Fora do aquário


Aquarius
de Kleber Mendonça Filho acaba de estrear nas salas de cinema. Um retrato do Brasil, e uma lição de vida, protagonizados por uma Sónia Braga gigante, maravilhosa, sem idade. Como todas deveríamos (querer) ser. 

Aquarius (2016): trailer

Fora do aquário


Aquarius
de Kleber Mendonça Filho acaba de estrear nas salas de cinema. Um retrato do Brasil, e uma lição de vida, protagonizados por uma Sónia Braga gigante, maravilhosa, sem idade. Como todas deveríamos (querer) ser. 

16 Mar 2017 • 16 31 H



Do Recife para o mundo, esta é a estória de Clara, uma crítica de música de 65 anos, viúva e mãe de três filhos, que vive no edifício dos anos 40 que titula o filme – e que é o centro da intriga. Naquela casa, Clara casou, cresceu a sua família e ali permanece, ela e a sua invejável coleção de vinil – sempre presente – e a companhia da empregada que a acompanha há anos e já faz parte da família. A mesma casa que está agora ameaçada pelo bulldozer do imobiliário, e pela pressão da família que comprou todo o prédio, entretanto vazio, à exceção da casa de Clara.

Este filme conta a luta digna de Clara pelo seu espaço, que é, no fundo, uma metáfora da luta do indivíduo contra a sociedade e, em última instância, contra o peso esmagador do negócio das grandes empresas, indiferentes às vidas reais das pessoas, e à beleza das cidades.

Clara mora em frente à praia e leva um quotidiano simples e pacato, outra metáfora, desta vez para a vida que poderíamos levar – na verdade, precisamos mesmo de muito pouco – e para a grandeza que essa simplicidade significa. É um retrato de um certo Brasil, bucólico e fraterno, onde se misturam raças, idades, numa celebração da própria beleza e abertura; e o outro retrato, o das distâncias sociais, do peso do dinheiro e do nome de família, da corrupção.

Por fim, é uma subtil lição de feminismo ou, se ainda continuarmos desconfortáveis com a palavra (o que diz muito sobre o caminho que ela ainda tem de percorrer), do poder no feminino. Sónia Braga é aquele portento de mulher que conhecemos, e essa força parece não desvanecer com a idade, mais, sofisticou-se. Este filme seria outro filme sem Sónia Braga. Depois, todas as mulheres deste filme, à exceção da filha de Clara que acaba por funcionar como contraponto (a rapariga comum, sempre preocupada com o que os outros pensam e com uma resolução “sensata” da vida) são fortes.

Aquarius (2016)- trailer


Vemos uma Sónia Braga maior que o ecrã, em inteligência, pinta, sex appeal e independência de caráter – a mulher que todas deveríamos querer ser, na verdade. O que é maravilhoso na idade é que caminhamos todos para o que realmente somos ou, melhor ainda, à medida que envelhecemos somos cada vez mais nós próprios – não nos conseguimos escapar. Assim, as qualidades amplificam-se, as fraquezas também – e não há artifício que nos valha. Na antestreia no Cinema Ideal, em Lisboa, Kleber Mendonça Filho diz ter feito um filme sobre as mulheres fortes, que raramente engrandecemos, na vida como no cinema. Este é o filme de um homem que percebeu mais, e antes dos outros todos. É assim que o mundo começa a mudar.   

São quase três horas de filme embaladas por uma banda sonora gloriosa e sem preconceitos, que inclui Queen e Roberto Carlos, mas que passam como uma brisa vinda do mar. O próprio realizador diz que tentou cortar um pouco mais o filme, mas não conseguiu. E ainda bem. Como alguns dos jornalistas presentes, que já tinham visto o filme (em Cannes, onde foi um sucesso e uma controvérsia,  ou no visionamento para a imprensa especializada), voltávamos a vê-lo outra vez.

 

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