"We had a hotel and a novel"


Quem o disse foi Amory Blaine, o F. Scott Fitzgerald mascarado de personagem de ficção em This Side of Paradise. Nós também temos um hotel: Tótem Madrid. E também temos um romance, do mesmo Fitzgerald: The Beautiful and Damned. Está tudo certo.

"We had a hotel and a novel"


Quem o disse foi Amory Blaine, o F. Scott Fitzgerald mascarado de personagem de ficção em This Side of Paradise. Nós também temos um hotel: Tótem Madrid. E também temos um romance, do mesmo Fitzgerald: The Beautiful and Damned. Está tudo certo.
28 Mar 2017 • 16 45 H


Sente-se logo quando se entra: vamos passar um bom bocado aqui. É março, mas aparentemente Madrid não recebeu a notícia de que já é primavera e presenteia-nos com um frio de rachar. Valha-nos o santo termostato interior do Tótem e a descontração dos empregados que nos fazem pensar que estamos num hotel de cinco estrelas (é de quatro, este Tótem, mas engana bem). A primeira impressão - dizem-nos que é a que conta mais - é boa: lá ao fundo já se revela o bar, todo gingão e a média luz, com jazz a sair das colunas; à direita está a recepção cheia de sorrisos e um pouco mais à frente uma escadaria em madeira, imponente e magnífica. 


O check-in faz-se sem problemas. Antes de subirmos ao quarto (um dos 64 deste boutique hotel), logo no primeiro andar, conseguimos olhar mais profundamente para o bar (a localização dos elevadores permite-nos esta apreciação). Sim, sente-se Fitzgerald por aqui. Não nos espantaria ver a Zelda a servir de anfitriã, a rondar as mesas, a bebericar um cocktail.


Entramos no quarto. À direita já espreita a casa de banho, com o chão em mosaicos pretos e brancos, as loiças em mármore negro, o duche num branco total - sim, muito sim. Descobrimos mais tarde os produtos de beleza irresistíveis (pecam por não ter condicionador), da Hand Made Beauty, uma marca local e orgânica que tem um spa mesmo ao fim da rua com manicure e pedicure vegan (claro). O roupão, 100% algodão, é leve e irresistível e a única coisa que nos apeteceu usar durante a estadia.



Avançamos para o quarto. É escuro, com paredes num azul profundo, um sofá de canto e mobiliário nórdico. Consegue ser fresco, ainda assim, aconchegante com o seu soalho em madeira e focos de luz perfeitamente planeados pela Corium Casa, já conhecida pelo trabalho exímio que conseguiu no Hotel Omm. Pormenor essencial: o ar condicionado é silencioso. Não é possível reiterar o suficiente o quão importante isto é. A cama é dócil, o colchão perfeito, as almofadas de penas - tudo isto dificultou muito a tarefa de levantar a horas decentes na manhã seguinte.


Mas teve que ser, porque nos esperava a melhor coisa que o Deus dos hotéis alguma vez inventou: o pequeno-almoço. É das 7h às 11h30, aqui no Tótem, e é à la carte. Não há buffets espampanantes com cascatas de croissants decadentes, mas há menus personalizáveis e um rol de opções à parte para agradar a gregos, troianos e até portugueses. O menu Riviera era o que estava incluído na nossa reserva e podemos garantir que não nos deixou ficar mal. O sumo de laranja fresco estava muito perto do Olimpo, o café americano (dentro dos padrões que se pode esperar em Madrid) era perfeitamente decente e os pratos principais (provámos três durante a estadia) chegavam-nos em quantidade e qualidade suficiente para sair a sorrir. A sempre trendy tosta de abacate era generosa, as panquecas tenras e saborosas (quiçá um pouco doces demais) e os ovos escalfados (tanto acompanhados com pasta de abacate como com bacon) são de comer até lamber os dedos.


O pequeno-almoço é servido no restaurante e é aqui que voltamos a Fitzgerald. Chama-se Hermosos & Malditos. Nos individuais que cobrem as mesas poder ler-se "I want to stand on the street corner like a sandwich man, informing all passers-by." Pode adivinhar-se que é esta a missão do espaço boémio, que fica de facto numa esquina, e cuja decoração (a cargo de Better es Mejor) faz questão de informar que sim, se faz favor, é para entrar, sentar e ficar. Abriu em setembro de 2016, poucos meses depois do hotel, e já fez questão de figurar em todos os guias - desde a Vogue espanhola, à Condé Nast Traveller, passando pela Tapas Magazine - como o novo hot spot fashionable para um cocktail depois do trabalho, onde o tempo se arrasta para um jantar sem peneiras - e onde o couvert é servido em Bordallo Pinheiro. A comida é mediterrânica com um toque de Nova Iorque, dando continuidade à linha boémia que cobre todo o hotel.


O bairro ajuda, claro. Estamos em Salamanca, temos restaurantes cool em cada esquina, uma & Other Stories quase à porta e todas as lojas que possamos imaginar - desde a Mango à Louis Vuitton - a dois minutos. Se continuarmos a andar, em 10 estamos no Parque do Retiro e em 20 no Museu do Prado. É belo, mas não é maldito.
 

Os preços começam nos € 160 por quarto, sem pequeno-almoço.

Tótem Madrid Hotel

Calle de Hermosilla, 23, 28001 Madrid, Espanha.


 

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