“Innocentia” de Maria Mendes

É uma alma lusitana no jazz e está em Portugal para apresentar o novo álbum “Innocentia”, no Misty fest, nos dias 6 e 7 de novembro. Falámos com Maria Mendes.
© Joel Bessa

“Innocentia” de Maria Mendes

É uma alma lusitana no jazz e está em Portugal para apresentar o novo álbum “Innocentia”, no Misty fest, nos dias 6 e 7 de novembro. Falámos com Maria Mendes.
02 Nov 2015 • 17 07 H



Do Porto, nasce mais uma grande voz que, embora radicada na Holanda, regressa ao país para provar que a música Jazz é mais do que o convencional repertório clássico. Depois do aclamado "Along The Road", disco de estreia da cantora – aplaudida até pelo produtor musical e compositor norteamericano Quincy Jones: "Vejo um brilhante e promissor futuro para esta jovem e talentosa cantora" -, Maria apresenta já esta semana o seu segundo album "Innocentia". Com composições mais contemporâneas e puras, será possível testemunhar os novos temas nas salas de espetáculo do Misty Fest - em Lisboa, dia 6 de novembro, no CCB; e no Porto, dia 7 de novembro, na Casa da Música.

 

A propósito da sua passagem por cá, falámos com Maria Mendes para perceber a essência de "Innocentia".

 

O que significa "Innocentia" para si?

Sinto que existe uma vulnerabilidade delicada na inocência humana que é muito mais adulta do que na ‘criança’. Quis aprofundar essa vulnerabilidade neste disco, apropriando-me de escolhas musicais que a  pudessem expressar de forma pura e bela, sem tristeza e drama, mas sim profunda! Deste modo, para mim, o elemento comum nas histórias e músicas é a inocência.

 

Mais pessoal, este segundo álbum reflete momentos de nostalgia. Até onde vai essa viagem no tempo?

Esta viagem começa com a canção "Innocentia", representativa das memórias de infância de quando tinha 5/6 anos. Recentemente, encontrei num baú em casa dos meus pais, no Porto, fotografias de momentos de ternura e nostalgia da minha infância com as minhas irmãs. Algumas fotos de momentos felizes e cheios de brincadeiras com a minha "irmã do meio" desencadearam a escrita. Já com a canção "Innocent Travels", a viagem é atual pois escrevi-a para o meu sobrinho, mas a história funciona também como uma viagem nostálgica à (nossa) infância. Esta canção é o primeiro single do disco e descreve a ligação de amor e carinho que julgo que qualquer um de nós - com filhos, netos, sobrinhos, afilhados - identificará este laço forte e inexplicável de ternura e proteção.

 

Como surgiu esta paixão pelo jazz?

A minha família sempre me proporcionou atividades especiais de sensibilidade artística, então a submersão no jazz foi progressiva, mas o que veio primeiro foi mesmo a música clássica, pois ouvia-se em casa muitos discos de vinil e também CD's de Vivaldi, Puccini, Chopin, entre óperas e orquestras sinfónicas diversas. A primeira formação artística foi na Academia de Música de Vilar do Paraíso e no Conservatório Regional de Gaia, em canto clássico e em piano. Foi na curiosidade de remexer nos álbuns de Frank Sinatra e Nat King Cole, "perdidos" nas estantes da casa dos meus pais, bem como nas longas viagens de carro em tempo de férias a ouvir a música preferida da minha irmã mais velha, que fui moldando o gosto pelas harmonias e ritmos diferentes. Aos 16 anos, numa tertúlia entre amigos, experimentei pela primeira vez o ‘My Romance’ e o ‘Somewhere Over the Rainbow’. A sensação de liberdade abriu-me as portas de um universo que não quis perder mais. Após terminar o liceu, e os meus 7 anos de curso complementar de canto clássico, dediquei um ano a estudar e a aprofundar o swing e algumas das harmonias do jazz de modo a poder concorrer à ESMAE do Porto para a licenciatura de jazz. A partir daí, seguiram-se alguns meses no programa Erasmus no conservatório de Roterdão onde acabei por concluir o meu mestrado em 2009, em canto jazz.

 

O processo de compor originais implica alguma curiosidade e pesquisa em busca da novidade. Como funcionou esse processo para si?

O processo de compor é sempre incerto e único. Cada canção comporta-se de forma especial no meu pensamento e na minha mão, quando a escrevo em papel de partitura. Por exemplo, a canção "Innocentia" escrevi-a num ápice, num dia de verão quando encontrei as fotografias da minha infância no baú em casa dos meus pais! Primeiro, surgiu a letra e depois a melodia/harmonia. A canção "Inverso" andei a brincar com a harmonia durante semanas. A letra foi surgindo à medida que a harmonia começou a puxar outras ideias melódicas na minha voz. Já a letra que escrevi para a canção existente do Pat Metheny, "Travels", fluiu com uma leveza e certeza na escrita de a querer dedicar ao meu sobrinho bebé. Não procuro a novidade no meu processo de escrita, mas procuro sim apurar a minha curiosidade e o meu ouvido, bem como em fazer-me rodear pelas melodias/histórias e experiências certas.

 

O seu álbum de estreia foi muito bem recebido. Como encarou todas as criticas positivas, incluindo do grande critico de música Quincy Jones, à sua música?

É sempre uma surpresa o que vem de retorno quando, após um longo processo de semanas/meses a trabalhar nas novas músicas e histórias, as partilhamos com o público, com os críticos e com a imprensa. Sinto-me sempre muito feliz e agraciada com os elogios que recebo referentes à minha música, pois ela advém da entrega pessoal diária ao que escrevo e componho. O "Along the Road" correu o mundo com criticas positivas e algumas delas lisonjeantes, como a que recebi do Quincy Jones, mas que vaticina uma responsabilidade acrescida da minha parte em continuar o meu trabalho de forma exemplar e séria, e igualmente importante para mim: ser o mais pessoal a cantar/contar histórias reais.

 

De regresso a Portugal para dois concertos especiais, um deles na sua terra natal. Quais as expetativas para estes espetáculos e o que podemos esperar?

Boas expectativas sempre! Estou muito feliz por contar com uma maravilhosa equipa nacional de grandes músicos de jazz - João Paulo E. da Silva (piano), Carlos Barretto (contrabaixo), Joel Silva (bateria) e Ricardo Toscano (clarinete) – que me acompanhará no CCB e na Casa da Música. É bom regressar à Casa da Música e estrear-me no grande CCB, estou deveras entusiasmada em poder cantar estas novas canções para o meu querido público. Do concerto esgotado de ante-estreia do "Innocentia" na Holanda, o feedback que recebi foi muito carinhoso, e com uma descrição comum: uma viagem às memórias da infância e uma oportunidade doce para revistar a nostalgia do que fomos e do que somos agora.  

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