Cinema: O Jardim da Esperança


Jessica Chastain é a figura central de um drama ambientado à Segunda Guerra Mundial que recorda que a coragem e a bondade está ao alcance de todos. 

Cinema: O Jardim da Esperança


Jessica Chastain é a figura central de um drama ambientado à Segunda Guerra Mundial que recorda que a coragem e a bondade está ao alcance de todos. 
21 Abr 2017 • 19 06 H



O Jardim da Esperança abre portas com um cenário idílico. Como um querubim deambulando por um casto paraíso, Jessica Chastain percorre de bicicleta um zoológico que trata com afeto e consideração cada uma das mais gloriosas criações a que dá guarida. À entrada, recebe os visitantes mais quotidianos com o carinho dedicado a um rebento próprio. O ecrã transborda de luz, amor e esperança, mas, eventualmente, surge a profética legenda: "Varsóvia, 1939". Subitamente, o retrato de perfeição começa a dissolver-se como cinzas na nossa boca e um pavor claustrofóbico instala-se debaixo da pele.

 

Inspirado no romance não ficcional de Diane Ackerman, The Zookeeper’s Wife, que, por sua vez se baseia no diário pessoal da nossa protagonista, O Jardim da Esperança conta-nos a história de Jan e Antonina Zabinski os responsáveis pelo desenvolvimento e manutenção do Jardim Zoológico de Varsóvia que, depois da invasão alemã durante a Segunda Guerra Mundial, usaram as suas vastas instalações para dar refúgio a centenas de judeus que escaparam do gueto da cidade, colocando em risco as suas vidas e tudo o que construíram.

 

Contado de uma perspetiva feminina particularmente eficiente no retrato do horror degradante vivido pelas mulheres durante o conflito, O Jardim da Esperança é um drama bem construído e competente que tenta oferecer um novo prisma sobre aqueles afetados por um dos mais trágicos eventos da história da Humanidade.

 

Mas sabemos o que está a pensar: afinal, ainda sobram histórias por contar no aparentemente interminável lodo emocional da Segunda Grande Guerra? Não muitas, certamente, ou tantas quantas vozes tocadas pela horrenda carnificina se quiserem levantar. Mas seja qual for o ponto de vista, O Jardim da Esperança tem pelo menos um argumento relativamente original a seu favor: leões. Macacos. Coelhos. Chitas. O parto complicado de um adorável elefante.

 

Não nos queixamos. No que respeita à longa lista de filmes dedicados ao Holocausto, é verdadeiramente difícil alguma obra vir a destacar-se, tal a quantidade e qualidade que se divide de forma mais ou menos generosa pelos que vieram antes de si. Do ponto de vista crítico, não há nada de muito errado com o novo filme de Niki Caro (A Domadora de Baleias, 2002) que é, inclusivamente, incrivelmente bem-intencionado, mas, de facto, revela-se não suficientemente memorável e incapaz de se aguentar ao lado de clássicos absolutos como A Lista de Schindler (1993), A Vida é Bela (1998) ou O Pianista (2002).

 

O que afeta verdadeiramente este carinhoso retrato de insurgência da bondade e esperança entre a crueldade é mesmo a sua alienígena contenção. Caminhando entre o estéril e o verdadeiramente visceral, O Jardim da Esperança aproveita ocasiões pontuais para brilhar – o bombardeamento do zoo é perturbador e a relação entre Antonina e uma jovem judia abusada sexualmente é penetrante - mas parece recorrentemente afetado por uma estranha ausência de urgência e tensão considerando os perigos da missão hercúlea que apresenta.

 

É certo que a crueldade nazi é bem conhecida e documentada, pelo que a abordagem mais conservadora do filme de Caro não é propriamente o problema, mas mais a aparente facilidade com que o plano central se desenrola, com Jan e Antonina a escaparem facilmente aos sucessivos percalços face a um inimigo nazi que nos parece aqui insuspeito, facilmente ludibriado e surpreendentemente descuidado nas suas célebres e sucessivas inspeções que, na infelicidade dos factos verídicos, impediram a escapatória prática de tantos inocentes e ditaram a sua exterminação. E mesmo aqueles, felizes na fortuna do seu destino redentor no Zoo de Varsóvia, ora são desumanizados e despersonalizados pelo argumento, ora se comportam de forma atípica, aparentemente alheios ao terror que os cerca, cantando e cobrindo paredes de pinturas como se o trauma, a tensão ou o perigo não fossem uma constante tão violenta assim.

 

É uma pena, porque a importância dos feitos dos Zabinski é inestimável, mas o tratamento que lhes foi dado nesta instância, ainda que não tenha sido propriamente ruinoso, acaba por não fazer a merecida justiça, nascida de um distanciamento não-intencional entre o filme e a audiência. Nenhuma desta culpa se assenta, contudo, nas performances dos atores. Jessica Chastain e o belga Jonah Heldenbergh são absolutamente notáveis no epicentro deste melodrama que contrapõe a brutalidade desumana com a sua compaixão e bondade inflexíveis.


É afinal a benevolência infeciosa que irradiam que comanda os procedimentos e que nos faz querer abraçar a certeza de que, em face de tais atrocidades, também nós seríamos capazes de arriscar tudo para fazer a coisa certa.

 

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