Cinema: A Bela e o Monstro


Depois de Alice, Cinderela e Mogli, é a vez de Belle dar o pulo para o grande ecrã num festim de extravagância musical que fará as delícias dos milhares de espectadores que trará às salas de cinema.

A Bela e o Monstro Trailer Oficial

Cinema: A Bela e o Monstro


Depois de Alice, Cinderela e Mogli, é a vez de Belle dar o pulo para o grande ecrã num festim de extravagância musical que fará as delícias dos milhares de espectadores que trará às salas de cinema.

16 Mar 2017 • 15 16 H



Há quem lhe chame, com coragem inabalável e razão questionável, o melhor filme de animação alguma vez criado; há quem diga que a protagonista foi crucial para a ramificação do progressismo contemporâneo das Princesas Disney; ou ainda aqueles que não deixam de suspirar por uma das mais belas e genuínas histórias de amor dos anos 90 – síndromes de Estocolmo à parte, claro está.

Seja qual for o seu lado da barricada, a verdade é que será virtualmente impossível não conhecer de antemão o fenómeno de A Bela e o Monstro, a 30ª animação do estúdio Disney e a terceira entrada no cânone que é vulgarmente reconhecido como "o período renascentista" do estúdio, que depois da "era Negra" dos anos 70 e 80, teve uma ressurgência criativa produzindo uma série de sucessos críticos e de bilheteira até ao final dos anos 90.

Baseado no conto de fadas de Jeanne-Marie Leprince e repescando algumas ideias originais de uma adaptação francesa de 1946 de Jean Cocteau, a grande produção musical da Disney faz o relato da fantástica viagem de Belle, uma rapariga inteligente e muito bonita, que é feita prisioneira num castelo por um hediondo monstro. Mas apesar da sua precária situação, Belle faz amizade com todo os encantados ajudantes do castelo e acaba por aperceber-se que por baixo do exterior monstruoso do seu captor, existe o coração e a alma de um verdadeiro príncipe. O resto são páginas de história escritas a tinta dourada.

O estatuto de clássico não demorou a assentar-lhe como uma luva e no ano seguinte, tornou-se o primeiro filme de animação da história a ser nomeado para um Óscar na categoria de Melhor Filme; feito este só novamente alcançado em 2009 pelo extraordinário Up – Altamente da Pixar.

Toda esta contextualização de grandeza e relevância cultural é absolutamente crucial para compreender a pressão que recai sobre os ombros do remake live-action que lhe sucede 26 anos mais tarde – numa coadunação com a estratégia iniciada pela Disney de recriar, com atores e cenários reais (ou, pelo menos, minimamente verossímeis), alguns dos seus maiores clássicos de animação como Alice no País das Maravilhas (2010), Maléfica (2014), Cinderela (2015), O Livro da Selva (2016), A Lenda do Dragão (2016) e outros tantos que estão a caminho.

Realizado por Bill Condon (Dreamgirls, A Saga Twilight: Amanhecer), A Bela e o Monstro é um espetáculo pródigo e guloso, nem sempre totalmente afinado ou estimulante, mas que apesar de não superar o original – e na realidade, dificilmente podia fazê-lo – surge como uma "besta" de entretenimento de tamanho e amplitude capaz de arrasar a bilheteira como uma locomotiva a todo o vapor.

Começamos por relembrar que um remake é, sempre e à partida, um espinhoso pau de dois bicos: por um lado, há que não fugir demasiado à história original com prejuízo de amolgar o sentimento nostálgico que se pretende recuperar; por outro, há que embebê-lo de uma energia própria e reajustada que lhe justifique a existência. Detratores de ambos os males haverá sempre, mas a verdade é que A Bela e o Monstro aponta para um equilíbrio notável, recuperando de forma fiel os traços gerais da história que em primeiro lugar nos apaixonou, mas fortalecendo-a com algumas necessárias atualizações para o seu necessário reenquadramento sociocultural do séc. XXI – chefe entre elas é a reinterpretação de Belle, que apesar de já partir como uma das pioneiras princesas Disney a laborar pela emancipação da figura independente feminina, surge aqui ainda mais empreendedora, independente e Mulher.

A componente visual é uma explosão de luxúria para os sentidos. Os efeitos visuais alinham-se com o design de produção na criação de alguns dos cenários mais exuberantes que poderá ver no grande ecrã, uma espécie de rococó em esteroides que certamente recupera alguma da maravilha experimentada no original. A construção dos personagens secundários "amaldiçoados" é notável e milagrosamente verossímil, mas peca talvez pela inexpressividade de quase todos eles – especialmente se tivermos em conta o afeto ternurento que esbanjavam os seus pares na versão animada.

Se havia elemento problemático que era essencial adereçar com todos os mais aprimorados cuidados eram os afamados números musicais clássicos que assumem nesta obra uma relevância emocional e dramática particularmente considerável. Na nova versão live-action são, como dizer?... agridoces - ora incrivelmente inspirados, ora marginalmente desapontantes. Pode ser que tudo isto seja fruto de um sempre desmerecido edificar de expectativas, mas acabam por ser os números mais secundários a brilhar (a deliciosa visita-guiada pela aldeia ao som de Belle ou o elétrico hino a Gaston na taberna) no lugar dos esperados showstoppers (um irregular Be my Guest e um ligeiramente insosso (Beauty and the Beast/Tale as Old as Time").

No elenco, Emma Watson dá corpo físico à emancipação de Belle de forma convincente ainda que a aparência jovem arrisque pontualmente a força da sua presença. Dan Stevens tem o trabalho mais complicado mas geralmente bem conseguido de passar as dicotómicas emoções do Monstro através de uma massa quase impenetrável de efeitos visuais. O elenco secundário povoado pelo talento de Ian McKellen, Emma Thompson e Ewan McGregor tem oportunidade de brilhar em momentos oportunos, mas o grande destaque vai evidentemente para o tão atraente como monstruoso Gaston de Luke Evans que parece ter nascido para o interpretar.

Menos conseguido do que o irresistivelmente ternurento A Lenda do Dragão ou o inventivo O Livro da Selva, A Bela e o Monstro é, no entanto, uma carinhosa toada de entretenimento nostálgico e familiar na linha do competente Cinderella que vai, seguramente, deixar na boca o gostinho da saudade de revisitar o original animado pela enésima vez. E, honestamente, que mal há nisso?

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