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Agenda 24. 1. 2018

À grande e à francesa

by Patrícia Domingues

 

Suave, sofisticado, divertido e drama free, o novo e quinto álbum de Carla Bruni, French Touch, chega-nos como a banda sonora que podia ter tocado ao longo da sua vida — mas nunca saberá do que estou a falar enquanto não ouvir a sua versão de Highway to Hell

Carla Bruni © Getty Images

 

"Desculpa, peço imensa desculpa, o meu filho está a ligar-me da escola. Vou ter de chamar um táxi para o meu filho, acreditas? Desculpa.” Uma mãe tem de fazer aquilo que uma mãe tem de fazer. Estou há cerca de quinze minutos ao telefone com Carla Bruni e esta não era exatamente o tipo de citação que estava à espera de encontrar da mesma pessoa que, pouco antes de casar com Nicolas Sarkozy, disse “a monogamia aborrece-me terrivelmente” ou que chamou “lunático” a Donald Trump depois de um aparente falso rumor sobre um date falhado nos anos 90. E, no entanto, resume tão bem os mil ofícios na vida de uma mulher. Uma mulher que poderia ser a leitora, eu ou Carla Bruni. Tirando que eu não tenho filhos. Nem nunca fui uma supermodelo, nem ex-primeira-dama (suponho que, desse lado, também não).

Poucos podem gabar-se de ter conciliado uma vida entre o número um dos tops de música, as passerelles onde qualquer modelo mataria para estar e o Palácio do Eliseu, em Paris — ou, como diria Fatboy Slim, You’ve Come a Long Way, Baby —, mas não Bruni. Bruni gaba-se pouco, embora seja explícito no seu discurso uma certa arrogância expressa com classe. Blasée, chamar-lhe-iam na sua língua. Não que não seja simpática, atenção, mas vai rematando as perguntas com um sim ou não, fintando as areias movediças de uma típica entrevista, tal como uma pro, e dando espaço ao que quer. Começámos pelo motivo que a fez atender esta chamada, o seu novo álbum. “Este álbum é como um souvenir. Todas as músicas do álbum são músicas que canto creio que desde que sou adolescente, são canções que tenho no meu coração e que toco com a minha guitarra. Adorei fazê-lo porque me trouxe de volta a uma idade muito jovem” — descreve Carla. French Touch é um álbum de covers que sente como se fossem originais, “músicas que me levaram a escrever as minhas próprias canções, antes de me tornar numa compositora”.

© instagram.com/carlabruniofficial

Carla sempre quis fazer música, embora nunca tivesse sido claro como ou quando. Começou por tocar piano e violino, e foi só quando recebeu a sua primeira guitarra que ganhou voz. Diz que escreve canções quase todos os dias, que já não se diverte, como nos bons velhos tempos, e que a música acaba por ser a sua maior extravagância diária. Diz que é um trabalho simples, “basta estar sozinha”. E ela sempre adorou estar sozinha. Mesmo quando era uma supermodelo que desfilava para a Chanel ou a Versace, ou fotograva para mais de 250 capas de revistas (e levava escondida dentro de uma Vogue uma cópia de Dostoiévski para ler entre a maquilhagem e os cabelos), a sua cabeça estava entregue à música (e não, não estou a referir-me a Eric Clapton ou Mick Jagger). Ela despediu-se do mundo da Moda para lançar o seu primeiro álbum, Quelqu’un m’a Dit, no auge das supermodelos dos anos 90, e até chegou a lançar um disco entre os seus afazeres políticos como primeira-dama de França. Em French Touch, foi ela quem escolheu as músicas, as gravou no estúdio de casa e as enviou a David Foster, o lendário produtor de Beyoncé, Rod Stewart e Michael Jackson que Carla conheceu num concerto seu em Los Angeles. Correção, após um concerto seu em Los Angeles, quando se sentaram para beber um copo. “Ele disse-me ‘adoro a tua voz, mas não percebo nada de francês’, e a minha música é muito francesa, sabes. Ele perguntou-me então porque não escrevia em inglês e eu expliquei-lhe que já tinha tentado mas não conseguia. E ele disse ‘okay, vamos fazer uns covers’. E foi assim, tão simples.” Essa simplicidade está latente em cada uma das onze faixas de French Touch, que incluem Enjoy the Silence, dos Depeche Mode, Miss You, de Mick Jagger, e Moon River, de Audrey Hepburn, e na própria intérprete. Sentiu-se intimidada por estar a dar nova voz a lendas da música? Um "nãooo" superlongo seguiu-se de uma justificação que me pareceu adequada: “Uma canção é só uma canção.”

Carla Bruni nasceu em dezembro de 1967, em Turim, em Itália, mas, aos cinco anos, mudou-se para França e, desde então, quase ninguém se lembra de que ela é italiana. Aos dezanove anos, desistiu dos es- tudos de arte e arquitetura para se tornar modelo a tempo inteiro. uando chegamos aos anos 90, era uma das modelos mais bem pagas da indústria. E o que é que ela fez com todo esse sucesso? Já sabemos, virou-lhe costas e voltou-se para o seu primeiro e verdadeiro amor: a música. (Eventualmente, também acabou por cruzar-se com outro grande amor, Nicolas Sarkozy, em 2007, mas sobre isso já pouco mais há a acrescentar). “Tenho tendência para sonhar. Gosto de passar horas a olhar para o céu, de passear e descontrair. Sou o oposto de alguém ambicioso” — diz. E depois, sim, abre-se caminho para um assunto que estou mortinha para perguntar-lhe. Em dezembro de 2012, numa entrevista à Vogue Paris, afirmou: “A minha geração não precisa de feministas.” E, depois, sugeriu que o melhor seria que as mulheres ficassem em casa com as crianças. “Não sou feminista porque eu nasci numa altura em que as feministas já tinham feito um trabalho muito bem feito. Percebes o que quero dizer?” — esclarece cinco anos depois daquela polémica, e talvez mal-entendida, frase. “Mas estou definitivamente do lado das mulheres, mas não sou como uma ativista. Sou mais do tipo hippie” — remata, à la Bruni. Quando era primeira-dama, ela conta que havia quase uma irmandade entre as primeiras-damas, que eram muitas vezes postas de parte quando não cabiam nas agendas políticas dos maridos. “É um momento tão estranho na vida em que — ou, perdão, um momento tão particular — não tens ninguém à tua volta com quem o possas partilhar. Não havia assim tantas pessoas que se sentissem exatamente da mesma forma como eu me sentia sem serem elas.” Diz que sentiu o mesmo em setembro, no mítico reencontro entre supermodelos para a Versace. “E não é só entre nós. Olhamos para esta nova geração de modelos como se fossem filhas. Bom, algumas delas são efetivamente nossas filhas. Olha o caso da Cindy Crawford que desfilou com a Kaia.”

 

 

Carla diz que a maternidade a ensinou a pôr alguém antes de si em qualquer situação, “como esta, no meio de uma entrevista para a Vogue [ri-se], mas podes ser assim mesmo sem ter filhos. Essa natureza generosa”. Pergunto-lhe se já era assim. “Eu não.” E ri-se outra vez. “Sempre fui um bocado egoísta, é do meu temperamento, mas já fui mais.” Se olhasse para trás, para a miúda recém-chegada ao mundo da moda com dezanove anos, o que lhe diria? “Eu era muito livre e feliz quando era nova. Naturalmente feliz. E diria para continuar assim.” É o que tenta passar aos seus filhos? “Sim, digo sempre para olharem para o lado bom da vida, para serem positivos.” E é assim que vive a sua vida? “Bom, não tanto, mas eu tento, eu tento. Sou uma sortuda, por isso, tento ficar feliz pela sorte que tenho.” E se a sua versão de vinte anos olhasse para a Carla de agora, de 49 anos, o que acharia dela? “Oh, não sei. Eu nunca olhava para as pessoas velhas quando tinha vinte anos.” Ri-se muito. Ora aqui está aquela Carla de que eu andava à procura. 

 

Artigo originalmente publicado na edição de dezembro da Vogue Portugal.

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