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Cinema: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Tendências 27. 7. 2017

by Catarina D'Oliveira

 

O realizador de Léon: O Profissional e O Quinto Elemento está de regresso com uma ópera espacial excêntrica que vai abanar os Cinemas.

Exatamente 20 anos depois de estrear O Quinto Elemento, Luc Besson regressa ao género de ficção científica para trazer para o grande ecrã a adaptação da banda-desenhada francesa de culto criada pelo autor Pierre Christin e pelo ilustrador Jean-Claude Mézières, Valérian et Laureline. 

Assumindo uma designação cinematográfica potencialmente mais poética, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas transporta-nos para o longínquo século 28, onde Valerian e Laureline são dois agentes especiais encarregados de manter a ordem em todos os territórios humanos, e sob as ordens do Ministro da Defesa, embarcam numa missão até à espetacular cidade de Alpha, uma metrópole em constante expansão para onde espécies de todas as partes do cosmo convergiram durante séculos para partilharem conhecimento, inteligência e culturas. Mas há um mistério no centro de Alpha, algo que não é o que parece, uma força negra que ameaça a pacífica existência da Cidade dos Mil Planetas, e Valerian e Laureline vêem-se obrigados a identificar a fonte desta sinistra ameaça e salvar o dia.

Com um orçamento estimado de 180 milhões de dólares, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas destaca-se facilmente como o filme francês mais caro alguma vez produzido – e apenas alguns furos abaixo de algumas das grandes produções de Hollywood que vimos surgir nos últimos anos como X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014), Rogue One: Uma História de Star Wars (2016) ou Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017), todos eles orçamentados na ordem dos 200 milhões de dólares. Isto para dizer que cada dólar rende aquilo que transparece no ecrã.

A ópera espacial de Luc Besson é definitivamente uma obra de beleza singular, visualmente ousado e esteticamente vanguardista, é um dos mais fascinantes espetáculos de magia cinematográfica que verá este ano nos cinemas. O prólogo inicial é particularmente arrebatador, seguindo depois para uma inspirada sequência de créditos que estabelece muitíssimo bem – e sem exposição desnecessária – o desenvolvimento e edificação da cidade titular de Alpha. Ao banhar o ecrã com uma vitalidade exuberante, Valerian traça um retrato relativamente otimista do futuro – uma boa mudança das tradições mais negras do género – onde milhares de espécies coabitam em harmonia, não obstante a imundice pontual de um vilão de serviço. Cada criação singular – e há tantas! - é um ponto obrigatório de interesse naquele que é, sem sombra de dúvidas, um dos universos de ficção científica mais ricos alguma vez transpostos para o grande ecrã: onde a ficção cientifica é, regularmente, tristonha e sombria, Valerian é profusamente colorido e imaginativo.

Ora enquanto Luc Besson se ocupa a sugar-nos energicamente para o maravilhoso mundo criado, a sua taxa de sucesso está ao rubro. Mas quando a cadeia de eventos desacelera e se toma a liberdade de assumir longos períodos de exposição e/ou interações demoradas entre personagens que não estão propriamente a contribuir para o avanço da história, o filme fraqueja, encurralando-se numa atmosfera estéril de um argumento geralmente pobre. Subitamente, o que se ganha em distinção estética e exuberância visual perde-se em fragilidades narrativas. Com personagens principais competentes, mas não demasiado carismáticas, Valerian nunca consegue superar a genialidade do seu primeiro ato, tropeçando numa sinuosa secção mediana que retira força e dinamismo à conclusão que se queria épica.

Sendo óbvio o carinho e afeto de Besson por este universo – pelo qual é apaixonado desde os 10 anos de idade – esta enfatuação com o material revela-se um pau de dois bicos, onde a inocência de um amor infantil lhe confere algum charme juvenil que está ausente de outros maiores e mais carrancudos primos distantes, mas que ao mesmo tempo lhe tolda o foco e a narrativa fica repetidamente atolada em cenários e personagens secundárias – o arco narrativo de Bubble, a personagem de Rihanna é um destes exemplos, ainda que o entusiasmo da cantora dê um brilho renovado às cenas que protagoniza e seja sempre uma mais-valia para o projeto. A mistura bizarra entre géneros também não favorece particularmente, alternando-se de forma pouco fluida ou informada entre a comédia, o romance e a aventura – a prova de que é possível fazê-lo está, por exemplo, em Guardiões da Galáxia da Marvel. 

Dane DeHaan e Cara Delevingne não comprometem na figura de protagonistas e partilham, inclusive, uma química faiscante, dinâmica e interessante de acompanhar – e que pretende ser um dos núcleos emocionais da história. No entanto a sua performance sofre também com algumas opções narrativas – por exemplo, de os afastar por um longo período de tempo no segundo ato – e particularmente com um diálogo que não faz jus ao estatuto da obra, caindo muitas vezes no cliché da sobre-exposição e das frases feitas que quase nos dão um ataque de coceira compulsiva.

Em retrospetiva, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas teria possivelmente funcionado melhor como uma história de origem para criar contexto uma vez que, para a esmagadora maioria do público em sala, o background da saga é largamente desconhecido, e poderiam aqui eliminar-se diversas quezílias narrativas que minam o seu caminho para a grandeza.

Todavia, do alto da sua natureza selvagem, estranha e extravagante, nada lhe retira o título de uma das exibições de criatividade mais vívidas do ano, porque simplesmente não verá nada em cinema que tão facilmente o arranque da cadeira e o arraste numa fascinante jornada por um universo que se sente original e verdadeiramente novo. E só por isso já fica a valer a pena a aposta. 

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