Anatomia de um clássico: Casaco leopardo

Se o padrão animal não é a tendência mais antiga da História, está lá perto. Mas nunca viu uma época tão áurea como esta.

Anatomia de um clássico: Casaco leopardo

Se o padrão animal não é a tendência mais antiga da História, está lá perto. Mas nunca viu uma época tão áurea como esta.
09 Out 2013 • 22 07 H



Há cerca de cinco milhões de anos, reinava o “cavewoman chic”: para proteção e conforto, as peles cobriam os corpos desnudos contra as hostilidades de um mundo em formação. Mas a necessidade foi substituída pelo desejo de ostentação, e o exotismo dos padrões estendia-se em tapetes, tapeçarias e acessórios que se queriam uma montra de riqueza na era das descobertas.

 

Em 1925, Marian Nixon, uma atriz americana, relembrou o mundo da excentricidade aristocrática quando se passeou com um casaco que emparelhava com o seu animal de estimação: o leopardo. Desfilou por Hollywood Boulevard, como se de um safari se tratasse, e iniciou a tendência que, até hoje, vai e volta num ritmo cíclico e aprazível. Alguns anos depois, Jeanne Paquin criou, a partir do seu atelier em Paris, um coordenado em seda coberto com um casaco em pele de leopardo. A reação foi instantânea, e o efeito de repetição cumprido.

 

Quando, no início da década de 40, os movimentos feministas de começaram a erguer, Bettie Page e outras pioneiras tornaram o padrão animal em algo sensual, poderoso, feminino. Pegando na deixa, Christian Dior (na coleção para a primavera/verão 1947) deixou-se levar pela sua musa, Mitzah Bricard, e tornaram-se ambos fascinados pelo padrão. Nasceu uma infusão de leopardo na casa parisiense, que imprimia ao estampado uma carga de sofisticação, classe e glamour que sempre foram sinónimos de Dior, creditado como o primeiro a usar a imagem gráfica, e não a pele. Seguiu-se Roger Vivier, que o produzia em seda azul. Depressa se recuperaram os significados inerentes de estatuto social, de inteligência de estilo, de risco compensador. Depressa se popularizou um estilo com referências perigosas e misteriosas, que faziam das mulheres criaturas ferozes de um mundo desconhecido.

 

Quando a onda boémia rebentou no fim dos anos 60, a classe artística e intelectual começou a usar impressões do padrão ironicamente, provocadoramente, sarcasticamente. Mas o público não leu a mensagem nas entrelinhas, e deixou que a tendência se massificasse em todas as superfícies que podiam ser estampadas.

 

A década seguinte, acrescentou-lhe o perigo. Começou a ser associado ao punk rock, em versões mais rudes implementadas em collants, vestidos de noite, jumpsuits, calças à boca de sino, roupa interior, sapatos de plataforma. Foi responsável pelo sucesso astronómico de Roberto Cavalli, nos anos 70, e propagado por nomes como Rod Stewart e Debbie Harry na década de 80. Os loucos 90 viram-no nas Spice Girls, mas a transição para o século XXI viu-se sem grande força. Aparições ocasionais foram relembrando o estilo do poder do padrão, mas foram os últimos anos os mais meigos para uma afirmação tão forte.

 

O exagero de que foi alvo ficou para a história e, agora, é usado com conta peso e medida emcoordenados que compensam qualquer negligência anterior. O casaco é a pièce de resistance. Essencial, sumptuoso, grandioso, tornou-se um clássico em qualquer armário sem nunca cair na monotonia monocromática. Novas interpretações alteram-lhe as cores, ampliam-lhe as linhas e misturam-lhe o ADN, mas o padrão leopardo continua a reger-se pelo adjetivo com que nasceu: poderoso.   

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