Crítica de Cinema: Aliados


Marion Cotillard e Brad Pitt protagonizam o thriller romântico de Robert Zemeckis que é uma espécie de filho ilegítimo de uma noitede inflamada paixão entre Casablanca e Mr. and Mrs. Smith.

Aliados: o trailer

Crítica de Cinema: Aliados


Marion Cotillard e Brad Pitt protagonizam o thriller romântico de Robert Zemeckis que é uma espécie de filho ilegítimo de uma noitede inflamada paixão entre Casablanca e Mr. and Mrs. Smith.

30 Nov 2016 • 17 50 H



Ainda antes de abrirmos as hostilidades, quando o título Allied ainda flutua sob fundo negro deixando as letras "L-I-E" por lá se demorarem mais uns convenientes milésimos de segundo, fica claro desde o primeiro instante que, em distintas repercussões, Aliados não é um filme propriamente subtil. 

Talvez por isso ou por outras razões que à primeira impressão desconhecemos, é com uma familiaridade pouco delicada que acompanhamos a abertura do plano para um impecavelmente equipado Brad Pitt a cair literalmente de paraquedas num inferno onde já nos habituamos a vê-lo salvar o dia. A primeira vez já vai com sete anos, e na altura Pitt envergava um vaidoso bigode a acompanhar um sorriso torto enquanto despachava nazis à paulada em Sacanas Sem Lei (2009). Cinco anos depois achamo-lo a liderar um tour-de-force em forma de tanque inexpugnável e saburrento em plena Alemanha de 1945, em Fúria. Hoje reencontramo-lo novamente nas linhas inimigas, já sem bigode ou sujidade à vista e com um melhorado sentido de Moda, preparando-se, uma vez mais, para reescrever as linhas ficcionais de um dos mais trágicos assaltos à humanidade alguma vez cometidos.

O drama histórico explora a vida do oficial Max Vatan que, em 1942, num claramente digitalmente recriado mas belo Norte de África, encontra Marianne Beausejour, da Resistência Francesa, numa missão mortal atrás das linhas inimigas. De novo juntos, em Londres, a sua relação é ameaçada por pressões extremas da Guerra.

Aliados é o tipo de thriller romântico antiquado que já não se faz, incapaz de chegar aos calcanhares dos verdadeiros clássicos, mas de consumo rápido e fácil digestão que interpretará com competência o seu papel quando o recomendar aos seus pais e avós que se queixam de que "já não os fazem como antigamente". Os dois protagonistas não desiludem exatamente, ainda que fiquem longe das suas máximas capacidades – possivelmente também e sobretudo pelas limitações e clichés da própria narrativa. A química não é particularmente faiscante e Pitt parece especialmente rígido e deslocado ainda que surja em ascendência angustiada no último ato. Em compensação, Cotillard consegue sempre manter-nos investidos na busca pela sua verdadeira intenção.

De certa forma, a inconsistência acaba por se revelar palavra de ordem – desde a supracitada química entre protagonistas, ao ritmo incongruente, sem esquecer a narrativa ora instigante, ora incrivelmente frágil, ora estimulante, ora petulantemente inverosímil.

Globalmente, é uma entrada menor no cânone de Robert Zemeckis (que, vale a pena recordar, criou clássicos como a trilogia de Regresso ao Futuro, Forrest Gump, O Náufrago e Contacto) mas um projeto razoavelmente decente e competente se convenientemente isolado do seu contexto – é que se lembrarmos o talento envolvido e as potencialidades imensas das suas premissas (e promessas), rapidamente ganhamos noção de que também estamos a falar do filme postiço onde duas pessoas fazem amor no assento de um carro minúsculo onde, numa situação normal, nunca caberiam, no meio de uma tempestade de areia gerada por computador, o que torna Aliados uma frustrante tirada - mais antiquada do que propriamente nostálgica.

Curiosamente, é também esta artificialidade que lhe confere uma espécie de leveza que torna as entrecortadas secções de tensão e gravidade mais pacíficas, como duas drageias de meigo adoçante num chá amargo. Doce e amigo do estômago, mas banal como um deleite despreocupado de domingo à tarde. 

 

Aliados - crítica

 

pub
Faltam 300 caracteres
pub
pub
topo