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Tendências 21. 7. 2017

Cinema: Dunkirk

by Catarina D'Oliveira

 

Visceral, intenso e arrebatador, o épico bélico de Chritopher Nolan rompe os tradicionalismos do género para emergir como um dos grandes triunfos cinematográficos do ano.

Maio de 1940: a 2ª Grande Guerra como hoje conhecemos começa sobretudo aqui. Depois de meses de uma teatral paz ténue e fragilizada, as forças alemãs avançam pelos Países Baixos e Bélgica e, eventualmente capturam Calais, cercando cerca de 400.000 Soldados Aliados na zona costeira da fronteira franco-belga. Encurralados e obviamente derrotados, os Aliados sofreram perdas incalculáveis numa jogada de xadrez inteligente que poderia ter mudado o curso da Guerra, mas durante nove dias que pareceram meses, mais de 300.000 soldados foram evacuados da costa francesa junto à pequena cidade de Dunquerque.

A operação Dínamo, como ficou conhecida, resultou de um dos maiores erros militares da história, mas reconhece-se também como uma das mais incríveis operações de resgate de que há registo, e uma colossal vitória humana.

É este o objeto da 10ª longa-metragem de Christopher Nolan, o visionário realizador americano por detrás de clássicos contemporâneos como Memento(2000), A Origem (2010) e a trilogia de O Cavaleiro das Trevas (2005, 2008, 2012). Implacavelmente tenso e imersivo, Dunkirk é um épico histórico como nenhum outro, que transforma um dos momentos mais determinantes de um dos maiores conflitos da nossa história num thriller tenso que durante 106 minutos completos não nos dá tempo de respirar e nos banha ininterruptamente com uma mágoa latente. Mas curiosamente, a intensidade de Dunkirk não vive da exploração fácil da violência. A trabalhar com um rating de PG-13, Nolan foge propositadamente ao grafismo da matança sanguinária, optando por se focar nas provações emocionais, psicológicas e espirituais dos jovens soldados.

Com a precisão a que nos habituou, Nolan aproveita também para regressar à exploração das diferentes noções de tempo, onde encontramos três frações da história – os soldados e oficiais na costa francesa, os civis em missão de salvamento em alto mar, e os pilotos da Força Aérea que enfrentam desafios impossíveis - em três momentos de desenvolvimento diferentes e que se vão intersetando inesperadamente ao longo da narrativa.

Muito ao contrário do que acontece noutros exemplares verbosos da filmografia de Nolan, Dunkirk é particularmente silencioso – ou não se tivesse o realizador inspirado em clássicos mudos como Aves de Rapina (1924), Intolerância (1916), e Aurora (1927) -, desdobrando-se apenas no essencial da exposição para evidenciar com mais relevo a situação retratada. Com menos de duas horas, é o filme mais curto da sua carreira, uma obra esguia sem qualquer porção de matéria gorda adicionada.

Naquela que pode ser simultaneamente uma das suas maiores virtudes e maldições, Dunkirk quer-nos obrigar a experimentar este momento fundamental sem o reduzir a uma experiência individual e emocional, mas expandindo-se a acompanhar a experiência generalizada e claustrofóbica dos 400.000 soldados encurralados. Mesmo acompanhando pontualmente personagens específicos, o seu contexto emocional é mínimo para contribuir para este ponto de vista. Consequentemente, Dunkirk é visual e sensorialmente imponente, uma experiência tão veemente que se torna quase física, mas que sofre geralmente da ausência de um núcleo emocional mais focado o que cria uma espécie de vácuo empático – literalmente, a única queixa que conseguimos deslindar deste épico atmosférico, brutal e implacável e, aliás, uma anotação recorrente na filmografia do realizador.

O elenco trabalha em absoluta sincronia com a obra – desde os sempre confiáveis veteranos Mark Rylance, Cillian Murphy e Tom Hardy até aos novatos Fionn Whitehead, Aneurin Barnard, Tom Glynn-Carney e até – contra todas as mais temerosas expectativas – o "One Directioner" Harry Styles.

No entanto, e como acontece apenas em raras instâncias, a grande estrela de Dunkirk é o próprio filme – uma experiência envolvente e inesquecível que faz justiça a uma incrível história de sobrevivência numa sinfonia aos bravos e despedaçados que se encabeça facilmente como um dos Melhores Filmes de Guerra do novo milénio.

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