Cinema: Alien - Covenant


Alien: Covenant é uma espécie de regresso às origens da saga Alien, mas terá essa intenção familiar custado a ambição inerente ao franchise?

Trailer - Alien: Covenant (2017)

Cinema: Alien - Covenant


Alien: Covenant é uma espécie de regresso às origens da saga Alien, mas terá essa intenção familiar custado a ambição inerente ao franchise?

19 Mai 2017 • 16 39 H



Em quase 40 anos de existência, a saga Alien já passou por muito. Por questões morais, lógicas e de pura sanidade mental, vamos excluir desde já os crossovers com Predador (2004, 2007) da conversa, até porque na prática, não fazem sequer parte do franchise oficial que se compõe, à chegada do novo filme, de cinco produções de qualidade variável e apreciação discutível.

 

Mas o que queremos aqui sublinhar com intento é que, independentemente de gostos, tendências ou revoluções, o que podemos dizer abertamente da saga Alien e sem qualquer tipo de amarras é que esta sempre foi feita de ambição. De novas ideias, de novos formatos, de novos conceitos. Sempre de forma inequivocamente destemida.

 

Cada filme floresceu com uma nova perspetiva, uma abordagem renovada: desde a Casa Assombrada no Espaço que nos enfeitiçou em primeiro lugar, à brilhante alegoria da Guerra do Vietname de James Cameron (Aliens, 1986), à divisiva ruminação sobre a inescapabilidade da morte (Alien3, 1992), à inesperada comédia negra do disparate (Alien: O Regresso, 1997), à filosófica indagação sobre a origem da vida no meio de estrelas (Prometheus, 2012). Se cada uma destas obras é melhor ou pior que os restantes não é propriamente a questão, mas a verdade é que a série sempre ousou aventurar-se em direções entusiasmantes, inexploradas e corajosamente novas.

 

Assim tinha sido, pelo menos, até Alien: Covenant.

 

Alien: Covenant (2017)

 

À boleia de um tremendo espetáculo visual, a nova entrada no universo Alien revela-se um estranho híbrido que parece sentir-se obrigado a revisitar as raízes do original de 1979 enquanto limpa algumas das pontas soltas de Prometheus e, pelo caminho, destrói algumas das suas mais ousadas maquinações.

 

Os temas dicotómicos do nascimento/morte, deus/homem, início/final, criação/destruição sempre estiveram bem patentes em boa parte da filmografia de Scott – em Alien, Blade Runner e, num nível ainda mais direto e expansivo em Prometheus, a fascinante prequela que dividiu o mundo. De facto, talvez tenha sido mesmo essa natureza divisiva a impulsionar aquelas que são, nuclearmente, as grandes fragilidades de Alien: Covenant.

 

Perante uma parte dos entusiastas mais puristas de Alien, que se rebelaram contra o trilho dissidente de Prometheus e contra a quase-total e consciente ausência do idiossincrático Xenomorfo, a raça alienígena da saga, o veterano realizador inglês parece em Covenant tentar agradar a gregos e troianos encurralando-se entre dois filmes distintos que, evidentemente, não pode servir na sua plenitude. O resultado é um filme simultaneamente requintado e desalinhado, fascinante e frustrante.

 

Evidentemente, e sendo que falamos de Ridley Scott, a excelência em jogo permite que os desequilíbrios de Covenant sejam atenuados nos meandros de um filme primorosamente edificado. As sequências de ação são filmadas com mestria, a fotografia e o design de produção são de uma beleza inescapável e as diabólicas criaturas que alimentam os nossos pesadelos estão mais aterradoras do que nunca – é uma alegria inexplicável tornar a ver um dos grandes Monstros do cinema a regressar à ação em grande forma.

 

Os efeitos visuais são, em grande medida, impecáveis e não intrusivos. Dizemos em grande medida e não no todo porque devemos, no entanto, deixar a nota curiosa de que, não obstante o quase inacreditável Estado de Arte das glórias dos efeitos digitais, não pudemos deixar de olhar com ligeira desilusão a "computorização" óbvia sofrida pelo Xenomorfo. Um dos inegáveis prazeres de assistir ao original de 1979 é sentir a presença palpável do Monstro na sala (que era, afinal, "um homem num fato"), e Covenant cai por vezes na clássica tentação de destronar o célebre dito popular do "menos é mais" com uma versão algo insuflada do "mais é melhor", exibindo em demasia e em sequências longas as suas criações, o que por si só permite um olhar mais cuidado às (nem sempre) subtis camadas de CGI que o permeiam.

 

O elenco bem composto é idóneo e competente nos limites do que o argumento permite. À parte da protagonista Katherine Waterston e do sempre incomparável Michael Fassbender, os restantes tripulantes sofrem do mal recorrente da construção excessivamente bidimensional e da peculiar tendência para tomar péssimas decisões, o que dificulta a ligação emocional com a audiência, por mais escabrosa que a sua morte seja.

 

Surgindo como uma espécie de herdeira de Ellen Ripley, Daniels é uma protagonista forte mas também vulnerável, definida pela sua inteligência emocional e instinto. Waterson é eficiente no retrato e nos trâmites da ação, mas sofre também com algum subdesenvolvimento do seu arco de personagem, que empalidece consideravelmente quanto comparado ao de Ripley ou mesmo de Elizabeth Shaw de Prometheus.

 

Michael Fassbender volta a ser a estrela da companhia, desta vez a duplicar, dando corpo a duas personagens que, mesmo completamente distintas, devem partilhar uma série de similaridades. A exploração da psicologia perversa dos androides, da natureza da criação e da relação entre "filhos" e criadores é particularmente fascinante, mas uma vez mais perde impacto ao ter de dividir tempo de antena com "outro filme" completamente distinto.

 

Será sensato dizer que, tanto para os que defendiam uma sequela de Prometheus ou os que ansiavam um Alien puro, o ponto mais importante do ponto de vista cinematográfico é, aliás sempre, que o produto final seja uno e estruturalmente coerente. Covenant nunca o consegue ser, mas mesmo com todas as suas faltas, resiste facilmente à classificação de "mau filme", tal é a excelência envolvida na sua produção.

 

Recuperando as palavras de Lawrence da Arábia que David repisa em Prometheus quase como um mantra: "the trick is not minding that it hurts".

pub
Faltam 300 caracteres
pub
pub
topo