age", pejada de fatos completos, estruturados, arrojados. Dois anos depois, Yves Saint Laurent revelava "Le Smoking", o primeiro tuxedo feminino. Foi o ponto sem retorno: ainda que não fosse aceite em locais de trabalho e em muitos dos restaurantes da alta sociedade, o fato feminino reproduzia-se em todas as lojas e todos os corpos para nunca mais obedecer à segregação de sexos. Tornou-se elegante. Era usado com luvas, com alfinetes de peito, com carteiras e sapatos de design, com joias exuberantes. Era fresco e era novo e era necessário. Nos anos 70, Bianca Jagger injetou-lhe o fator "cool" e uma década depois era símbolo de poder.

 

Voltava a aumentar de proporções, voltava a masculinizar-se e a fazer o que tinha de ser feito para introduzir as mulheres em posições de chefia. O power suit de Giorgio Armani ou Ralph Lauren não se limitava aos gigolos americanos e aconselhava a masculinização do sexo feminino para que conseguisse ser levado a sério. Por outro lado, continuava a ser aceite de sobrolho franzido: foi apenas em 1993 que o Senado americano permitiu às duas representantes o uso de calças.

 

Esteve afastado das passadeiras vermelhas e mascarado de uniforme empresarial. Até que voltou em força, pelas mãos de Hedi Slimane na Saint Laurent ou Raf Simons na Dior, com uma sexualidade brutal desenhada a decotes pungentes, padrões dilacerantes e um corte finalmente adequado às curvas. Coco aplaudiria, Yves desdobrar-se-ia em vénias. Porque, no fundo, todos sabem que é a mulher que usa as calças. 

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