Televisão: The Crown, a rainha de corpo inteiro


The Crown dá vários passos certos na forma como conta a ascensão e afirmação de Isabel II, levando o espectador até outra época, abrindo-lhes a porta ao sangue azul, que não é ilustrado sob o signo da perfeição.

Televisão: The Crown, a rainha de corpo inteiro


The Crown dá vários passos certos na forma como conta a ascensão e afirmação de Isabel II, levando o espectador até outra época, abrindo-lhes a porta ao sangue azul, que não é ilustrado sob o signo da perfeição.

27 Nov 2016 • 07 00 H



Lá fora chove, já todos sabemos. Cá dentro o mundo é outro, tem uma janela como se emoldurasse um poster de uma montra na Quinta Avenida: brilhos lampejam nos olhos, há a adoração do sumptuoso estar. Podemos arregalar o olhar ou semicerrá-lo para ver a filigrana do cenário. Eles e elas, humanos como nós; eles e elas numa época diferente, com um sangue diferente, a fazer a história que agora lemos nos livros. Eles e elas, reis e rainhas. Príncipes e princesas. Nós, o povo. Tudo isto, The Crown.

A primeira temporada chegou à Netflix com alguns números nos banco: mais de 100 milhões de euros investidos pela empresa de Ted Sarandos. No centro do palco está obviamente a família real britânica, com a série a arrancar com o rei Jorge VI a mostrar os sinais da doença. As metástases de um cancro no pulmão foram mais teimosas que a cirurgia. Não havia nada a fazer, contou-nos a história antes da estreia. Fumava antes de saber que tinha cancro, continuou a fazê-lo apenas com um pulmão; continuou a fazê-lo por entre a tosse debilitante, por entre borrões encarnados nos lenços; continuou a fumar até adormecer para morrer.

Não era preciso, mas estes minutos dedicados à vida do Rei servem sobretudo para sublinhar a excelência de Jared Harris, que já tinha sido fenomenal em Mad Men e em Fringe. Rei morto, rainha posta. A primeira temporada de The Crown dedica-se a fundear a figura de Isabel II como princesa, mas sobretudo como rainha, começando com o seu casamento, passando pela sua coroação, e evoluindo como a rainha evoluiu no cargo que assume bastante cedo na sua vida. No fundo, entra-se pela porta que Downtown Abbey abriu em 2010, na altura provando que há interesse no tema se for bem trabalhado e proposto de uma forma que vá além do superficial.

Peter Morgan, criador e argumentista de The Crown, estudou bem esse cenário, aprendendo com Frost/Nixon e a A Rainha, percebendo que se não se pode fugir à história, ao menos que se tente torná-la interessante na agilização de cenários, na chamada a cena de momentos importantes em redor do que foram estes anos de Isabel II. No segundo episódio, por exemplo, a ainda então princesa está em Nairobi; em Ato Divino, o argumento faz-se munir do nevoeiro que assolou o Reino Unido entre os dias 5 e 9 de dezembro, 1952. A mortandade que hoje se sabe ter chegado às 12 mil pessoas é alavanca para a crise aberta com o primeiro-ministro na altura, Winston Churchill.

É preciso movermos a forma de pensar e adaptá-la a cinco décadas atrás: a morte era uma besta com caminho mais livre, algo que The Crown não hesita em usar na narrativa para a atestar de drama e para evitar que se instale a previsibilidade de se saber quem morreu até agora. Lembrem-se que apesar de estar cingida à história, The Crown não é uma série documental, sendo-lhe permitidas algumas liberdades no argumento.

Ainda que a maioria funcione, algumas fracassam. A rainha Isabel II é casada com Filipe, duque de Edimburgo, ramo que obviamente faz sombra densa sobre a série. Quando se dedica a explorar a vontade que o duque tinha em aprender a voar, ficamos com a clara sensação de preenchimento de tempo - só a primeira temporada tem dez episódios. Contudo, os argumentistas usam Filipe para ilustrar o seio do casamento, a relação do casal com os filhos.

Há a ternura de ver Filipe jogar futebol com um Carlos infante, mas há também uma tensão que nos faz ajeitar no sofá. Filipe diz sem celeuma à rainha que ela lhe tirou tudo, até o apelido. O meu lado mais cínico sente que estamos, enquanto plebe, a espreitar em conjunto pelo buraco da fechadura, mas o meu lado mais crítico reconhece a força da muleta emocional, o gancho. E claro, Morgan sabe que isto estala a imagem perfeita e abre alas ao regozijo de quem tem à frente dos olhos a confirmação que a realeza também dá pontapés descalça.

A sumptuosidade mencionada no início deste texto não é um exclusivo dos cenários, que transpiram os 100 milhões investidos por todos os poros, dando-lhe um valor de produção que eleva The Crown no seu registo cinematográfico. O leque de atores e atrizes envolvido nestes episódios merecem a recomendação da equipa de casting pelos estalos que as suas performances dão no espectador. Harris saiu de cena demasiado cedo, mas outros ficaram que carregam o piano às costas com uma delicadeza de pinça.

Isabel II tem o corpo e o coração momentâneo de Claire Foy, um dos nomes que salta para o estrelato com mérito. É um papel mais difícil do que se imagina. Tenham em atenção que estamos a falar da realeza, do seu papel perante a sociedade, mas sobretudo nas suas movimentações no privado. A tensão do matrimónio e o descamar da juventude têm que ser passos que transpareçam essas sensações de uma forma digna e elegante. Foy é airosa no subtil, o que poderá chocar com a imagem que a rainha tem em 2016, mas The Crown ainda tem algumas temporadas para lá chegar.

Filipe, duque e aviador, é interpretado por Matt Smith, que provavelmente reconhecerão de Doctor Who. Novamente, é uma escolha interessante que se acaba por revelar acertada. Há aqui muito da sombra inerente a ser-se cônjuge de uma rainha. Mas sejamos francos, o destaque é John Lithgow, que se apresenta fisicamente transfigurado para nos brindar com um Churchill soberbo. É uma daquelas prestações que se arrisca a mesclar-se com a imagem que temos na memória do homem que existiu.

Tal como Harris, só quem anda muito distraído é que ficará surpreendido com a performance de Lithgow. Maravilhado e esticado no chão? Sim. Surpreendido? Nem por isso. Estamos a falar do ator que ajudou a carregar Dexter na sua fase descendente, que está nas memórias que tenho de Interstellar e que brilhou mais do que todos os outros em 3º Calhau a Contar do Sol.

"Não achas que teria preferido crescer longe dos holofotes? Afastada da corte? Longe do escrutínio e da visibilidade. Uma vida mais simples. Mais feliz. Como mulher, como mãe. Uma mulher do campo inglesa comum," diz a rainha. No fundo, é esta a linha transversal de The Crown. É deslumbrante pelos brilhos e pela riqueza e pela posição na sociedade e nos bastidores, mas ofusca mais pelo dilema que é um peso nos ombros de uma Isabel II que entra em cena nos seus vinte anos. Lá fora chove, já todos sabemos, mas cá dentro escreve-se história diante dos meus olhos e se estivesse sol talvez continuasse a não querer desligar a televisão.

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