Televisão: This Is Us sincroniza o batimento emocional


Atualmente em exibição na FOX Life, a série de Dan Fogelman leva-nos a vidas longínquas numa viagem de proximidade: saem da televisão para o nosso coração e do nosso coração para todo o lado.

 This Is Us - trailer

Televisão: This Is Us sincroniza o batimento emocional


Atualmente em exibição na FOX Life, a série de Dan Fogelman leva-nos a vidas longínquas numa viagem de proximidade: saem da televisão para o nosso coração e do nosso coração para todo o lado.

21 Mar 2017 • 13 18 H



This Is Us relembra-nos de quem somos por intermédio de vidas como as nossas. É um emulsionante para aquilo com que lidamos diariamente, um emulsionante que lhe dá tempo de antena enquanto os comuns mortais ficam arredados do pequeno ecrã. Ver os primeiros quatro episódios da série criada por Dan Fogelman é perceber que os seus tentáculos procuram o mais natural no nosso quotidiano para nos fazer ficar e ver no que dará, tal como ficamos na nossa existência - à espera de sentir na pele o passar dos dias.

É uma série com um arranque sublinhado a emoção. Como capítulos de um livro, acompanhamos a vida de um filho que procura - e encontra - o seu pai biológico. O que parece o achado de uma vida, acaba por criar fricção numa casa de domínio estabelecido. É uma ruptura que adivinhamos a léguas, mas que proporciona um contraste interessante entre o filho (Randall, personagem interpretada por Sterling K. Brown) enamorado por ter um pai de sangue e a desconfiança da mulher (Beth, personagem de Susan Kelechi Watson).

This Is Us


A série de Fogelman assenta ainda também num ator que na vontade de ser mais do que uma série banal tem um ataque de fúria e de honestidade enquanto grava um episódio. A sua irmã está sempre lá para ele, ajudando-o a tomar as melhores decisões ou lidando com os estragos das mal tomadas. A irmã é Kate e a personagem do ator é Kevin. A ajuda e a presença constante de Kate são o exteriorizar de problemas que tem na sua própria pele - a forma como lida com o peso, a luta que é contextualizar o irmão na sua relação amorosa.

É um exercício complicado escrever sobre This Is Us sem estragar as surpresas que estes quatro episódios escondem, especialmente o final dos dois primeiros exemplos do vício de ver no ecrã a desmontagem que revela a grande reviravolta que poucos certamente adivinhariam por pensamento próprio. Escrevo apenas que Mandy Moore e Milo Ventimiglia (é provável que o conheçam de Heroes) são um casal que começa a série a lidarem com o facto de serem pais.

Três filhos, o peso que isso tem nas vidas de pais à procura de provarem a si próprios que são capazes de cuidar de vidas que não as dos próprios. É um casal de carisma, que nos relembra as dificuldades da juventude a cuidar da futura juventude. Choros a pedido de alimento, os desgostos de uma mãe, os desgostos de uma mãe por um filho rejeitar a amamentação; os desgostos de um pai que começa a ter um problema com o álcool, que começa a prometer ter tudo controlado, que o vício da bebida merece ser rejeitado pelo vício que tem pela família.

No quarto episódio, The Pool, o mais recente exibido em Portugal, o espectador sente o mudar da agulha da série. Ilustrando uma banal ida a uma piscina num dia abrasador, não só percebemos novamente o quão traiçoeiro é lidar com uma família alargada, como sobretudo é sublinhada a questão racial. Ainda que sejam situações ilustradas com alguma destreza e afinadas subtilmente, ficamos a perguntar-nos: até onde vai a ostracização das minorias, se realmente encontra um stop depois de atingido um certo estatuto social?

Os saltos constantes entre o truncar de cenas em certos membros da família não prejudicam o cômputo geral de This Is Us, algo que é atingido colocando em cenas uma boa apresentação das personagens e, não menos importante, em colocar em cena personagens com as quais é bastante fácil relacionarmo-nos.

Cada casulo emocional está retratado por uma existência que mostra a querela social. Ou seja, abrindo o leque, a série consegue apanhar pessoas que passam pelo mesmo: o planeamento familiar, a frustração no emprego aquém, a questão racial, lidar com um corpo que é constantemente julgado pela sociedade e por quem o habita. Retratar uma gama tão abrangente de espectadores no pequeno ecrã resulta no enamoramento e num laço apertado de proximidade.

A maior falha da série é não saber quando parar, ou melhor, neste quarteto de episódios são já algumas as vezes em que os temas começam a ser abordados com a sensibilidade já mencionada, mas que chafurdam ocasionalmente por sintomas lamechas sem fundamento que eram escusados, que não fazem nada para iluminar a mensagem ou o sentimento a passar. O espectador já está aberto e transformado em receptor quando a escrita continua a insistir, colocando um ponto de exclamação fluorescente no final de uma frase que já estava subtilmente sublinhada.

Tudo isto para escrever que há aqui uma sensação de visita e acompanhamento familiar, como o bom entretenimento consegue fazer. Há vários filhos e vários pais, mas há também uma porta a quem vê; a quem torce semanalmente pela superação de obstáculos, talvez não se apercebendo que pode também estar a superar os seus, os da sua vida, aqueles que não têm hora marcada para passar na televisão.

O que fica aqui mencionado é um agente de dissolução, ou seja, em último caso é um jogo de espelhos em que tento escapar aos spoilers - quem já viu o final do primeiro episódio sabe perfeitamente ao que me refiro. É um spoiler com maiúscula, um que acaba por condicionar a forma como se encara o resto da temporada. Seja como for, vale a pena dedicar-lhe tempo, porque mesmo com excessos de facilitismo dramático, This Is Us é uma proposta com coração, com um coração bondoso. E sei agora que This Is Us bem se podia chamar This Is All of Us.

pub
Faltam 300 caracteres
pub
pub
topo