Televisão: Audrie & Daisy


Audrie & Daisy documenta o abuso sexual de quatro jovens, mostrando-nos 95 minutos contra o silêncio. Incómodo, mas infelizmente ainda preciso e outro dos  documentários a não perder por estes dias.

Televisão: Audrie & Daisy


Audrie & Daisy documenta o abuso sexual de quatro jovens, mostrando-nos 95 minutos contra o silêncio. Incómodo, mas infelizmente ainda preciso e outro dos  documentários a não perder por estes dias.

17 Out 2016 • 11 00 H



A pista está no título, Audrie & Daisy. Este documentário podia ser tudo o que dois nomes conseguem comportar. Audrie & Daisy, duo pop; Audrie & Daisy, um programa de culinária; Audrie & Daisy, duas cheerleaders; Audrie & Daisy, as novas rainhas do stand-up. Mas não. Audrie & Daisy, duas adolescentes abusadas sexualmente, é, infelizmente, a descrição correta. Leiam-na e a pista passa a ser um sentimento incómodo e tormentoso.

O documentário foi apresentado no Festival Sundance e está há poucas semanas disponível na Netflix. Realizado pela dupla Bonni Cohen e Jon Shenk, debruça-se sobre quatro casos de adolescentes abusadas sexualmente, acarretando depoimentos demolidores, tanto de três das vítimas, como dos familiares que tiveram, e continuam a ter, que lidar com as ondas de choque.

Logo no início somos confrontados com o caso de Audrie Pott, uma jovem que em 2012 esteve presente numa festa em Saratoga, Califórnia. Embriagada, três dos rapazes desenharam no seu corpo com marcadores, pintando-lhe metade da cara de preto, continuando para as zonas íntimas do seu corpo, assinando quem esteve lá, acabando na estimulação sexual. Tiraram e partilharam fotografias. O documentário mostra algumas das conversas desesperadas de Audrie nas redes sociais depois da situação, tentando perceber o que tinha acontecido, ficando estilhaçada quando descobre que a situação, além de ter sido o que foi, tinha sido documentada.

Audrie Pott suicidou-se no chuveiro pouco depois. Perante as câmaras, vemos os seus pais falarem da filha, descrevendo o que tinha acontecido, a mensagem enviada à mãe a dizer que "já nãovodcas consigo fazer isto", ou seja, a escola tinha-se tornado um inferno na terra. O pai a dizer que tinha visto nos seus olhos que estava morta. Ao contrário da ficção, o poder e o desarme dos documentários é que não há efabulação, o que em muitos casos é sinónimo de um final que está muito longe de ser feliz. Audrie Pott não teve um final feliz e os que a amavam estão presos no reviver desse último capítulo.

Audrie & Daisy abrange mais três casos, passando brevemente por Delaney Henderson, que passou por uma situação idêntica e que tenta entrar em contacto com Audrie para lhe tentar fazer ver que não estava sozinha, e chegando aos casos de Daisy Coleman e de Paige Parkhurst, a sua melhor amiga. Tal como no caso de Audrie, também Daisy consumiu álcool. "Sei que bebemos pelo menos uma garrafa de água de Tequila e misturamos isso com vodkas e Red Bull."

As amigas entraram pela janela da cave onde decorria a festa e onde estavam cinco rapazes. Foram separadas, com Paige a pronunciar-se sobre a situação da amiga afirmando que "sempre que abriam a porta, ela estava ali, meio estatelada na cama, meio no chão". Quem abusou de Paige confessou o que tinha feito, já no caso de Daisy, Matthew B. Barnett, jogador de futebol, foi inicialmente acusado de abuso sexual, contudo, as acusações foram removidas. Em 2012, Barnett tinha 17 anos. A idade de Daisy? 14 anos na altura.

O caso de Daisy ganhou contornos controversos devido à decisão de Matthew não ser convenientemente julgado, com o documentário a mostrar que pertence a uma família de poder. Além disso, Daisy viu o seu nome arrastado pela lama num turbilhão de insultos online seguido da tentativa de incendiar a sua casa. Daisy ter sobrevivido não é sinónimo de não ter tentado terminar a sua vida várias vezes. Há imagens que mostram os resultados de algumas dessas tentativas e o depoimento de Charlie, o seu irmão, que teve da a levar em braços várias vezes até à urgência.

Importa ainda mencionar as declarações do Xerife local sobre o caso: "E este é um dos defeitos fatais da nossa sociedade. É que são sempre os rapazes. E nem sempre são eles. As raparigas… Neste mundo, as raparigas têm tanta culpa como os rapazes. Portanto, todos têm de se responsabilizar por isso. E todos têm de ser melhores". Quem está a filmar interrompe, "Concordo totalmente. Mas, neste caso específico, os crimes foram cometidos por rapazes."

E então chega uma palavra em tom de pergunta da boca do Xerife que pode ajudar a perceber a mentalidade: "Foram?".

São rostos que se passam a mover pelo escuro, ou melhor, que têm uma cicatriz que relembra esse tempo longe da luz. Uma pessoa não estar em condições de dizer não nunca pode ser confundido com uma pessoa dizer sim. Daisy afirma que "não reconheço a pessoa que era há quatro anos" e que "isso não significa sempre esquecer o passado, só significa perdoar o passado". Audrie & Daisy funciona como um transporte contra o silêncio, terminando com o que todos suspeitamos: "Muitos sobreviventes preferem-se manter anónimos".

São 95 minutos que lidam com situações que não deveriam existir, situações em que o espectador é confrontado com a sua espécie em momentos de abuso, de destruição de vidas que, mesmo que não acabem num chuveiro e mesmo que consigam perdoar o passado, ficarão sempre com uma sombra que começou a ser projetada quando tinham idade para almejar o sol.

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